O MASSACRE DOS JORNAIS

A Folha de S. Paulo tem neste momento sete chamadas sobre Lula na capa do site. SETE. E todas têm o mesmo foco: desqualificar a figura do ex-presidente, às vezes com alguma ‘sutileza”, para que o massacre não seja tão descarado.
O Globo tem seis chamadas sobre Lula. O tom é o mesmo, também com algumas voltas para parecer que há ‘imparcialidade’. A intenção dos dois jornais é uma só: manter Lula nas manchetes, mas da pior forma possível, com abordagens sempre depreciativas.
É uma estratégia da imprensa dentro do golpe e uma manobra do próprio negócio da mídia. Os grandes jornais abandonaram os últimos restos de diversidade (que chegaram a existir até anos atrás) e fizeram a opção pelo público conservador e reacionário.
É com o golpe e com esse público que tentam sobreviver. E estão conseguindo.

A HORA DOS APRESSADOS

Não me convidem para as conversas dos que pretendem articular já, não se sabe como e onde e com quem, a tal frente de esquerda que substituiria Lula. Não vou a baile, a quermesse ou a reunião-dançante de quem acha que é possível organizar a ‘resistência eleitoral’ alternativa agora.
As vozes pela tal frente estão se erguendo, antes mesmo de uma manifestação de Lula. Eu fico com Lula até o fim, mesmo que minha posição não signifique nada, mas apenas uma manifestação pessoal. E quando será o fim? Mais adiante, e não agora, descobriremos.
Resumir a situação de Lula a uma estratégia eleitoral é reduzi-lo ao que o DataFolha quer, uma ameaça que deve ser mantida presa. Desistir de Lula já, uma semana depois da sua prisão, em nome de outro projeto para a eleição, equivale a vê-lo como um condenado sem volta.
Quem examinar a situação de Lula apenas pela questão eleitoral estará fazendo o jogo do golpe. A estratégia da eleição deve se submeter à resistência, e não o contrário.
Quem tem pressa agora é a direita.

POR QUE LULA ESTÁ PRESO

O povo sabe que Lula é um preso político. Tanto que, mesmo preso, Lula seria eleito por goleada.
A chamada da Folha é calhorda, com a conversa de que a prisão ‘enfraquece’ Lula. Mesmo ‘fraco”, Lula seria eleito sem muito esforço contra todos os candidatos e contra o Supremo e tudo?
Imagine se estivesse forte. A pesquisa reafirma que Lula deve continuar preso, ou volta ao poder.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/prisao-enfraquece-lula-e-poe-marina-perto-de-bolsonaro-diz-datafolha.shtml

O arco-íris

Lula irá sobreviver à prisão, como muitos dos bravos presos políticos que resistiram e seguiram em frente. Publico aqui o pequeno trecho do relato de um deles.
É da carta que Flavio Koutzii enviou da cadeia em La Plata à companheira, Norma.
Era 1978, e Flavio estava preso havia três anos na Argentina como subversivo. O trecho, de um livro anterior dele, foi publicado de novo em “Flavio Koutzii, biografia de um militante revolucionário” (Libretos), lançado na Feira do Livro, com suas memórias narradas a Benito Bisso Schmidt.
É um livro poderoso, que Lula poderia ler, com as lembranças de um sobrevivente de perseguições e encarceramentos.
Eis o trecho da carta, que mostra pequenas artimanhas de um preso político para seguir adiante:

O VERDADEIRO CHICO

O vídeo com o ‘falso’ Chico Pinheiro (será?) é uma das coisas mais sensacionais desde o início da internet.
Pela imitação, pela perfeição do tom de voz e das pausas, pelo texto, pelo roteiro e pela edição de imagens, a cantiga de Pesadelo, de Paulo César Pinheiro, em que ele troca a palavra muro por Moro, como observaram os que conhecem MPB.
É fake? Mas aí, meu amigo, o que é verdadeiro hoje na política fora a coragem do Lula?, como diria esse Chico Pinheiro que parece ter encarnado o espírito de Orson Welles para emocionar o Brasil.
Isso não é fake news, é arte, até porque o próprio autor sabia que seria desmascarado, ou não.
Eu passei a integrar o grupo dos que acreditam que aquele é o Chico verdadeiro. O mundo não é só dos Wlllians Waacks.
(Que não apareça um perito de voz da própria Globo, aquele tal Ricardo Molina, tentando acabar com essa bela confusão.)

QUAL É O PÓ?

