SUAVE COM AÉCIO, IMPLACÁVEL COM LULA

Cármen Lúcia, a ministra do voto de minerva que livrou Aécio do julgamento do Judiciário que ela diz defender, é uma das figuras mais patéticas da República.
A presidente do Supremo, que não ergueu a voz para desempatar o caso de Aécio em favor da Justiça, agora é valente para falar alto e atacar Lula e o PT.
Seu voto em favor de Aécio foi tão confuso (empurrando o caso para o Senado) que precisou de constrangedora tradução do colega Celso de Mello, durante a sessão, ao vivo, ou não seria entendido por ninguém.
Para atacar Lula, que tenta reagir à caçada da Justiça, Cármen Lúcia não precisa de tradutor.

COM AÉCIO E COM TUDO

A ministra Cármen Lucia afirma que rediscutir a prisão de condenado em segunda instância, por causa do processo de Lula, seria “apequenar o Supremo”.
O Supremo se engrandeceu mesmo foi com o julgamento do caso de Aécio-da-mala, que a mais alta Corte do país devolveu ao Senado, para que o tucano fosse poupado.
Tudo com o voto de minerva de Cármen Lúcia, que teve de ser traduzido, de tão confuso e constrangedor, pelo ministro Celso de Mello.
Cármen Lúcia preside o Supremo.

OS JORNALISTAS FOFOS E LULA 

Aguardem os escritos fofos dos jornalistas fofos, se Lula for mesmo preso. Os jornalistas fofos gostam de fazer firulas com o passado para trazer suas reflexões para o presente. O fofo adora líderes de massa, mas só os da Wikipédia.

O fofo é um exagerado e, para erguer sua tese, vai citar os grandões, Zapata, Mandela, Luther King e até Sandino. Se estiver num dia inspirado, é capaz até que cite Lênin. O fofo não teme citar líderes históricos do povo, porque ele os folcloriza como se fossem curiosidades.

E aí ele vai dizer: mas com Lula não é bem assim. Lula não é um Simon Bolívar, tampouco um Perón e muito menos Jesus Cristo. O jornalista fofo, nas suas muitas variações, adora citar Jesus Cristo.

O fofo citará todos eles, para concluir ao final que Lula é Lula e que não se brinca com a História. Lula não poderia, segundo o fofo, tentar se comparar a um Getúlio.

O fofo fará volteios, induzirá muita gente ao choro, porque ele dará a entender que está arrasado com o drama de Lula, e no fim fará o arremate. Que Lula se submeta ao seu martírio, como todos os líderes de massa, porque assim caminha a humanidade (os fofos gostam dessa frase).

O fofo revelará, ao final do texto, que está triste, porque gostava muito de Lula e que sempre votou no PT, e que foi comunista na infância, mas que agora a situação é outra. A justiça é para todos, dirá o fofo, citando uma frase original de seu ídolo Sergio Moro.

O fofo irá comover meio mundo com sua ladainha, mas não conseguirá aplacar as inquietações da própria consciência.

Os jornalistas fofos sabem o que são e que papel cumprem no jornalismo.

TRIPORCOS

Estava tomando meu mate com carqueja quando seu Mércio me ligou. Me contou que viu três porcos que pretendia comprar para engordar.
Foi até a casa do criador, na área rural da zona sul, viu os bichos, gostou e mandou um pedido para a Justiça. Os três porcos eram dele.
Ele me contou:
– Eu olhei os três porcos, visitei os porcos no chiqueiro, tenho fotos provando, queria os porcos pra mim.
Seu Mércio me informou que o juiz exigiu o original do recibo. Ele disse que não tinha, mas que se baseava na nova teoria do Judiciário brasileiro.
– A teoria do ‘seja dono do que você viu’.
O juiz disse que a teoria só era válida para triplex no Guarujá. Que ainda não valia para triporcos na zona sul de Porto Alegre.
Seu Mércio me contou que, antes de recorrer ao TRF4, vai chamar quatro delatores que viram tudo.

ENQUANTO ELES IAM EMBORA…

Quero voltar um dia ao Shopping Praia de Belas para terminar de tomar meu café. Na quarta-feira à tarde, de repente começaram a baixar as cortinas das lojas, e as pessoas passaram a circular com pressa em direção às saídas.

Ninguém do shopping disse nada. Foi como se um treinamento de guerra tivesse acionado as cortinas. E a ordem de evacuar o prédio passou a ser dada pelos próprios frequentadores.

Minhas amigas Jovita Sommer e Maria Lúcia Sampaio passaram depressa. Em minutos o shopping estava vazio. Por que a evacuação? Ninguém falava nada, mas estava claro. Com a confirmação da condenação de Lula pelo TRF-4, a qualquer momento o shopping poderia ser invadido…

E o que o pessoal acampado no Anfiteatro Pôr do Sol fazia, enquanto a histeria apressava meu café na companhia dos meus amigos Heitor Schmidt e Cida Cunha? Despediam-se, abraçavam-se, porque estavam indo embora, como mostra esta foto que fiz pouco antes.

Ninguém iria invadir nada. O que foi invadida mais uma vez foi a democracia, desta vez com a decisão tomada pelo TRF-4 que cassou Lula. Não foi o shopping que acabou saqueado.

Mas não é hora de baixar cortinas. É preciso saber o que se passa com as instituições nacionais. Vamos erguer as cortinas de todos os poderes no Brasil, a começar pelo que pode ser o mais corrupto de todos.

