O MANIFESTO

Em 1989, na primeira eleição para presidente após a ditadura, correu pela cidade um manifesto de apoio a Lula no segundo turno. Gente de todas as áreas assinou o texto de apoio ao metalúrgico que enfrentaria o bacana de Alagoas.
O manifesto teve a assinatura de profissionais de todas as áreas, professores, artistas, jornalistas, arquitetos, médicos, escritores, engenheiros, sindicalistas.
Foi impresso e distribuído em Porto Alegre, de mão em mão. Era uma folha enorme, dobrada em quatro, como se fosse quatro páginas de jornal.
O texto foi assinado por muitos colegas da redação de Zero Hora. Eu assinei e isso não significa nada de excepcional, porque, mesmo sob a tensão daquele enfrentamento, os jornalistas se posicionavam (quem tiver uma cópia do manifesto, que se manifeste).
Escrevo agora e enxergo aquela folha dobrada, com os nomes em letrinha miúda, sempre pensando na situação de hoje, em que as grandes redações, sob a mordaça dos altos comandos executivos das corporações, não teriam como largar algo parecido, ou teriam? Com nomes? Acho que não.
É triste, porque em algum momento, em todas as situações em que a democracia esteve sob ameaça, os jornalistas arranjaram um jeito de reagir e se manifestar.
Estamos em outros tempos (nos tempos do modo Havan) e eu os entendo e os respeito.

O TOGADO OSTENTAÇÃO 

Ao ler seu relatório rococó sobre a impugnação da candidatura de Lula, Luis Roberto Barroso sempre procurou pisar no Comitê de Direitos Humanos da ONU. Era preciso desqualificar o comitê.
Entre outras coisas, disse que o comitê tem oito membros (e que seriam apenas peritos…) e que apenas dois emitiram parecer no sentido de cobrar do Brasil o direito de Lula de disputar a eleição.
Se o comitê é formado por peritos dedicados a avaliar situações de afronta aos direitos humanos, mas não por togados como ele, é um comitê menor.
Barroso acha que a opinião de dois membros do comitê não vale nada. Mas ele mesmo, Barroso, é um dos campões das tais decisões monocráticas do Supremo.
Barroso já decidiu sozinho sobre questões controversas, como quando restringiu a anistia de fim de ano a presos, assinada pelo jaburu, por entender que condenados por corrupção não poderiam ser beneficiados.
Fez uma média com os justiceiros da moralidade, mas foi bombardeado por juristas. Barroso não teria autoridade para mexer numa decisão que é da prerrogativa do presidente da República, estando ele certo ou errado, de acordo com as subjetividades da tão conservadoramente subjetiva e golpista Justiça brasileira.
Barroso reafirmou-se ontem como a figura mais pernóstica (esta é a palavra) do Supremo, o ministro que, se pudesse, usaria punhos com rendas.
Que expressa superioridade pela sobrancelha esquerda sempre erguida, que fala como personagem de série de época e que abusa dos esforços para parecer erudito.
Barroso é o juiz ostentação, de uma aparente sofisticação que balança plumas para a plateia da direita. Mas alguém o colocou lá. Ele não é a tartaruga que subiu na árvore só porque fala latim.

Manu

Hoje, na caminhada pelo centro com Miguel Rossetto, Ana Affonso, Olívio, Abigail e candidatos a deputado federal e estadual por PT e PCdoB, eu ganhei a minha versão da foto de Lula com Manuela em Porto Alegre, em janeiro, três meses antes do encarceramento do presidente.
A foto do Lula é da Adriana Franciosi. A minha com a Manuela é do Emílio Pedroso, meu amigo e baita parceiro na campanha a deputado estadual.
Para quem quiser saber o que eu disse à Manuela, aqui está: “Estou bem faceiro por caminhar ao lado da tua energia e da tua alegria”.
Ela sorriu e me disse: “Eu também”. E seguimos cantando os cânticos dos democratas. Olívio era o que mais cantava.

Ricardo Stuckert

Fiz uma brincadeira ontem com esta imagem da multidão na Lapa, no Festival Lula Livre, e disse que havia sido captada por um satélite de propriedade de Lula.
A foto, como muita gente disse aqui várias vezes, e todo mundo sabe, é do talentoso Ricardo Stuckert, o autor das mais belas imagens de Lula e a respeito de Lula, inclusive as pilotadas por drone.
Ricardo faz lindas fotos de Lula, mesmo quando ele não aparece na imagem, mas suas ideias aparecem.

