O repórter e o fiscal

Quando me perguntam qual é o fundamento de ver o Fantástico, eu respondo assim: pra ver as reportagens de um jornalista de fundamento, o meu amigo Marcelo Canellas.
Ontem, Canellas e os repórteres Alan Ferreira e Marcos Silva mostraram a perseguição da bandidagem da floresta aos servidores do Ibama e do ICMBio que tentam defender a Amazônia. Bandidagem que tem agora o incentivo e a proteção do bolsonarismo.
Carlos Rangel da Silva, o fiscal de 70 anos, conduz e fecha a reportagem dizendo a Canellas, quase chorando, que deseja sobreviver para ver o neto, que vai nascer logo.
Silva é a imagem do servidor público abandonado e entregue pelo bolsonarismo aos bandidos da Amazônia.

O PAI DO MARCELO

Conversei há pouco por telefone com meu amigo Marcelo Canellas. Ele estava na Rússia, como repórter da Globo na cobertura da Copa, quando ficou sabendo que o pai, o seu Zacheu, estava mal em Santa Maria.
Viajou para o Brasil e chegou a tempo de se despedir do pai. Seu Zacheu, que eu conheci quando o Marcelo e a Lúcia Ritzel me levaram à Feira do Livro de Santa Maria no ano passado, morreu ontem.
O texto que o Marcelo escreveu sobre o pai é lindo e comovente, porque todo filho e todo pai deveriam ter o direito a uma despedida. Eis o texto:

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A esta hora meu pai deve estar rindo à beça do voo desengonçado do anjo Malaquias, aquele a quem Nossa Senhora, devido a uma operação de urgência para salvá-lo das garras de um ogro, fez nascer-lhe apressadamente as asinhas na bunda. Ou então deve estar pulando amarelinha na porta do céu só para provocar as freiras que o ameaçavam na infância com as chamas do inferno por causa de uma ou outra traquinagem como, por exemplo, virar as fatias de pão na mesa do refeitório da escola com a geleia para baixo. Ou deve estar arrancando um meio-sorriso de Deus com alguma tirada espirituosa sobre o sexo das anjas.
Durante a longa viagem que fiz de Moscou a Santa Maria, onde vivi o momento purificador em que pudemos chorar juntos num abraço de despedida junto à cama do hospital, tive, antes de chegar, tempo suficiente para entender o quanto o bom-humor com que meu pai levou seus 83 anos de vida iluminou todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele. A leveza e a suavidade com que enfrentava os mais embaraçosos desafios, inclusive o golpe traiçoeiro e violento da morte, lhe deu uma dose cavalar de coragem para manter intocada a altivez e a dignidade como marcas pessoais.
Meu pai dedicou sua vida a sua família e aos seus amigos, mas também a um ideal que germinava da terra. Como agrônomo extensionista, doou toda a força de sua energia àqueles que acreditava serem, por merecimento e vocação, os grandes artífices de uma nova era de justiça fundiária produtora de saúde e fartura: os índios, os colonos sem terra, os assentados, os agricultores familiares e todos os espoliados de um modelo econômico excludente e concentrador.
Eu, minha mãe, meus irmãos, meus filhos e sobrinhos, toda a família, seus amigos, parceiros e camaradas, somos todos gratos por tantos anos inspiradores de convivência. E sendo como ele é, sei que quebraria o gelo da tristeza com uma anedota qualquer: sabe a última do Zacheu? Sei, pai. A última do Zacheu foi partir fazendo morada em nossos corações.

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A professora e a juíza

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MARCELO CANELLAS

(Texto publicado no perfil de Marcelo Canellas no FaceBook. Canellas é repórter especial da TV Globo.)

Em julho de 2013, Margarida e José Robério Seabra de Moura me receberam no apartamento deles, em Natal. Eu e meu saudoso parceiro Luiz Quilião fomos à capital potiguar para entrevistar a filha do casal, Débora, a primeira professora brasileira com síndrome de Down.

