Ainda existe

Admito minha ignorância. Quando Bolsonaro disse que Lula poderia ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional, pensei: o sujeito cometeu mais uma gafe, porque é claro que esse troço não existe mais.
E corri então ao Google, que me levou à Wikipédia. E não é que existe!!! A Lei de Segurança Nacional ainda vigora.
A tortura também, mas só para pobres, negros, negras e índios e índias.

MORO, O SUPREMO E AS MILÍCIAS

Todas as análises sobre o comportamento de Sergio Moro indicam que o ex-juiz não responderá às provocações de Lula porque ainda quer ser ministro do Supremo.
Moro não fez referência direta a Lula, no tuíte em que afirma que não responde a criminosos. O ex-juiz tenta se cuidar, porque atritos políticos diretos podem prejudicá-lo.
Mas Lula sabe que, ao atacar Moro, denuncia mais do que suas perseguições como justiceiro de Curitiba.
O que Lula disse ontem é que o governo se submete aos interesses de milicianos.
Se Moro é estrela desse governo, estamos diante de uma situação no mínimo esdrúxula.
Será a primeira vez que um aspirante a uma cadeira no Supremo tem laços com pessoas ligadas às milícias.
O Supremo aceitaria um ex-juiz que deixou a magistratura para ser ministro de Bolsonaro e da extrema direita no poder?
Pior do isso: a mais alta Corte do país pode ceder uma cadeira a alguém que compartilha sua autoridade com figuras acusadas de vínculos com milicianos?
As milícias, que ocupam espaços em todas as áreas, podem se dedicar ao sonho grandioso de se sentirem representadas no Supremo?

MORO E OS MILICIANOS

Dá para ouvir daqui as gargalhadas do Queiroz ao ler o comentário de Sergio Moro no Twitter:
“Aos que me pedem respostas a ofensas, esclareço: não respondo a criminosos, presos ou soltos. Algumas pessoas só merecem ser ignoradas”.
Sergio Moro tem ignorado todos os criminosos ligados às milícias. Moro trabalha para um sujeito que, como disse Lula, governa para milicianos.
A milícia impune ofende o ex-juiz como parte da estrutura de poder dos Bolsonaros. Mas o chefe de Dallagnol não se sente ofendido.

OS EXAGEROS DE LULA

Certas coisas Lula poderia ter evitado, para que não passe a imagem de que está humilhando. Esse blazer com essa camiseta, por exemplo.
Lula precisava ter deixado a cadeia com essa categoria, como se estivesse saindo de casa para ir a um show do Chico? Tudo isso ofende e humilha a extrema direita.
Os fascistas esperavam que Lula saísse da masmorra de Curitiba caindo aos pedaços. E Lula sai com essa elegância.
E mais a namorada com aquele sorriso que alumia nossas esperanças. E essa cara limpa de quem não tem medo de milicianos. Às vezes Lula exagera.

O DRAMA DA GLOBO E DO JORNALISMO FOFO

O jornalismo fofo está mais apavorado do que o jornalismo da extrema direita. A turma da extrema direita agarra-se a Bolsonaro, a Sergio Moro e aos milicianos e está tudo resolvido.
É a guerra deles, na Record, na Band e similares, contra Lula em liberdade.
Mas os jornalistas fofos estão num dilema. Precisam bater em Bolsonaro e bater em Lula.
Os fofos estão com dois inimigos. É a situação de muita gente da direita moderada da Globo e de suas afiliadas.
A Globo não sabe qual batalha é prioritária e se tem armas para atuar em duas frentes.
Bate em Bolsonaro, mas com cuidado, para não bater em Guedes e nas reformas. E ao mesmo tempo precisa bater em Lula.
É complicada a situação dessa gente, que muitas vezes acaba fazendo o mesmo jogo das facções ligadas aos milicianos.
O jornalismo fofo cobra seu preço. Lula em liberdade é um problemão.

O TEMPO DE LULA

Corre sem qualquer controle o tempo do encarcerado. A literatura está repleta de reflexões sobre o tempo a ser preenchido pela imposição de disciplinas, horários, de cronogramas rígidos de atividades, para que o prisioneiro só faça o que mandam e quando mandam.

No tempo sem nada para fazer, que seja massacrado pela tentação de inutilidade e de vazio do ócio. O tempo na cadeia aniquila o preso pela rotina que ele não controla.

Lula não era um prisioneiro comum. Tinha uma cela só dele, com algum conforto. Mas viveu ali por 580 dias. Teve, naquelas circunstâncias, o seu tempo da cadeia de que Flavio Koutzii fala em ‘Biografia de um militante revolucionário’ (Libretos), com depoimentos a Benito Schmidt.

Lula teve vida intensa, desde jovem, como sindicalista e depois como político. É um homem de interlocução, articulação e ação política. Teve interlocutores enquanto esteve preso, porque recebia advogados e líderes do PT (além de visitas daqui e estrangeiras), todas as semanas, e conversava com a imprensa.

Mas é claro que o tempo de que desfrutou é lento, pegajoso, se comparado com o que vivia em intensidade em liberdade, mesmo depois de ter deixado o governo.

Na cadeia, Lula tinha o tempo de olhar as paredes – como Flavio descreve no livro, de forma magistral, suas experiências com a solidão –, mas Lula não é um Flavio. Lula é um vulcão, não tem o perfil de quem possa se dedicar a introspeções.

Por isso, o desafio agora é saber como Lula, aos 74 anos, sai do tempo do cárcere e retorna ao tempo das ruas. Lula volta ao tempo da política, das alianças, dos desencontros, do confronto, do desafio de enfrentar Bolsonaro pela primeira vez e de ajustar seu ímpeto à falta de ímpeto desse desalento imobilizado por alguma coisa a ser melhor compreendida.

Lula se submete agora ao incerto tempo do povo pós-golpe, às indecisões da classe média e à pressa dos ódios dos ricos. Pela primeira vez, o tempo de Lula enfrenta o tempo de grupos que nunca estiveram, com o formato que têm hoje e no poder, diante de alguém com o tamanho e a força de Lula.

O bolsonarismo, o milicianismo e o fascismo põem à prova o tempo de Lula depois do cárcere.

MENDES DEBOCHA DE DALLAGNOL

Ironia de Gilmar Mendes agora há pouco, quando Dias Toffoli comentou que a própria força-tarefa comandada por Deltan Dallagnol pediu a progressão da prisão de Lula para o regime semiaberto.
Mendes respondeu na hora?
“Só o fez a partir da possibilidade do Tribunal decidir a questão da segunda instância. Foi uma benevolência compulsória”.
Na verdade, o procurador que pretendia ficar rico pediu, a juíza pediu, o Queiroz pediu, a torcida do Flamengo, Sergio Moro, os milicianos de Rio das Pedras, os Bolsonaros, todos eles pediram que Lula seja levado ao semiaberto à força, como concessão de Curitiba.
Mas Lula não quer concessão dos justiceiros. Lula quer a liberdade. Gilmar Mendes sabe disso e enfrenta a turma que ainda pretende mandar no Supremo.