O plano

Sempre acordo cedo porque tenho a pretensão de ser o primeiro a ler que Sergio Moro e Deltan Dallagnol trocavam mensagens sobre a Terra plana.
Mas eis que leio agora na Folha que há de novo um plano militar no Brasil para derrubar Maduro, oferecendo em troca uma anistia.
E o líder do plano, o inspirador, o estrategista, é Olavo de Carvalho.
Já estaria tudo combinado com Trump. Mas a reportagem não diz se combinaram com os russos.

O golpe que não é golpe

1. Maduro pode ser derrubado a qualquer momento, mas não será golpe, segundo os jornais. Será um levante pela democracia. Golpe é o que aconteceria no Brasil se Mourão derrubasse Bolsonaro, como têm insinuado os próprios filhos de Bolsonaro.
2. Muito interessante a declaração do cientista político americano Ian Bremmer hoje na Folha. Segundo ele, todos estão prontos para uma intervenção militar de fora contra Maduro. Estariam até agora ao lado de Maduro, entre outros, apenas China e Rússia. Apenas. É um cientista falando, mas parece um pensador do Itamaraty do Bolsonaro. Apenas Rússia e China.
3. Agora imaginem a reunião de Bolsonaro daqui a pouco com seus assessores (incluindo o chanceler Araujo) para tratar da crise na Venezuela. O sujeito que se afasta do verbo, que não consegue interferir nem em anúncios do Banco do Brasil, agora está definindo estratégias de guerra para a Venezuela.
4. É simplista, é rasa, é ingênua a divisão das esquerdas brasileiras entre os apoiadores de Maduro e os defensores da queda de Maduro. Só o que a esquerda precisa é entender o cerco que Maduro enfrenta desde a morte de Chávez e de como o garrote golpista inviabilizou a Venezuela política e economicamente e corroeu o que restava de coesão social. O golpismo americano permanente transformou Maduro num cachorro louco.
5. Mas pedir essa compreensão (apoiar ou não é o de menos, não muda nada) é querer muito, porque a esquerda não entendeu direito nem o cerco destruidor da economia feito pela direita ao governo de Dilma até o golpe.

JORNALISMO PARA ENGANAR BOBO

A Globo News comete mais do que um erro, comete uma fraude jornalistica quando põe Ariel Palácios, de Buenos Aires, a falar da realidade na Venezuela.
A Globo dá a entender que o correspondente tem uma melhor percepção dessa realidade, por alguma proximidade mediúnica. Não se trata de ter a melhor capacidade de análise, mas de observação da realidade, como tentou demonstrar agora há pouco, ao dizer que não há mais manifestações gigantes nas ruas porque muita gente foi embora do país.
Já escrevi a respeito desse truque da Globo News, mas agora foi brabo ouvir o sujeito dizer que falta gente nos protestos contra Maduro porque todo mundo fugiu para o Brasil e a Colômbia.
Ariel Palacios só não estaria mais distante da Venezuela do que o correspondente da Globo na Patagônia, se a Globo tivesse correspondente lá. Nenhum correspondente da América Latina está mais longe de Caracas do que o de Buenos Aires. Nem o da Cidade do México.
É enganador é só contribui para mais desinformação dar a entender que, por estar em Buenos Aires, Ariel Palácios está perto da realidade de Caracas. Não está. Ele está a mais de 5 mil quilômetros, em linha reta, da capital da Venezuela.
Caracas está numa ponta do mapa, e Palacios está na outra. Por isso, ele sabe tanto da vida real na Venezuela quanto todos nós sabemos por informações que qualquer um pode acessar. Palacios está muito distante da vida real na Venezuela.
O correspondente talvez opine sobre a situação do país por sua contribuição ao pensamento mais básico e mais reacionário.
Mas o telespectador não pode ser enganado. Ariel Palácios está tão perto de Caracas quanto eu estou da Groenlândia.

A GUERRA

Esqueçam o Queiroz, os milicianos, o laranjal do ministro do Turismo, a disputa por espaços entre civis e militares no governo de Hamilton Mourão. Esqueçam o pacote de Sergio Moro que a direita desmontou.
Poucos ouvirão as queixas de quem sabe que pobres, velhos e miseráveis serão condenados à morte com a reforma da previdência proposta pelo governo.
Porque agora ninguém vai ouvir queixas, nem o povo. Esqueçam até a Damares.
Agora, o foco é a guerra com a Venezuela. Passaremos dias, meses, talvez o ano todo entretidos com as ameaças contra Maduro.
A manchete dos jornais de amanhã será a guerra. O povo vai debater a guerra.
Bolsonaro arrumou finalmente o brinquedinho que sempre quis para que os laranjais e a guerra interna por poder saiam de pauta. Bolsonaro pinta-se para a guerra contra a Venezuela.
Não se surpreendam se daqui a alguns dias o cara aparecer dentro de uma farda militar daquelas com camuflagem. Aguardem.

MADURO E MARIELLE

O que fez a imprensa brasileira sobre o atentado com drones com bombas contra Maduro? Passou a insistir, com ironia, na suspeita de que o ataque havia sido armado pelo próprio governo.
Vivemos num país em que até hoje nada se sabe, além de especulações, sobre o assassinato de Marielle Franco.
E não se lê nada, mas nada mesmo, sobre esforços da grande imprensa no sentido de fazer com que o jornalismo investigativo contribua para o esclarecimento do crime, que dia 14 completará cinco meses.
Há apenas manifestações de indignação. Mas a indignação como retórica é cínica e vazia.
Não há mais nada na grande imprensa, além de abordagens superficiais e noticiosas, sobre a morte de Marielle, que se encaminha para o esquecimento. Mas a imprensa sabe que o atentado a Maduro foi uma armação.
O jornalismo investigativo brasileiro nada faz de mais relevante sobre o caso de Marielle porque foi sufocado pelos altos comandos reacionários das empresas, e não das redações.
As redações ainda tentam reagir, mas há pouco a fazer. A imprensa é protagonista do golpe. E, desde o golpe, a imprensa brasileira atua muito bem em investigações na Venezuela.

O destino de Maduro

É apenas uma obviedade sobre o que acontecerá na Venezuela. Maduro, o cão acuado desde a morte de Chávez, em algum momento será golpeado, preso, condenado por um tribunal especial (democrático, claro) e ficará anos na cadeia, como ficam os presos preventivos da masmorra da Justiça de Curitiba (adorada, claro, pelos nossos liberais).
E aí? E aí a vida segue na América Latina, até que se encerre mais um ciclo de golpismos. Ainda bem que no Brasil as instituições estão funcionando sob a inspiração do jaburu-da-mala, de Sergio Moro, de Gilmar Mendes, de Bolsonaro, do deputado tatuado Wladimir Costa, de Aécio, do pato da Fiesp, do ganso gaúcho, do Supremo…