O MANIFESTO

Em 1989, na primeira eleição para presidente após a ditadura, correu pela cidade um manifesto de apoio a Lula no segundo turno. Gente de todas as áreas assinou o texto de apoio ao metalúrgico que enfrentaria o bacana de Alagoas.
O manifesto teve a assinatura de profissionais de todas as áreas, professores, artistas, jornalistas, arquitetos, médicos, escritores, engenheiros, sindicalistas.
Foi impresso e distribuído em Porto Alegre, de mão em mão. Era uma folha enorme, dobrada em quatro, como se fosse quatro páginas de jornal.
O texto foi assinado por muitos colegas da redação de Zero Hora. Eu assinei e isso não significa nada de excepcional, porque, mesmo sob a tensão daquele enfrentamento, os jornalistas se posicionavam (quem tiver uma cópia do manifesto, que se manifeste).
Escrevo agora e enxergo aquela folha dobrada, com os nomes em letrinha miúda, sempre pensando na situação de hoje, em que as grandes redações, sob a mordaça dos altos comandos executivos das corporações, não teriam como largar algo parecido, ou teriam? Com nomes? Acho que não.
É triste, porque em algum momento, em todas as situações em que a democracia esteve sob ameaça, os jornalistas arranjaram um jeito de reagir e se manifestar.
Estamos em outros tempos (nos tempos do modo Havan) e eu os entendo e os respeito.

O manifesto

A artista plástica Zoravia Bettiol, discursando hoje à tarde, na Praça XV, no ato de leitura do manifesto encaminhado ao governo do Estado com o apelo para que as fundações atingidas pelo pacote de ‘austeridade’ não sejam extintas.

Bastaria, como compromisso com o evento, ir à praça só pra ver e ouvir Zoravia e o economista Cláudio Accurso. Os dois são lastros vigorosos de História, desprendimento e solidariedade nesses tempos sombrios.

As falas de Zoravia e Accurso foram os momentos mais emocionantes do encontro.

(abaixo, o link da reportagem de Zero Hora sobre o evento)

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2017/01/grupo-de-intelectuais-e-artistas-lanca-carta-contra-a-extincao-de-fundacoes-9231468.html

O golpe é mais forte do que se pensava

O manifesto contra o “autoritarismo jurídico”, assinado por intelectuais de várias áreas, não vai sair nem em canto de página dos jornais impressos. Nem na versão online. Jornais não querem saber de manifestos.

O que o próprio manifesto revela é que mais uma denúncia dos exageros das instituições, que têm atuado politicamente sempre contra os mesmos alvos, talvez não resulte em nada.

Porque só seus autores e outros poucos se rebelam, mesmo que em manifestos, contra a ação seletiva da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário. O país vai sendo anestesiado pelo golpe.

Paulo Sergio Pinheiro, Wanderley Guilherme dos Santos, José Miguel Wisnik, Saturnino Braga, Alfredo Bosi, Frei Beto, Jurandir Freire Costa, Bresser Pereira e outros serão ouvidos nas redes sociais por nós, por quem agora me lê e pelos que pensam como eles.

Os que apoiam o golpe, o show do Ministério Público, as regras da masmorra de Curitiba e o “legalismo” do juiz Sergio Moro não querem saber de manifestos. Eles querem levar o golpe adiante. E os indiferentes são indiferentes.

A sensação geral é de que até manifestos perderam força e sentido no ambiente do fascismo institucionalizado versão século 21. Fazer o quê?

Talvez agir nas nossas rotinas, além do retórico, e criar impasses que quebrem silêncios e mesmices no espaço de trabalho, na atividade de cada um. Imagino o dia em que tivermos gestos fortes, além de palavras.

O dia em que um grupo puxará uma universidade inteira para uma tarde de reflexão sobre o golpe. Parar as universidades por uma tarde. Será que param?

Imagino também a tarde em que alguns terão o peito de pedir que uma redação de jornal pare. Por uma ou duas horas. E que a redação discuta o golpe, os exageros cometidos em nome das instituições e a contaminação das próprias redações pelo golpismo.. Será que param?

Ah, o tempo em que uma redação parava. Se uma redação não para, o que pode ser parado? Se intelectuais largam notas, mas a maioria dos colegas está resignada com o golpe, fazer o quê?

Param por salários, por melhores condições de trabalho, mas não param por ideias?

Talvez o país já esteja aceitando a República de Curitiba e a República do Jaburu, com Padilha, Moreira Franco, Serra, Geddel e esse estranho ministro da Justiça como parte da nossa normalidade.

Falta algo mais do que manifestos. O golpe é mais forte do que se pensava, ou todos nós somos mais fracos até do que eles pensavam que fôssemos.