ESTAMOS CONDENADOS

Os jornais estão lotados de interpretações sobre a decisão do Tribunal Regional Federal de reafirmar a condenação de Lula. A conclusão geral, depois da leitura de tentativas de entendimento, é uma só: o Brasil sucumbiu ao poder de um Judiciário confuso e enredado em sua fleuma e em suas fragilidades e contradições.
O Judiciário que condenou Lula por unanimidade é o mesmo que mantém, também por goleada, e sob os mais variados argumentos, a impunidade de tucanos e cúmplices de quadrilhões, alguns protegidos por imunidades diversas.
Mudam os redutos, mas a estrutura de Justiça é uma só. O resumo é desolador. Somos figurantes de uma versão trágica da Escolinha do Professor Raimundo, com citações e argumentações pedantes, muitas vezes confusas, tantas vezes vazias.
Sabe-se todos os dias (como está na Folha hoje) que os magistrados brasileiros citam em latim teorias que não dominam. Não dominam nem o latim, nem as teorias.
Nossa vida está nas mãos deles, dos Rolandos Leros de toga. Estamos sendo enrolados pelo poder incontrolável do Judiciário, com a imprensa e com tudo. Por enquanto, estamos todos condenados.

A hora de ir embora

Estes jovens, vindos de todo lado, estavam acampados na área do Anfiteatro Pôr do Sol. São da Democracia Socialista, a DS do PT. As fotos são de um abraço coletivo, pouco antes da decisão do TRF-4 de condenar Lula. Iriam embora logo. Muitos deles nunca mais se encontrarão de novo.
Num Brasil em que os jovens fogem de engajamentos e militâncias (e a culpa é dos velhos), é bom ver esses moços e essas moças na luta política. Eles sabem que não há salvação fora da política.
Só de fotografar essa gurizada, eu também me senti abraçado. Que esses bravos se reencontrem em algum lugar e façam uma grande festa num acampamento, quando Lula voltar a derrotar o Brasil arcaico e for eleito presidente pela terceira vez.

O MELHOR LULA

Uma conclusão óbvia depois de uma análise bem rápida de trechos do discurso de Lula hoje à tarde em Porto Alegre: temos um candidato com uma posição assumidamente de esquerda, muito diferente do Lula de 2002 e de 2006.
Lula radicalizou posições caras ao PT. Primeiro, a defesa intransigente das maiorias. Lula fala para o povo, e não mais para uma classe média instável (e hoje encolhida) e possíveis aliados entre o conservadorismo e a direita.
Passou a atacar com força a imprensa protagonista do golpe, o mercado financeiro, a elite empresarial e, claro, a oposição que derrubou Dilma (e que passou a incluir antigos parceiros do próprio PT).
É um Lula de esquerda o que percorre o Brasil e discursou hoje em Porto Alegre, um dia antes do julgamento do processo do tríplex. Que continue assim, sendo ou não condenado.
Esse talvez seja o Lula mais autêntico e mais conectado e coerente com sua história. Lula percebeu que não sobrevive se, depois do golpe e da caçada do Judiciário, adotar uma retórica de concessões e acomodações políticas com os que desconfiavam dele desde 1989 e acabaram sendo protagonistas do golpe.
Mas como Lula poderá governar sem eles? Que isso fique para depois. O que interessa agora é saber como vencer a eleição. E Lula somente vencerá se conseguir convencer o eleitor de que ele, e não Luciano Huck, é quem entende e gosta de povo. Parece simples e é.
(Ganhei de presente esta foto fantástica da minha amiga Adriana Franciosi, da Agência PixelPress)

Vamos

Saio daqui a pouco, em longa viagem da Aberta dos Morros até o centro, para ver Lula na Esquina Democrática. Quero chegar mais cedo e comer um pastel com café preto no Matheus, ali na Borges.
E amanhã irei à vigília no anfiteatro. Vamos por Lula, pela democracia e vamos por nós mesmos.
Eu vou até pela vaidade de poder dizer mais adiante, se perguntarem, que eu estive lá. A democracia merece esse tipo de exibimento.

NÃO HÁ SALVAÇÃO FORA DA POLÍTICA

Há um estranho sentimento entre algumas pessoas com as quais conversei a respeito de uma improvável surpresa no dia 24.
Alguns esperam pelo milagre da Justiça, o grande gesto capaz de redimir o Judiciário das aberrações cometidas pela lava-Jato de Curitiba e pelo Supremo que protege tucanos.
Esperam pelo gesto que acolha o recurso de Lula contra a sentença de Sergio Moro, para que ele possa enfrentar o grande julgamento da democracia em outubro.
Mas acreditar nisso é mais ou menos como apostar que um dia o Judiciário irá pegar algum tucano graúdo. Não um miúdo, um coitado com correntes nos pés, que possa servir de pretexto de que a lei é para todos, mas um tucano grandão, um Aécio ou um Serra.
Nem se imagina que peguem um Fernando Henrique, porque seria custoso demais provar, em francês, que o apartamento de Paris é dele.
Que não se espere nenhum milagre. A absolvição de Lula parece tão improvável que é melhor nem pensar nisso. Até porque o Judiciário já se prepara para acelerar os outros processos contra ele.
Vamos pensar que Lula enfrentará a Lava-Jato com a política e com o povo, como acontecerá com as manifestações do dia 24. porque é com a política que o Judiciário manobra com seu latim e suas artimanhas contra Lula e contra a democracia.