FREIRE SE JOGA NOS BRAÇOS DA DIREITA

Roberto Freire confessa em entrevista à Folha que trabalha junto com Fernando Henrique para que Luciano Huck tente ocupar o espaço de Lula.
Parece impressionante, mas é o que ele diz. Os pobres gostam de Lula e de Huck. É só trocar um pelo outro.
Freire é o líder do Cidadania, antigo PPS, que era o antigo PCB.
Um ex-comunista articulado com os inventariantes dos escombros do PSDB. Freire ainda tenta atrair Tabata Amaral para o seu partido.
Ele quer o enfraquecimento dos partidos e a ascensão dos movimentos, como prega a direita. O seu Cidadania seria um partido em movimento.
O repórter é Joelmir Tavares, que não fez uma pergunta, uma só, sobre Bolsonaro. E Freire não fala nada sobre Bolsonaro, sobre Sergio Moro ou sobre qualquer um da direita no poder, porque o seu Cidadania tenta fazer média com o reacionarismo atacando Lula e o PT.
A entrevista parece ter sido feita para exaltar Huck e falar mal de Lula, do início ao fim.
Que desfecho de carreira de um cara que já foi ícone de uma certa esquerda e acabou sendo empurrado por seu antipetismo para os braços da direita que se diz de centro.

O SHOW DA EXTREMA DIREITA

O DataFolha esconde uma conclusão, na análise da pesquisa sobre as figuras que têm a confiança do brasileiro.
Sergio Moro e Bolsonaro são as figuras públicas da direita nas quais os brasileiros mais confiam, no contraponto com Lula como o mais vem avaliado à esquerda.
Esta é a conclusão encoberta: o centro não tem um nome forte hoje. Luciano Huck, João Doria e Rodrigo Maia, que poderiam ser os nomes de centro, são muito mal avaliados.
Moro e Bolsonaro disputam (junto com Witzel) quase o mesmo espaço do reacionarismo entre ricos, homens brancos e pessoas de mais idade.
Todos sabem que Moro está hoje muito mais próximo da extrema direita do que da direita, e nunca foi uma referência de centro.
Moro luta para ser uma alternativa a Bolsonaro, porque essa é a sua vocação como juiz justiceiro e por saber que o centro transformou-se em um espaço maldito da política brasileira.
O que seria o centro-direita virou um Bangu, e o eleitorado se bandeou para nomes da extrema direita. É possível fazer o caminho de volta?

OS 10 ANOS DA FARSA DE OBAMA CONTRA LULA E O IRÃ

Barack Obama não faria o que Trump fez em relação ao Irã porque são totalmente diferentes? Mais ou menos.

Vamos relembrar aqui o desfecho das negociações do Brasil com os iranianos para que chegassem a um acordo com os Estados Unidos sobre armas nucleares.

Foi uma armadilha e um fiasco para o Brasil. O acordo fará 10 anos em 17 de maio de 2020. O presidente era Obama, a secretária de Estado, Hillary Clinton. O presidente iraniano era Mahmoud Ahmadinejad. Lula presidia o Brasil, e o chanceler brasileiro era Celso Amorim.

Vários países envolveram-se no esforço de diplomacia pela paz mundial. O Brasil liderava a intermediação do acordo que previa o uso de energia nuclear para fins pacíficos.

Lula e Amorim foram alçados à condição de grandes líderes pacifistas, com reconhecimento da imprensa internacional. Mas logo se saberia que os EUA haviam empurrado os dois para uma fraude.

Amorim contou o que aconteceu ao fazer uma palestra em junho de 2018 em Porto Alegre, no Teatro Dante Barone. Ele e Lula foram a Teerã com a minuta do que seria a proposta americana de controle de armas nucleares.

Depois de 20 horas de reuniões, deu tudo certo, com ajustes em detalhes. Lula, Amorim, o presidente Ahmadinejad e o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, chegaram a um entendimento que poucos imaginavam.

O mundo noticiou o acordo em que o Irã se submetia a novas regras. O Brasil era protagonista do esforço para afastar os iranianos da tentação nuclear.

Amorim e Lula retornaram ao Brasil por Paris, de onde o chanceler telefonou para a secretária de Estado Hillary Clinton para contar detalhes.

O entusiasmo do brasileiro foi jogado no ralo logo depois da primeira frase. Hillary disse que não era nada daquilo. Que ele e Lula haviam entendido tudo errado. Que o acordo não existia.