A entrevista rendeu uma reportagem para o Fantástico. Eis que, quase 5 anos depois, a professora Débora é atacada pela desembargadora Marília Castro Neves, a mesma que espalhou notícias falsas na internet, difamando a vereadora Marielle Franco logo após o assassinato que estarreceu o país.

Em sua postagem sobre Débora, a desembargadora se pergunta: “o que será que essa professora ensina a quem?”. Débora não precisa que ninguém a defenda. Ela própria escreveu, de próprio punho, uma resposta que é também uma bela lição de civilidade, explicando a tal desembargadora que “ensina muitas coisas para as crianças.

A principal é que elas sejam educadas, tenham respeito pelas outras e aceitem as diferenças”. Não tenho muito a acrescentar, além de deixar aqui meu beijo a Débora e a seus pais, reiterando que ela orgulha o Brasil.

Ao contrário de alguns quadros do judiciário brasileiro que são, a um só tempo, motivo de vergonha e parte da explicação para a injustiça que caracteriza tantas decisões judiciais pelo país afora.

ONDE FOI PARAR A REBELDIA?


Uma grande pauta para o grande repórter da TV brasileira. Me perguntam muitas vezes porque ainda vejo o Fantástico. Eu não vejo o Fantástico. Eu fico de tocaia à espera das reportagens do Marcelo Canellas. Como essa que veremos domingo.
Esta é a chamada de Canellas para a reportagem:
“Onde foi parar a rebeldia da juventude? Onde estaria a inquietude benigna que tantas vezes esteve na vanguarda das mudanças na história da humanidade? Domingo, no @showdavida, os efeitos – sobre a juventude brasileira – da grave crise econômica e política em que estamos metidos.O que a chamada “geração Z” pensa da vida? Ao fazer esta reportagem especial, não pude deixar de me angustiar com o país que estou deixando para os meus filhos”.

Por onde anda a Justiça?

Este texto comovente, sobre os descaminhos da Justiça no caso da Boate Kiss, foi publicado no Face Book pelo jornalista Marcelo Canellas, repórter especial do Fantástico. Canellas é de Santa Maria. Aí está:

MONTEIRO LOBATO, FLÁVIO E O CASO KISS

MARCELO CANELLAS

O direito à crítica é um dos pilares fundamentais da democracia. A ideia de que existe alguma esfera de poder constituído imune a questionamentos é uma das expressões do pensamento totalitário. Isso vale também para o ministério público e para o judiciário. Numa sociedade democrática, ninguém pode merecer a blindagem da insuspeição absoluta.

Flávio Silva perdeu a filha no incêndio da boate Kiss. Ele criticou duramente a atuação dos promotores de justiça de Santa Maria, que não denunciaram nenhum agente público no processo que apura as responsabilidades pela tragédia. Um desses promotores se sentiu ofendido e processou Flávio por calúnia e difamação. A alegação é a de que Flávio exagerou, extrapolou o direito de criticar.

Como cidadão e como pai, cada vez que examino esse episódio, penso sempre nos meus dois filhos, belos, saudáveis, íntegros, no gozo pleno das delícias da vida. Quando me coloco no lugar do Flávio, me aterrorizo e me choco. Eu não garantiria temperança nem bom senso se o pior acontecesse com os dois grandes tesouros que tenho. Bom senso eu exigiria, insistente e intransigentemente, do Estado brasileiro diante de um desastre de proporções descomunais.

Ontem, Flávio sofreu uma derrota acachapante no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. No julgamento da exceção da verdade, mecanismo jurídico ao qual ele recorreu para contestar a ação que o promotor lhe move, sua tese foi rechaçada pelos 22 desembargadores que votaram. Restando apenas 2 votos, o 23º desembargador pediu vistas e o julgamento foi interrompido. Em tese, todos os votos podem ser ainda revertidos quando o julgamento prosseguir em uma outra data. Mas parece difícil que isso aconteça.

