O MANUAL

Quando o jornalismo se dedica a debater como se faz um jornal, e não o que um jornal de fato faz, é porque o jornalismo foi pro brejo.
O interminável debate da Folha em torno do seu Manual de Redação é a confissão de que o exibicionismo pueril superou o relevante no jornalismo.
É como se a Ford convocasse especialistas em automobilismo para um grande debate público sobre o seu manual de conduta e saísse a publicar manchetes a respeito. Todos os dias.
A Ford não cometeria esta asneira. Os compradores de carro estão interessados na performance do carro e não na beleza do manual da empresa ou do manual do proprietário.
O jornalismo é a cara do país. Os jornais são parte da estratégia da direita para infantilizar a democracia, a política e os leitores. O manual é o espelhinho dos jornais. Tem índio que se encanta.

O MANUAL E O BOATO

Esta é uma das recomendações do novo Manual de Redação da Folha de S. Paulo aos seus jornalistas sobre como se comportar nas redes sociais: não compartilhem boatos.
Parece um conselho óbvio. Só que o jornalismo sempre dependeu dos boatos, e o jornalismo brasileiro vive de boatos há muito tempo.
Comentarista de jornal, rádio ou TV, engajado ao golpe, só funciona com boatos das suas fontes ligadas a tucanos e jaburus, no governo, no Congresso, no Judiciário, no Ministério Público.
Desde o começo da Lava-Jato o que o jornalismo faz nem é compartilhar boatos. É produzir boatos. As colunas de fofocas da política existem por causa do boato.
A Lava-Jato sustentou todo o trabalho da imprensa (sem nenhuma reportagem investigativa relevante, uma que fosse) com a alcaguetagem e o boato. Desde que a vítima fosse Lula, Dilma e o PT.
Sem o boato, a Folha de S. Paulo não seria o que é. O boato, sob as mais variadas embalagens, é a matéria-prima e o produto acabado de quem cobre a Lava-Jato.
Mas para a Folha e os grandes jornais, não é boato, é informação privilegiada.