Lula, Bolsonaro, Marielle e as instituições

Tudo no mesmo dia. Em Porto Alegre, o TRF4 encaminha-se para reafirmar mais uma condenação de Lula.
Em Brasília, o procurador-geral da República, Augusto Aras, defende que Sergio Moro e sua polícia se adonem das investigações do assassinato de Marielle.
É a tal federalização do caso. Bolsonaro, seu filho senador, Queiroz e os milicianos poderão ter tratamento diferenciado.
Ainda bem que as instituições estão funcionando e que hoje ninguém pediu a volta do AI-5.

O assassinato de Marielle e o condomínio de Bolsonaro

Quem foi que, de dentro da casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca, deu autorização para que Elcio Queiroz entrasse no condomínio da Barra da Tijuca, na tarde do dia do assassinato de Marielle Franco, 14 de março do ano passado?
Elcio era o motorista do carro que levou o matador Ronnie Lessa ao local do crime.
Na portaria do condomínio, está registrado que às 17h10min naquele dia 14 ele se anuncia e pede para ir à casa 58. É a casa de Bolsonaro.
Mas Elcio, que dirigia um Logan, acabou indo à casa de Ronnie Lessa, vizinho de Bolsonaro. O porteiro diz que falou com Bolsonaro duas vezes, quando pediu autorização para a entrada de Elcio e quando o alertou, ao olhar no controle interno feito por câmeras, de que o motorista estacionado em outra casa.
Mas Bolsonaro estaria em Brasília naquele dia. O porteiro assegura que conversou nas duas vezes com alguém que seria o “seu Jair”.
Se não foi o seu Jair, quem atendeu o porteiro e permitiu a entrada do criminoso? Quem disse depois ao porteiro que tudo bem, que sabia que Elcio iria à casa de Ronnie Lessa e não à casa 58?
E agora as grandes dúvidas. A primeira: os registros de voz da portaria, que gravam todas a conversas dos porteiros com os visitantes e os residentes, ainda existem ou já foram eliminados? Quem guarda esses registros? Se ainda existirem, terá sido um milagre.
A segunda dúvida: o Supremo irá autorizar que a investigação seja feita, já que envolve o presidente da República? O pedido do Ministério Público está com Dias Toffoli.
Enquanto Toffoli pensa, provas podem ser destruídas, entre as quais a tal gravação que pode provar quem falou com o porteiro.
O Jornal Nacional contou toda essa história agora há pouco. É furo da Globo.
Mais um problemão para os Bolsonaros. Mas deve ser tudo coincidência.

Investigação? Onde?

A grande imprensa não tem uma reportagem que possa ser chamada de investigativa, uma só, sobre o assassinato de Marielle Franco.
Uma semana depois da execução da vereadora e do motorista Anderson Gomes, os jornais comem pelas mãos de investigadores, dos interventores e das versões-tipo-Sedex dos políticos.
Nem no tempo da ditadura o jornalismo foi tão subserviente.
(Hoje mesmo a Folha pede em valente editorial a renúncia do presidente corrupto… do Peru.)

A vingança das mulheres

As americanas adotaram no ano passado um gorro cor de rosa com orelhas como símbolo da guerra contra a política machista de Trump. E marcharam nas ruas com a invenção dos gorros-gatinho, usados também por homens.
As brasileiras não precisam inventar nada. Elas têm panos, lenços e turbantes cada vez mais presentes nas cabeças das mulheres. As negras exibem com orgulho seus cabelos crespos, muitas vezes envoltos em panos.
A imagem poderosa de Marielle Franco está definitivamente associada aos seus panos coloridos.
O Brasil poderia começar a derrotar o golpe com as mulheres ostentando em manifestações os adereços que as identificam neste começo de século 21. Os panos coloridos que embelezavam Marielle e fortaleciam sua negritude poderiam ser a marca das ruas contra o golpe.
E então contaríamos mais adiante aos mais novos que o golpe acabou sob a inspiração de uma moça valente que amarrava panos à cabeça.
Os homens estão acomodados demais. Mas muitos deles (que também usam panos) podem aderir. Eu gostaria de dizer um dia que as mulheres negras, brancas, pardas, índias, mamelucas, amarelas derrotaram os golpistas que derrubaram Dilma.

MARIELLE NAS MÃOS DA GLOBO

A Globo quer se apropriar da imagem de Marielle Franco. Ontem, para homenageá-la, o Fantástico descobriu a Declaração dos Direitos Humanos e informou que se trata de uma convenção assinada também pelo Brasil.

A Globo sabe que a direita sabe o que significa a Declaração. Todos os que combatem defensores de direitos humanos sabem. Bolsonaro e seus seguidores sabem muito bem.

E todo mundo sabe que a Globo exalta sem parar a memória de uma defensora dos direitos humanos porque Marielle Franco está morta. Não há na história da Globo nada que recomende a ver sinceridade nessa exaltação.

A Globo teatraliza questões fundamentais e temas como esse em novelas e no jornalismo, mas foge da realidade que a incomoda. A esquerda em que Marielle militava incomoda a Globo. Os vínculos de gente com a bravura de Marielle com negros e pobres também incomodam.

A esquerda incomoda a Globo e os que fingem não saber o que são direitos humanos. Mas a Globo gosta de heróis mortos como figuras míticas e finge gostar até de Che Guevara.

Para a direita, guerreiro bom é guerreiro morto. Guerreira valente é a que pode ser explorada pelo marketing global. A Globo teme e esconde de seus programas os militantes de esquerda vivos e só espera que virem mártires para poder usufruir de suas imagens.

Foi o que fez ontem com Marielle, a vereadora eliminada no começo de uma intervenção que ela condenava, porque somente iria pegar os pobres.

A Globo exaltou Marielle, fez o Brasil chorar de novo por Marielle e no fim defendeu a intervenção, como irá defender de novo hoje, contra negros e pobres.

A memória de Marielle não pode ser manipulada pela Globo, pela grande imprensa e por jornalistas fofos a serviço do golpe e da intervenção.

Alguém disse que Marielle era “uma potência” por sua capacidade de agregar, mobilizar, de acusar as milícias, criar empatia, de defender seu povo. Pois a Globo quer tratar Marielle a seu modo, para que sua imagem seja pasteurizada e perca a potência que a grande imprensa teme nos que continuam vivos.

A direita deve cuidar da imagem de Sergio Moro e de Bolsonaro. Marielle era uma radical da democracia e dos direitos humanos.

Oportunistas

E ainda vamos ter de aguentar os jornalistas fofos (que ajudam a criminalizar os movimentos sociais, que se queixam de carros parados por causa de protestos de trabalhadores, que atacam sindicalistas e líderes comunitários, que odeiam políticos de esquerda, que tocam corneta para a extrema direita, que massacram feministas) chorando em suas falas e escritos o assassinato de Marielle Franco.
Canalhas, canalhas, canalhas. Mil vezes canalhas.

Os assassinos de Marielle

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Se não esclarecerem em algumas horas a execução da vereadora Marielle Franco, os interventores do Rio estarão condenados à irrelevância.
No Brasil, só perseguem, massacram (como massacraram as professoras de São Paulo hoje), processam, cassam politicamente, caçam moralmente e matam militantes e líderes da esquerda, pobres e negros.
Marielle foi assassinada pelas ações e pelas omissões comandadas e/ou induzidas pela direita. A direita extremada da política, aliada explícita ou camuflada de milicianos dos morros, do Congresso e do Judiciário, massacra o Brasil.
Cuidemos das tantas outras Marielles de outros Estados e outras cidades.