Amorim insistiu que o acordo tinha tudo o que os americanos queriam. Hillary devolveu que não era bem assim. E a conversa foi encerrada.

Os EUA haviam sido surpreendidos pelo êxito da reunião. Eles não queriam e não acreditavam no acordo. Era para ter dado tudo errado. Lula, Amorim, os iranianos e os turcos haviam acreditado que Obama falava sério.

Amorim contou a história na palestra em Porto Alegre com bom humor. Ele e Lula haviam sido enrolados pelo poder dos senhores da guerra.

Em 2010, por esse gesto em Teerã, que teve reconhecimento mundial (apesar da farsa do governo Obama), e de outras ações ousadas na diplomacia, Amorim foi escolhido pela importante revista americana Foreign Policy, especializada em relações internacionais, como sexto Pensador Global mais importante do mundo. Estava no topo de uma lista de cem personalidades.

Mas isso aconteceu nove anos e meio atrás. Irã e Estados Unidos voltaram a fingir acordos e a brigar, e o Itamaraty foi entregue por Bolsonaro a um sujeito que acredita em Olavo de Carvalho e na Terra plana.

Em 2015, os EUA chegaram a firmar outro acordo com o Irã, sem a participação do Brasil, é claro, mas o acerto foi abandonado por decisão de Trump três anos depois, quando os americanos voltaram a impor sanções econômicas a Teerã.

O ataque de Trump que matou o principal general iraniano é mais do mesmo, apenas com maior radicalidade e crueldade e com toques de terrorismo.

Nem Obama queria e nem Trump quer acordo algum. Eles querem guerra, o primeiro um pouco menos, o outro sempre um tanto mais. Mas todos querem sangue e guerra.

OS FILHOS

As manobras da direita, desde o golpe, são bem calculadas. Como o Ministério Público voltaria a investigar o filho de Bolsonaro e os milicianos ligados a ele e a Queiroz (depois da tentativa fracassada de bloquear os dados do Coaf), era preciso dar o troco.
Com Lula em liberdade e a popularidade de Bolsonaro desabando – e como era impossível encarcerar Lula de imediato de novo -, requentaram uma denúncia antiga e saíram atrás de Lulinha.
Tentam fazer com que o filho de Lula seja um contraponto ao filho de Bolsonaro, com a diferença de que correm atrás de provas para pegar o primeiro em reformas na cozinha de um sítio e há provas em abundância envolvendo o segundo com as milícias.
São ingênuos os que pensam que essa caçada a Lulinha, no desespero para empatar o jogo, pode encerrar as represálias pela soltura de Lula.
O lavajatismo, o milicianismo e o bolsonarismo estão tramando outras ações contra Lula e as esquerdas.

E se o filho de Lula…

E se o filho de Lula tivesse ligações com milicianos? Se empregasse a parentada dos milicianos, se tivesse um assessor miliciano e mantivesse uma dúzia de milicianos como laranjas?
Se um miliciano assessor do filho de Lula depositasse dinheiro na conta de dona Marisa Letícia?
Se Lula afirmasse, com a maior naturalidade, que emprestava dinheiro para o miliciano empregado do filho?
E se o filho de Lula morasse quase ao lado da casa do miliciano que matou Marielle? E se o próprio Lula morasse a metros da casa do miliciano assassino?
E se o filho tivesse acesso, antes da polícia, a um aparelho com gravações com provas decisivas para o desvendamento do assassinato da vereadora?
Se o filho ameaçasse os inimigos e os ex-amigos pelas redes sociais, incluindo generais?
Se escrevesse coisas desconexas no Twitter? Se fosse político, mas nunca fosse visto trabalhando? Se adorasse ditaduras e torturadores.
Se estivesse sendo processado por ameaçar de morte uma ex-namorada? Se esse processo estivesse engavetado?
Se o filho de Lula tivesse um pai que ataca e tenta desqualificar uma adolescente militante do ambientalismo? Se desmentisse à tarde o que disse pela manhã?
Se o filho de Lula ameaçasse com a volta da ditadura? Se chamasse ministros do Supremo de hienas?
Se comandasse, dentro do governo, uma máquina ativa de produção de fake news e calúnias com dinheiro público?
Se tivesse aparelhado o governo para perseguir inimigos políticos?
E se o filho de Lula falasse em nome de Lula e mandasse em Lula?