Com todo o respeito aos desembargadores, que detém notório saber, do contrário não estariam na posição que ocupam, existem valores fundamentais, conquistas históricas da civilização diante da barbárie, que se sobrepõem ao formalismo jurídico. Esses valores dizem respeito à compaixão, à generosidade e à solidariedade que tornam possível a vida em comunidade. Ao aterem-se à letra fria da lei, desconsiderando o trauma de uma comoção de escala planetária, o Tribunal de Justiça, em minha opinião, abandona a vocação humanista do direito. É o Estado dizendo aos cidadãos: não contem conosco, sofram sozinhos.

Quero dizer ao Flávio, a quem admiro profundamente como pessoa e como ativista dos direitos das famílias das vítimas, e também ao Sérgio, ao Paulo e à Marta, os outros pais também processados por criticarem o ministério público, que esta é apenas uma etapa da longa trajetória que eles enfrentarão ao longo dessa caminhada. Justiça é uma palavra que extrapola sua significação institucional. Justiça não é um plenário de juízes, nem uma convicção de promotores. Justiça é um conceito, uma ideia, um patrimônio construído coletivamente pela humanidade. E temos de confiar que, em algum momento, ela virá.

Por fim, quero compartilhar um texto que li pela primeira vez, na escola, quando eu tinha 9 anos de idade. Foi desconcertante descobrir, ainda criança, que a justiça nem sempre é cega, nem sempre é imparcial, nem sempre é justa. Só mesmo a genialidade de um escritor fabuloso para nos abrir os olhos.

O JULGAMENTO DA OVELHA

(Monteiro Lobato)

Um cachorro de maus bofes acusou uma pobre ovelhinha de lhe haver furtado um osso.

— Para que furtaria eu esse osso — alegou ela — se sou herbívora e um osso para mim vale tanto quanto um pedaço de pau?

Não quero saber de nada. Você furtou o osso e vou já levá-la aos tribunais.

E assim fez.

Queixou-se ao gavião penacho e pediu-lhe justiça. O gavião reuniu o tribunal para julgar a causa, sorteando para isso doze urubus de papo vazio.

Comparece a ovelha. Fala. Defende-se de forma cabal, com razões muito irmãs das do cordeirinho que o lobo em tempos comeu.

Mas o júri, composto de carnívoros gulosos, não quis saber de nada e deu a sentença:

— Ou entrega o osso já e já, ou condenamos você à morte!
A ré tremeu: não havia escapatória!… Osso não tinha e não podia, portanto, restituir; mas tinha a vida e ia entregá-la em pagamento do que não furtara.

Assim aconteceu. O cachorro sangrou-a, espostejou-a, reservou para si um quarto e dividiu o restante com os juizes famintos, a titulo de custas…

O marketing da diversidade

Marcelo Canellas, repórter da TV Globo, e Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S. Paulo, tratam do mesmo assunto hoje – a diversidade na imprensa. E, no caso da abordagem deles, da pluralidade e da liberdade de expressão no humor.
Marcelo anuncia no Facebook que deixa de ser cronista do Diário de Santa Maria porque a nova direção do jornal tentou “impor limites editoriais à charge” do cartunista Elias. O chargista, que condenou o golpe, por exemplo, acabou perdendo seu espaço. E Marcelo desistiu então de publicar seus textos.
Paula trata das queixas sobre a falta de diversidade na Folha, onde todos os chargistas seriam de esquerda. Tanto que recentemente contrataram Hubert, ex-Casseta, como contraponto.
A mesma Paula levanta uma dúvida: existe mesmo humor de direita, se o humor é por natureza transgressor, e a direita quer conservar quase tudo como está?
Seria humor o conjunto de asneiras e grosserias que parte da direita produziu na internet sobre a doença de dona Marisa Letícia? Claro que não é.
O debate merece prosperar. Fora a grande questão da renúncia do Marcelo a um espaço e a um ambiente que não lhe serviam mais.
É uma decisão pessoal que indica os limites de cada um, nas mais variadas circunstâncias, também no jornalismo, uma área em que a diversidade corre o risco de virar apenas recurso de marketing. Grande Marcelo. Grande Elias.