A direita teve dois dias para achar alguma coisa no discurso de Lula, um mico, uma inverdade, uma barbeiragem. Não achou nada.
Aí começaram a espalhar um vídeo em que Lula segura uma garrafinha com água e disseram que aquilo era cachaça.
Para a direita, Lula estaria tão ‘bêbado’ que fez, durante 55 minutos, o mais importante e mais emocionante discurso do país em todos os tempos.
E agora a pergunta aquela: e daí se ele tivesse decidido beber uns goles de cachaça? Qual é o problema?
E a outra pergunta é esta: e se ele tivesse cheirado uma carreira de pó do bom, aquele do misterioso helicóptero de Minas, estaria tudo bem?
Talvez estivesse em liberdade, com imunidade assegurada pelo Supremo de Cármen Lúcia e Romero Jucá.

DIGA ALGUMA COISA

Tem muita gente calada que poderia estar dizendo alguma coisa. É preciso falar. Fale, não guarde dentro do peito uma dor e uma inquietude que só não acometem os fascistas.
Até antigos adversários de Lula, os adversários políticos leais, admitem que o momento não é para os que ficam calados. Não precisa discursar, nem participar de passeata, nem pedir #LulaLivre.
Sei dos muitos, dos milhões que estão sendo observados, na mira dos caçadores da direita, nas famílias, nas empresas, na vizinhança, nas prefeituras, nos governos. Todos sabem muito bem dessa vulnerabilidade.
Mas é preciso dizer alguma coisa, não necessariamente aqui no FaceBook. Fale para os colegas, os pais, os amigos, os filhos, os irmãos ou para quem estiver ao lado.
Os que eles querem, como fizeram no nazismo e sempre fazem nas ditaduras e nos golpes dissimulados, é calar, amedrontar, fragilizar, ameaçar.
Mas tente dizer algo agora, verbalize, transforme a dor em resistência e solidariedade. Mas fale em voz alta, para não ter que carregar nas costas o peso e os danos desse silêncio para sempre.

A IMPOSTURA

Agentes engravatados receberam Lula, ontem à noite, ao desembarcar do helicóptero na Polícia Federal de Curitiba. Eles não têm culpa de nada, mas era jogo de cena.
As liturgias pediram que se vestissem bem, para que a instituição causasse boa impressão, não ao Brasil, mas ao mundo.
São os cerimoniais do contexto do golpe. O golpe marca hora para que o preso se apresente e até destina uma cela especial, sem porta de ferro (como se fosse concessão, mas é direito do ex-presidente). E dá até chuveiro com água quente…
O golpe procura investir na própria imagem, até com alguma delicadeza, porque se quisesse teria invadido o sindicato e tirado Lula à força, como dizem os bolsonaristas explícitos ou dissimulados.
O golpe togado hoje tem máscaras de ‘civilidade’ que a ditadura não teve. O golpe tenta nos fazer ver que tudo é normal, mas nada é mais dissimulado e anormal do que o golpe que cassou Dilma, prendeu Lula e vai continuar perseguindo o PT e as esquerdas. Um golpe será sempre um golpe e uma impostura.

O INSTINTO DE LULA

A decisão que Lula tomar amanhã ou depois será bem tomada. Tão bem tomada quanto a de hoje, quando mandou um recado a Sergio Moro. Não marque hora para me prender, nem tente me seduzir com celas especiais.
 
Pois deixem que Lula continue sendo conduzido por sua intuição. Não caiam numa armadilha ingênua e egoísta proposta pela direita e aceita por parte da esquerda.
 
É a armadilha quase infantil de que a prioridade agora, se Lula for preso, e mesmo que não seja, é buscar uma alternativa à sua candidatura.
 
É ingênua porque nada se ganha apressando uma definição sobre frentes e candidaturas herdeiras de Lula. Ganha-se o quê?
 
Alguém imagina Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos sendo indicados, em meio à consternação, como sucessores de Lula? E saindo em disparada para saber quem chega na frente? Não sairiam. Os dois são solidários a Lula porque dependem dele.
 
E o debate sobre alternativas é egoísta e quase neoliberal porque, em nome da ideia utilitária da viabilização de uma frente ou de um nome, há muita gente disposta a abandonar Lula e sua resistência.
 
Abandonar o poder simbólico e real de um Lula lutando contra Sergio Moro, o Supremo de Jucá, o Quadrilhão, o pato da Fiesp e a imprensa é desprezar o que as esquerdas têm hoje de mais valioso.
 
Lula carrega as esquerdas nas costas. Hoje, o mundo ficou sabendo mais uma vez que é assim. Mas parte das esquerdas prega que se abandone Lula para cuidar da funcionalidade da vida no paraíso da próxima eleição.
 
Abreviar o processo é ofender a trajetória de Lula e sua capacidade única de afrontar o golpe e denunciá-lo também para os que nos olham de longe. Lula resiste mais do que todos nós. Muito mais. Ele pôs o dedo na cara dos que o perseguem e nos perseguem.
 
Mas alguns querem se livrar de Lula em nome de candidaturas estepes? Aquietem-se com seus planos B. Procurem pensar, tentem, mas não pensem em voz alta. Respeitem Lula.