Lula e o neto

Tem gente considerando a hipótese de Lula não ser liberado pela Justiça para ir ao velório do neto Arthur.
Repete-se o libertam-ou-não-libertam Lula para ir ao enterro, e essa possibilidade carrega mais do que crueldade. É uma prova a mais de que o país apodreceu moralmente, que perdeu a noção de respeito e de afeto, que mercantilizou a solidariedade patrocinada pelos vigaristas da televisão.
Duvido que em algum outro momento o Brasil tenha sido tão insuportável como agora, tão brutalizado e idiotizado, com o patrocínio de uma Justiça omissa e covarde.
Lula será liberado para ir ao enterro do neto de sete anos, porque eles sabem que chegaram a um limite perigoso.
Mas a simples menção à possibilidade de ele não ser autorizado a sair da prisão aciona um cenário cada vez mais nojento.
O Brasil é um esgoto a céu aberto.

OS MILHÕES DE ÁECIO E DE LULA

Esta notícia saiu ontem na Folha. Leia o que está aqui e depois leia abaixo outra notícia, na mesma linha, de abril de 2018, que troca os personagens (Aécio por Lula), e tente descobrir as diferenças.
A notícia de ontem na Folha:
“A Justiça determinou o bloqueio de R$ 11,5 milhões em bens do atual deputado e ex-governador de Minas Aécio Neves (PSDB) por suspeita de uso, sem comprovação de interesse público, de aeronaves oficiais do estado para 1.337 voos às cidades do Rio de Janeiro, Cláudio (MG) e outros municípios”.

E esta é a notícia de abril de 2018 no Estadão:
“Justiça bloqueia quase R$ 30 milhões de Lula, Instituto e empresa de palestras do petista.
Para garantir o pagamento de dívida fiscal de quase R$ 30 milhões com a União, a 1ª Vara de Execuções Fiscais de São Paulo decretou a indisponibilidade de bens do ex-presidente Lula, publicou a revista Época. Também foram declarados indisponíveis os bens de Paulo Okamotto, do Instituto Lula e da L.I.L.S., empresa de palestras do petista, em processo que corre em segredo de justiça.
A dívida de Lula, do Instituto e da empresa de eventos seria de 15 milhões. Já Okamotto, que é presidente do Instituto Lula, teria débito de R$ 14 milhões. Os envolvidos alegam que a medida é uma forma de dificultar a possibilidade de defesa do ex-presidente, que não teria posse dos valores bloqueados”.

As diferenças:
1. Aécio tem os R$ 11,5 milhões e muito mais. Tem fazendas, tem helicópteros, tem imóveis em Copacabana, Tem contas na Suíça.
2. O Estadão diz na manchete que a Justiça bloqueou R$ 30 milhões de Lula. Mas o texto informa que a dívida é que é de R$ 30 milhões.
3. E no pé da matéria informam que Lula não tem R$ 30 milhões (Aécio tem. Fernando Henrique tem. Serra tem. Serra tem parte na conta tucana de R$ 130 milhões mantida por Paulo Preto na Suíça).
4. Lula declarou em R$ 2018 que seu patrimônio é de R$ 7,9 milhões.
5. É muito? Os Bolsonaros acumularam em pouco mais de uma década um patrimônio, só em imóveis, de R$ 15 milhões, comprovados em cartório pela Folha.
6. Lula não tem conta na Suíça. Não tem fazendas em Minas. Não tem helicópteros e aeroportos. Não tem apartamentos na Barra da Tijuca. Não tem apartamento em Paris. E não tem filhos envolvidos com milicianos.

O CERCO

Licença para atirar em quem se mexer, quebra do sigilo bancário de advogados, arapongagem da Receita Federal para espalhar o terror até entre ministros do Supremo e supostos inimigos das altas rodas, caçada do Ministério Público e do Judiciário a Fernando Haddad e Dilma Rousseff nos mesmos moldes da que encarcerou Lula, ameaças a reitores de universidades federais…
São ações já em andamento que dão ao Brasil as feições de um país sob domínio do fascismo. Sem falar em agressões que já vêm de mais tempo contra negros, índios, gays, mulheres, professores, sindicatos e movimentos sociais.
Tudo por conluio de governantes, parte importante do Ministério Público e do Judiciário e outras ‘instituições’ e com a retaguarda de milicianos que matam sob encomenda.
Se há um consolo é o de que a imprensa, que contribuiu para a criação das aberrações, desta vez também tenta escapar do cerco e se defende do jeito que dá, confusa entre reagir ao horror e ao mesmo tempo fazer média com a ala de justiceiros bacanas que propaga perseguição, vingança e ódio.
Se não acontecer nada que altere esse roteiro, a caçada continuará e será fortalecida, com o apoio de juristas, liberais e empresários do bem.
Só irão escapar os amigos de algum amigo dos homens.