A JUSTIÇA TENTA AMORDAÇAR LULA

Todos os grandes repórteres policiais que conheço tiveram alguns de seus melhores momentos entrevistando gente encarcerada. Há entrevistas históricas de encarcerados.
Eu entrevistei gente presa, dentro da cadeia. Me lembro do meu primeiro entrevistado na prisão, um homem que matou a mulher em Alegrete no início dos anos 70.
Folharada, o famoso assaltante gaúcho dos anos 70, foi entrevistado por mim numa cadeia em Ijuí. E eram tempos de ditadura.
O direito do preso de se manifestar, mesmo que isso nem sempre seja bem aceito, é consagrado por leis e convenções internacionais.
Mas a Justiça vem, repetidamente, negando que Lula seja entrevistado. A notícia de hoje é esta: o Superior Tribunal de Justiça negou mais uma vez o pedido para que Lula conceda uma entrevista.
Por que o Judiciário permite que o jornalismo de espetáculo faça entrevistas humilhantes com negros e pobres presos e não cede nada em favor de Lula?
Porque Lula não é preso comum. Lula é preso político, e preso político deve ser mantido amordaçado.
Eles temem o que Lula pode dizer. Mas uma hora Lula terá de falar e vai falar.

A MARCHA DE SERGIO MORO

Leio agora a manchete da Folha: Procuradoria-Geral da República informa ao Superior Tribunal de Justiça que o juiz Sergio Moro “atuou de forma imparcial durante todo a marcha processual” contra Lula no caso do sítio de Atibaia.
Não entendo porque a PGR se refere ao andamento do processo como marcha. Eu e a torcida do Flamengo achamos que a marcha foi rápida demais.
Mas nós somos leigos. Se a PGR diz que marcha foi normal, é porque deve ter sido.
Mas quem entende de marchas poderia explicar a marcha lenta do processo da tragédia da Boate Kiss, que não avança há cinco anos e meio.
Será que a marcha contra Lula é diferente da marcha do processo que pede a reparação pelo menos moral pela morte de 242 jovens?
Por que marcham tão rápido contra Lula e marcham tão devagar para punir os que conduziram os jovens à morte?
Sem falar nos processos que nunca marcharam contra tucanos corruptos impunes.

O rosário

A direita comemora hoje qualquer coisa, como essa história de que o rosário entregue a Lula não foi mandado pelo papa Francisco.
É um rosário que o papa benzeu, mas não pertencia ao seu estoque de rosários.
E parte da esquerda ainda faz claque para a direita sobre o caso do rosário. Foi o que sobrou pra eles, enquanto o diabo os empurra para o colo de Bolsonaro.
Ah, se eles soubessem que o tríplex foi um presente do papa para Lula.

OS JUÍZES RÁPIDOS FICARAM LENTOS

Leiam este texto sobre a estranha (nem tão estranha) postura do TRF4 de Porto Alegre, que foi rápido para analisar o processo do tríplex e agora adota a tática da lentidão.
Este é o texto:
“Os advogados de Lula questionam, no STF (Supremo Tribunal Federal) e no STJ (Superior Tribunal de Justiça), o ritmo agora implantado pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) para apreciar o recurso que permitiria levar a discussão sobre a condenação do ex-presidente às instâncias superiores.
O TRF-4 foi célere ao apreciar a condenação imposta pelo juiz Sergio Moro a Lula. O relator do processo, desembargador João Pedro Gebran Neto, levou 36 dias para concluir sua análise. O revisor, Leandro Paulsen, liberou o seu parecer em seis dias. No total, os dois demoraram 42 dias para analisar todas as acusações e as peças de defesa.
A intimação eletrônica para que o Ministério Público Federal apresentasse resposta aos recursos de Lula demorou, apenas para ser efetivada, o mesmo tempo que os desembargadores levaram para ler todo o processo: 42 dias”.
Este texto não está em nenhum blog de esquerda, ou blog sujo, como a direita define quem não se aliou ao golpe. Está na página de Monica Bergamo na Folha.
É mais uma prova de que a rapidez para condenar Lula foi uma tática de exceção, revelada pela própria grande imprensa.

