Finalmente

Uma imagem em homenagem aos que lutaram e aos que esperaram por décadas, enquanto viam apenas os ricos terem acesso ao canabidiol e a outros medicamentos que poderiam (e agora poderão) aplacar suas dores.
A Anvisa aprovou a regulação da produção e comercialização de substâncias medicinais derivadas da maconha.
O bolsonarismo e o falso moralismo (a serviço do fundamentalismo religioso e das máfias dos laboratórios) não podem vencer todas.
O plantio de maconha para a produção de medicamentos ainda não foi liberado, Mas o primeiro passo foi dado com a comercialização da substância.

A SENADORA, A MACONHA E O OGRO MORALISTA

A senadora tucana Mara Gabrilli é uma das vozes fortes em defesa da liberação do plantio da maconha para fins medicinais. Mara é tetraplégica desde 1994, quando sofreu uma acidente de carro.

Ela consome óleo de canabidiol (CBD) importado, o único calmante para seu sofrimento. Produtos convencionais não conseguem tirá-la da cama. Sem o socorro do CBD, ela tem convulsões, sente falta de ar e sabe que em algum momento pode morrer.

Pois ontem vi a senadora num embate desigual com o ministro Osmar Terra numa entrevista à GloboNews. A moça dizia que as pessoas em condições semelhantes às dela precisam da ajuda da maconha.

Terra, que vê ameaça de tráfico, vícios e desvios em tudo, não se sensibilizou. Porque Terra é um reaça esquemático, um moralista que faz média com pregadores religiosos. Ocupa uma área que deveria ser liderada por uma mente aberta, humanista.

Terra é ministro da Cidadania. Deveria ser ministro do atraso e do ultraconservadorismo a serviço do obscurantismo.

Só que o embate entre ela e a senadora tem um problema. Mara e Terra estão mais próximos da extrema direita do que dos setores que lutam pela liberação do uso medicinal da maconha. E esses setores estão na esquerda.

A senadora comove por seu drama pessoal e pelo envolvimento na luta das pessoas com deficiência. Ela sabe do que fala. Mas está alinhada com quem luta contra tudo que ela defende. Até com Bolsonaro. Na entrevista ao lado de Terra ela se referiu ao “nosso governo”.

O governo de Terra e de Bolsonaro destrói tudo que Mara defende. E Mara contradiz tudo o que prega comportando-se como uma política da direita do PSDB, apesar do poder de atrair apoios às suas falas e ações pelos que sofrem por alguma deficiência física.

Mara discursou e votou pelo golpe contra Dilma com a fúria dos bolsonaristas. Apoiou a prisão de Lula. É natural, porque é tucana.

Mas também votou pela PEC do teto dos gastos públicos, que corta verbas de áreas decisivas para a sua empreitada pela saúde.

Mara apoiou bravamente a reforma trabalhista. Apoia a reforma previdenciária. Apoia tudo que é da direita. E ausentou-se do Senado e assim se omitiu quando a casa deveria autorizar (e não autorizou) as investigações contra Michel Temer e seu Quadrilhão.

Por isso Mara convive com a turma que não tem nenhum compromisso com o que ela defende. Osmar Terra é seu amigo. José Serra é seu mentor.

Os amigos da senadora defendem o cigarro nacional exaltado por Sergio Moro, mas não admitem o uso de substâncias da maconha para aplacar o sofrimento de crianças que têm dezenas de convulsões por dia.

Mara está na trincheira errada. A senadora não precisa ter ideias de esquerda. Mas a base das suas posições políticas conspira contra a essência da sua própria luta. Ninguém da direita irá apoiá-la. Ninguém.

Tudo o que ela defende como fundamental para a sua existência como pessoa e como ativista política não fecha com as ideias de seus parceiros no Congresso e no que ela chama de “nosso governo”.

SÓ MACONHEIROS RICOS

O bolsonarismo tem sua versão argentina. Vejam o que defende a modelo, apresentadora de TV e deputada de direita Amalia Granata, que pede a legalização da maconha apenas para os ricos.
“Uma coisa é legalizar a maconha para quem tem apartamento em Palermo (bairro chique de Buenos Aires) e se junta com amigos para ver Netflix e fumar um baseado, e outra coisa é quem vive numa casa de lata com chão de barro, que não tem banheiro, e começa a consumir maconha”.
Seria como liberar a maconha para os moradores do Moinhos de Vento, em Porto Alegre, mas não para quem mora na Restinga.
Amalia, uma das mais fortes vozes argentinas contra o aborto, foi eleita este ano como deputada da Província de Santa Fé com 146 mil votos. Ela não esclareceu se vê séries na TV fumando um baseado.
(Li a reportagem sobre a sensacional ideia da deputada no jornal página 12)

O Brasil cínico

Prenderam uma mulher que plantava pés de maconha em vasos, aqui na Aberta dos Morros. Seriam 21 pés de maconha. Se ela tivesse uns 10, não seria tráfico, mas 21…
Não sei quem é, só vi a notícia no jornal. Mas é brabo. Um dia teremos noção do absurdo que era perseguir quem consumia maconha.
A polícia cumpre o que manda a lei, mas a lei é de uma imbecilidade. É cínica, é burra, é uma lei do Brasil do moralismo seletivo da Lava-Jato.
Já os helicópteros com meia tonelada de cocaína continuam voando e seus donos circulam por aí com a máfia golpista. E a mulher está presa no Madre Pelletier. Deve ser pobre e negra.
Se vendesse leite com soda cáustica estaria solta, não por culpa da polícia, mas por ordem da Justiça.