A JUSTIÇA QUE RASTEJA

O jogo de empurra sobre a autorização para Lula ir ou não ao velório do irmão ampliou a certeza sobre o acovardamento das instituições.
Para todas as autoridades que lidam com a caçada a Lula, incluindo o ex-juiz sumido, o ex-presidente é um preso comum. Mas todas as decisões que envolvem Lula, desde antes da condenação, provam que não é bem assim.
Lula foi impedido de participar da eleição que venceria com facilidade e ainda é um temido preso político. E será temido cada vez mais, enquanto aumenta o constrangimento criado pelos milicianos que chegaram ao poder.
Lula é preso político. A História irá mostrar um dia, sem citar seus nomes (porque ninguém se lembrará de nenhum deles), como a direita aparelhou o Ministério Público e o Judiciário, com a cumplicidade de órgãos que atuam como apêndices.
Nem na ditadura o Judiciário rastejou tanto. A Justiça brasileira merece chegar ao estágio mais baixo de subserviência e degradação.
Depois da obediência aos tucanos corruptos e impunes, os juízes submetem-se agora às ordens do bolsonarismo, em todas as instâncias.

DISTÂNCIAS

Imaginem o climão na viagem de volta. São 9 mil quilômetros de Davos a Brasília. Imaginem Sergio Moro ao lado de Bolsonaro, carregando uma pasta gorda cheia de ideias, planos e leis rigorosas para o combate ao crime organizado.

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Agora imaginem o que pode estar acontecendo nesse momento em Curitiba. São 740 quilômetros entre Porto Alegre e Curitiba, mas eu asseguro: eu ouço daqui as gargalhadas de Lula.

A ARMINHA E A DESESPERANÇA 

Nunca em tempo algum, desde a redemocratização, o brasileiro começa um ano com tanta desesperança em relação a um novo governo.
É o que mostra o DataFolha. Apenas 65% dos brasileiros acham que Bolsonaro fará um governo ótimo ou bom.
Sim, apenas 65%, porque Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma começaram seus governos com índices acima de 70%.
O que essa pesquisa sempre revela é muito mais uma torcida, um desejo, do que expectativas reais. As pessoas querem apostar que terão uma vida melhor no ano que começa e com um novo governo. Por isso os índices que medem esse sentimento são geralmente altos. Menos com Bolsonaro.
Hoje, o sentimento geral é de vacilação. Bolsonaro terá que iniciar jogando para uma torcida desconfiada.
Poderá jogar com a correção do salário mínimo (uma decisão que, numa combinação com o jaburu, será dele), com o Bolsa Família e com outras medidas que lhe assegurem base popular.
Outro detalhe para que os bolsonaristas não se enganem. A pesquisa mostra que o povo quer prioridade à saúde, muito mais do que à segurança.
A história de que a liberação dos revólveres acalmaria o povo e o manteria ocupado limpando armas em casa, como pretende Sergio Moro, não é bem assim.
Bolsonaro, como disse Zé Dirceu, senta-se agora numa cadeira que queima. E ainda tem o Queiroz no colo. E os ministros sob investigação. E o Magno Malta, a Damares, o chanceler que conversa com o diabo, o ministro da Educação que vai caçar professores e estudantes comunistas.
Bolsonaro sempre foi, em 27 anos como parlamentar, um político medíocre, que nem do baixo clero do Congresso participava por falta de virtudes mínimas para ser apenas um mediano.
Terá condições de lidar com a complexidade da missão que assume? Bolsonaro precisará fazer muita força para distrair os já distraídos.
Passou a fase de brincar de arminha e de reduzir qualquer argumento e qualquer desafio a isso daí.
Que fracassem os articuladores dos planos contra as conquistas sociais, contra o povo, o trabalho, o patrimônio público, a educação, a saúde, as diferenças, as liberdades e a democracia.
Que dê tudo errado e o Brasil consiga, logo adiante, corrigir seus erros e fazer a coisa certa.

A visita a Lula

Vamos nos contagiar pela vitalidade do sociólogo e professor Pedrinho Guareschi, um dos maiores pensadores da comunicação no Brasil. Gosto demais desse cara.