SOU PRÉ-CANDIDATO A DEPUTADO 

É cômodo ser militante da democracia, dentro de um partido, com suas virtudes, seus defeitos e seus conflitos, em tempos de calmaria. Eu decidi cumprir agora – em tempos de afronta às liberdades e de disseminação do fascismo sob as mais variadas formas – o projeto de participar da militância partidária.

É este ambiente que me mobiliza a ser pré-candidato a deputado estadual pelo PT do Rio Grande do Sul, no ano em que o maior líder popular do país foi encarcerado.

Se Lula resiste como candidato à presidência, mesmo sendo prisioneiro político, por que eu em liberdade não me submeteria ao desafio de ajudar a defender sua história e o muito que ele ainda tem a fazer pelo país?

Sou um interiorano que virou jornalista aos 17 anos. Um fronteiriço que nasceu em Rosário do Sul, passou infância e adolescência no Alegrete e virou adulto em Livramento.

A Fronteira é minha referência de vida. Mas também vivi em outras cidades. Estabeleci fortes laços com gente de São Borja, Bento Gonçalves e Ijuí. Meus dois filhos são de Ijuí.

Trabalhei em 10 veículos da imprensa do Estado. Iniciei na Gazeta de Alegrete e passei por A Plateia, de Livramento; Folha de São Borja, O Semanário, de Bento Gonçalves; Correio Serrano, Rádio Progresso e Cotrijornal, de Ijuí; Companhia Jornalística Caldas Júnior; O Interior, da Fecotrigo; e Zero Hora. Nos últimos dois anos, tenho sido colaborador, como colunista, do jornal Extra Classe e mantenho o blogdomoisesmendes.

Pretendo levar para a política de representação a coerência do que fiz no jornalismo. A atuação no parlamento estadual pode ser pautada não só por temas regionais, mas também pelas grandes questões do país, em todas as áreas.

Quero orientar meus compromissos com a democracia em seu sentido mais amplo, e não só como retórica. É missão essencial da política combater todas as manifestações de racismo, de xenofobia e de homofobia.

Não há democracia sem servidor público fortalecido e sem a preservação dos serviços e do patrimônio públicos e das expressões da cultura com apoio do Estado.

A defesa das liberdades e das diferenças deve ser real, efetiva. Não há democracia sem uma estrutura de comunicação que se apresente como contraponto à superestrutura da mídia hegemônica. Quero participar de um projeto que complete e amplie a ideia de resgate da TVE, da FM Cultura e de todo o sistema de comunicação destruído pelo atual governo. E que se agregue ao que já é feito nas iniciativas de comunicação comunitária.

Quero estar ao lado dos sindicatos, dos pequenos agricultores, dos ambientalistas e dos militantes cotidianos da democracia.

Me entusiasma a possibilidade sempre presente de ser confrontado com minhas ideias e minhas ações. Me desafia o compromisso com a reparação de eventuais contradições e conflitos entre o que eu digo e o que eu tenho feito como jornalista. Mas asseguro que nenhum projeto artificial de marketing político vai mudar o que sou.

Nunca pretendi ser neutro no jornalismo. Fiz militância como jornalista pela defesa de bens essenciais de todos nós. Por isso meu slogan é Jornalista de Palavra. Mesmo na política, não deixarei de ser jornalista de opinião e não deixarei de escrever.

Me sinto honrado de estar ao lado de Miguel Rossetto, pré-candidato ao governo do Estado, de Paulo Paim, pré-candidato à reeleição ao Senado, e dos nomes que serão apresentados aos parlamentos estadual e federal. Me sinto forte por estar ao lado de jovens e mulheres fortes.

Estou no partido que construiu governos populares e por isso mesmo enfrenta a avassaladora reação ultraconservadora. Estou no partido dedicado integralmente ao resgate da democracia plena depois do golpe de agosto de 2016. Reafirmo que meu candidato à presidência é Lula.

Quero ter a inspiração dos que resistem às ameaças da barbárie, para que o Rio Grande não seja nunca a república do relho. O Rio Grande deve ser a República das liberdades, do diálogo, do respeito e das diferenças. Foi o que sempre me mobilizou no jornalismo e vai me orientar na atuação política.

Quero estar ao lado dos que resistem. Os valentes são todos vocês, os militantes da democracia. Tenho a certeza de que estou do lado certo.
#LulaLivre