Os três charutos cubanos

cuba

Estes três charutos cubanos estão no meu escritório há mais de 10 anos. Os anéis de papel de identificação estão esbranquiçados, já sem a marca, mas os três charutos têm nome: Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos.

Os outros charutos que vieram de Havana junto com esses três foram consumidos enquanto fui fumante, antes de ganharem nomes. Os charutos foram um presente dos meus amigos Mário Marcos de Souza e Maria Helena, quando estiveram em Cuba.

Mário Marcos me entregou aquele monte de charutos, que eu pensei em socializar com o Kadão Chaves. Kadão entende até do tipo de fumaça que cada um produz. Depois, pensei bem e, por egoísmo, por ser um socialista bastante imperfeito, acabei ficando com todos.

Guardo os três charutos pela força afetiva que carregam e porque me levam a Havana. Já estive em Porto Rico, ali do lado, onde fui a trabalho, mas planejei e adiei viagens e nunca visitei Cuba, apesar de me acusarem de ser comunista.

Pois me lembrei dos presentes agora porque li na Folha que os turistas que foram a Cuba para os funerais de Fidel estranham que não há souvenirs à venda com a cara dele em Havana.

Não há chaveirinhos, canecas, camisetas. As lembrancinhas do comandante morto, que muita gente achou que encontraria em qualquer parte, não existem em Cuba.

Cuba não ganha dinheiro com a morte. A repórter Sylvia Colombo conta que as lojas podem vender apenas camisetas com a imagem do Che, porque Che é um mito. Mas nada de Fidel.

Quem sabe mais adiante? Quem sabe… Por enquanto, o comunismo trata bem da sua reputação e da imagem de seu chefe.

Penso nisso e olho para os meus três charutos e penso nas virtudes e nos defeitos de Cuba. Mas penso principalmente que a direita e suas assemelhadas, que tentam tirar proveito até de tragédias, nunca entenderão o que há de respeito e de dignidade numa atitude como essa de não ganhar dinheiro com a imagem do líder que morreu.

 

Os óculos

O jornalista Mário Marcos de Souza, comentarista do SporTV, é quem narra a história de hoje do Porta na Cara. É uma clássica lembrança de infância, com a clássica guria dos cabelos longos.

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OS ÓCULOS

Mário Marcos de Souza

Quando vi aqueles óculos debaixo do banco da frente do ônibus que me levaria ao ginásio, logo imaginei lá na ingenuidade dos meus 11 anos que tinha descoberto a chave (na época, estávamos muito distantes do tempo das senhas) para um novo mundo.

Sabia a quem pertenciam.

Eles estavam sempre no rosto daquela moreninha de cabelos lisos e compridos, que andava com o balançar seguro e superior de quem era admirada.

Encontrar os óculos, portanto, e ter o privilégio de entregar em mãos daquela primeira paixão de criança, receber um olhar agradecido em troca e, quem sabe?, romper com a barreira da indiferença, me fez sonhar o tempo todo, na curta viagem entre o centro da Criciúma dos anos 50 e o morro onde ficava o prédio antigo do colégio Madre Teresa Michel.

Quando desci, corri logo para o corredor onde os alunos aguardavam a sineta da chamada e passei a procurar a menina dos cabelos compridos.

Ela estava lá, conversando com algumas amigas, segura como habitualmente era.

Aproximei-me, balbuciei (ou tremi) alguma palavra e estendi a mão com os óculos. Me achava o herói do momento.

Foi tudo muito rápido. Ela se virou, pegou os óculos sem me encarar e, imediatamente, virou-se e seguiu na conversa com as amigas.

Rápido e frio assim.

Eu esperava ao menos um prosaico obrigado.

Recebi indiferença. Minha primeira paixão terminou em rejeição.