Padre Pedrinho Guareschi, do Rio Grande do Sul, visita Lula na prisão e relata como foi encontro #LulaLivre

Posted by Lula on Monday, November 26, 2018

ZÉ DIRCEU E LULA 

Algumas frases de José Dirceu, em palestra hoje à noite em Porto Alegre, no lançamento do seu livro Zé Dirceu – Memórias, volume I (GeraçÃo Editorial).

“Se não lutarmos pela libertação de Lula, por quem iremos lutar?”

“Hoje, é o Lula, amanhã pode ser qualquer um”.

“Ninguém deve ter o monopólio de liderança nas esquerdas. Nem o PT, nem Lula, nem Haddad”.

“Precisamos reconhecer o papel de lideranças como Ciro Gomes”.

“Levem ao pé da letra o que Bolsonaro diz (sobre o desmonte do Estado)”.

“O projeto de Bolsonaro é destruir a Era Vargas e a Era Lula”.

“Eles estão montando uma estrutura de Justiça e segurança
não para combater quadrilhas e o tráfico, como dizem, mas para terem a vigilância de todos e formarem uma polícia política”.

“Sou realista, reconheço que eles (Bolsonaro e sua turma) têm base popular, mas tenho muita esperança na nossa capacidade de luta”.

(A primeira foto é de José Dirceu com o gaúcho Clóvis Ilgenfritz da Silva, figura histórica do PT no Brasil. A moça é Ana Letícia, filha de Clóvis.)

O MANIFESTO

Em 1989, na primeira eleição para presidente após a ditadura, correu pela cidade um manifesto de apoio a Lula no segundo turno. Gente de todas as áreas assinou o texto de apoio ao metalúrgico que enfrentaria o bacana de Alagoas.
O manifesto teve a assinatura de profissionais de todas as áreas, professores, artistas, jornalistas, arquitetos, médicos, escritores, engenheiros, sindicalistas.
Foi impresso e distribuído em Porto Alegre, de mão em mão. Era uma folha enorme, dobrada em quatro, como se fosse quatro páginas de jornal.
O texto foi assinado por muitos colegas da redação de Zero Hora. Eu assinei e isso não significa nada de excepcional, porque, mesmo sob a tensão daquele enfrentamento, os jornalistas se posicionavam (quem tiver uma cópia do manifesto, que se manifeste).
Escrevo agora e enxergo aquela folha dobrada, com os nomes em letrinha miúda, sempre pensando na situação de hoje, em que as grandes redações, sob a mordaça dos altos comandos executivos das corporações, não teriam como largar algo parecido, ou teriam? Com nomes? Acho que não.
É triste, porque em algum momento, em todas as situações em que a democracia esteve sob ameaça, os jornalistas arranjaram um jeito de reagir e se manifestar.
Estamos em outros tempos (nos tempos do modo Havan) e eu os entendo e os respeito.

O TOGADO OSTENTAÇÃO 

Ao ler seu relatório rococó sobre a impugnação da candidatura de Lula, Luis Roberto Barroso sempre procurou pisar no Comitê de Direitos Humanos da ONU. Era preciso desqualificar o comitê.
Entre outras coisas, disse que o comitê tem oito membros (e que seriam apenas peritos…) e que apenas dois emitiram parecer no sentido de cobrar do Brasil o direito de Lula de disputar a eleição.
Se o comitê é formado por peritos dedicados a avaliar situações de afronta aos direitos humanos, mas não por togados como ele, é um comitê menor.
Barroso acha que a opinião de dois membros do comitê não vale nada. Mas ele mesmo, Barroso, é um dos campões das tais decisões monocráticas do Supremo.
Barroso já decidiu sozinho sobre questões controversas, como quando restringiu a anistia de fim de ano a presos, assinada pelo jaburu, por entender que condenados por corrupção não poderiam ser beneficiados.
Fez uma média com os justiceiros da moralidade, mas foi bombardeado por juristas. Barroso não teria autoridade para mexer numa decisão que é da prerrogativa do presidente da República, estando ele certo ou errado, de acordo com as subjetividades da tão conservadoramente subjetiva e golpista Justiça brasileira.
Barroso reafirmou-se ontem como a figura mais pernóstica (esta é a palavra) do Supremo, o ministro que, se pudesse, usaria punhos com rendas.
Que expressa superioridade pela sobrancelha esquerda sempre erguida, que fala como personagem de série de época e que abusa dos esforços para parecer erudito.
Barroso é o juiz ostentação, de uma aparente sofisticação que balança plumas para a plateia da direita. Mas alguém o colocou lá. Ele não é a tartaruga que subiu na árvore só porque fala latim.