O ALVO É O FILHO DE LULA

No mesmo dia em que a Folha divulga uma pesquisa em que 54% consideram justa a soltura de Lula, a polícia de Sergio Moro inicia uma caçada para pegar o filho de Lula.
Era previsível que a extrema direita preparava uma reação.
Como não conseguiram manter Lula como preso político e como o ex-presidente retoma com força o combate ao bolsonarismo, reinicia-se a caçada para pegar Fábio Luís.
A suspeita é requentada e de novo envolve Lulinha na história do sítio de Atibaia.
Se o mesmo DataFolha diz que o brasileiro confia mais em Lula do que em Bolsonaro, é preciso agir.
Enquanto isso, os filhos de Bolsonaro, Queiroz e os milicianos…

AS IGNORÂNCIAS

Por que, apesar das crueldades contra o povo, Bolsonaro ainda seria um candidato forte para enfrentar Lula em 2022?
Porque a ignorância é um fator cada vez mais decisivo na realidade brasileira.
Mais do que o reacionarismo da classe média decadente. Mais do que o crescimento do extremismo de direita com lastro ideológico. Mais do que o egoísmo das elites.
As esquerdas profissionais não gostam muito de tratar desse assunto, porque isso mexe com erros históricos. Mas eu sou da esquerda amadora.
As ignorâncias determinam o que o Brasil é hoje. Porque viraram poder e, de fora, sustentam o poder.

JANUÁRIO, SEUS FILHOS E OS LIBERAIS BOLSONARISTAS

Há duas bombas nos jornais hoje. A primeira é a revelação de que o doleiro Dario Messer pagava propinas ao procurador da Lava-Jato Januário Paludo. É reportagem de Vinicius Konchinski, no UOL.

Januário é aquele dos Filhos de Januário, o grupo de mensagens do Telegram que trocava informações da turma de Deltan Dallagnol sobre a caçada a Lula em conluio com Sergio Moro.

A confissão está em conversas grampeadas pela Polícia Federal. Espera-se agora a delação formal do doleiro, que está preso, para saber se apenas Januário ou também os filhos são acusados do recebimento de propinas.

(Observem que na famosa foto de Januário e seus filhos, Januário é o único numa posição de submissão, com as mãos às costas.)

A segunda bomba é a admissão de Demétrio Magnoli, um dos grandes pensadores do liberalismo brasileiro, de que o liberalismo é hoje uma farsa dentro de um projeto totalitário. É o aperfeiçoamento de um modelo que só teria êxito sob controle absoluto de um déspota.

Magnoli adverte que as falas de Eduardo Bolsonaro e de Paulo Guedes sobre o AI-5 não expressam medo do governo com eventuais manifestações de rua.

Na verdade, os dois estão induzindo à realização de protestos para exercer então a repressão e impor um governo ditatorial. Só assim o esquema funcionaria plenamente. Não é novidade, mas é dito agora por um liberal.

O que ele não disse é que esse mecanismo depende da perseguição aos que dele discordam. Faltou coragem a Magnoli para admitir que o Brasil está sob lawfare, a perseguição do Judiciário a Lula, imposta pela facção da Lava-Jato.

Faltou admitir que, sem a caçada a Lula, o liberalismo de que ele fala não poderia prosperar livremente sob o comando de Bolsonaro e dos milicianos (quem diria que os liberais brasileiros teriam essa bela parceira).

A engrenagem só funciona se amordaçar quem pensa o contrário e pode chegar ao poder (como já chegou) para conspirar contra o totalitarismo bolsonarista-liberal.

Mas talvez Magnoli volte ao assunto, quando a Polícia Federal decidir levar adiante a denúncia contra o procurador denunciado por levar propinas do doleiro.

Sempre lembrando que a polícia está sob o controle do liberal Sergio Moro.

Lula, Bolsonaro, Marielle e as instituições

Tudo no mesmo dia. Em Porto Alegre, o TRF4 encaminha-se para reafirmar mais uma condenação de Lula.
Em Brasília, o procurador-geral da República, Augusto Aras, defende que Sergio Moro e sua polícia se adonem das investigações do assassinato de Marielle.
É a tal federalização do caso. Bolsonaro, seu filho senador, Queiroz e os milicianos poderão ter tratamento diferenciado.
Ainda bem que as instituições estão funcionando e que hoje ninguém pediu a volta do AI-5.