A matança

Os nove jovens mortos em Paraisópolis não devem entrar nas estatísticas da matança diária da Polícia Militar de São Paulo. Até porque, segundo Sergio Moro, as autoridades cometeram erro operacional.
Monica Bergamo informa hoje na Folha que até outubro 697 pessoas foram mortas por policiais fardados no Estado. Em 2018, foram 686 no mesmo período.
É preciso que se repita sempre: matam pobres e negros. E os assassinos são, na maioria, da mesma base social das vítimas.
São pobres e negros matando pobres e negros a mando dos brancos.

O PRIMEIRO BAILE E O MASSACRE DE PARAISÓPOLIS

O primeiro grande baile funk de Porto Alegre aconteceu em abril de 2001, no Gigantinho. Pode ter sido o maior baile funk de todos os tempos no Estado.

Eram mais de 4 mil pessoas na quadra e nas arquibancadas. O funk apresentava-se como novidade para os gaúchos. Veio gente do Rio para organizar a festa. Eu vi, eu estava lá.

Os bailes, já naquela época, ainda longe do bolsonarismo, atraíam todo tipo de preconceito da direita moralista e dos que odeiam negros e pobres.

Eu queria saber o que era um baile funk. Com meu amigo Júlio Cordeiro, que fez as fotos, ficamos até o dia clarear e apresentamos um relato de duas páginas em Zero Hora.

Podemos dizer que ajudamos a divulgar o funk e reforçar o combate às tentativas de estigmatização da arte e das festas dos funkeiros. Ronaldinho Gaúcho apareceu no ginásio do Inter, protegido por um capuz, para não mostrar a cara na casa dos colorados.

Me lembro do estudante Mário Roberto Gomes de Lima, 18 anos, morador da Restinga, com uma camiseta preta e a inscrição no peito: 100% negro. O guri era o que o IBGE cadastra como pardo. Mas ele queria ser reconhecido como 100% negro. Nunca tinha visto uma camiseta como aquela, que depois se popularizou.

Mário tem 36 anos hoje. Faz o quê? Mora onde? Me lembrei dele e do baile por causa do massacre de Paraisópolis. A maioria dos 10 mortos tinha idade semelhante à do adolescente de 2001.

De lá até aqui, o preconceito ficou ainda mais cruel e foi politizado pela direita, e os massacres ganharam suporte “jurídico”. Matavam muitos negros em 2001, sempre mataram, por qualquer motivo. Agora matam com a proteção do discurso oficial e das iniciativas bolsonaristas de Sergio Moro.

Matam porque, na Era Bolsonaro, assassinos fardados não temem mais nada. Um ex-juiz diz que podem matar se sentirem medo, se apresentarem desculpas sobre alguma surpresa ou se estiverem sob forte emoção. Ainda não é lei, mas está na fala de um ministro da Justiça.

Matam porque muitos ficam impunes e mais adiante, com a lei de Moro, todos ficarão. O bolsonarismo se sente desconfortável com a festa das comunidades. O racismo bolsonarista odeia a alegria dos negros.

Um tumulto…

Palavras usadas pelos grandes jornais para o massacre de sábado em Paraisópolis: tumulto, incidente, tragédia.
As palavras certas para o cerco da polícia e o assassinato de nove jovens serão encontradas nos sites, blogs e outros espaços do jornalismo de resistência.
A grande imprensa é cuidadosa com a imagem de Doria Júnior, para não associá-la ao submundo dos milicianos da política.

SANGUINÁRIOS

Bolsonaro, Witzel, Doria Junior e Sergio Moro atuam na mesma faixa da extrema direita.
Eles serão os candidatos do eleitorado do fascismo, do ódio e das ignorâncias (no plural) em 2022.
Qualquer um dos quatro pode falar em nome das milícias e do ‘direito’ de matar pelo medo que a polícia tem do povo.
Com o massacre de Paraisópolis, Doria Junior ingressa no primeiro time sanguinário da Era Bolsonaro.
Moro é o que oferece argumentos ‘legais’ à licença para matar. É o subalterno jurídico submetido às ordens de todos os outros.
A realidade consagrada pela literatura e pelo cinema nos ensina que tipos com o perfil de Sergio Moro são os mais cruéis de todos.

NOITES DE FESTA E HORROR

Na mesma noite em que Sergio Moro era ovacionado no show de Roberto Carlos em Curitiba, horas depois a polícia massacrava moradores da favela de Paraisópolis em São Paulo.
A Alemanha tomada pelo nazismo teve muitas noites semelhantes, com a mesma cumplicidade das elites, da classe média recalcada, decadente e racista, da polícia e dos políticos de uma extrema direita muitas vezes disfarçada de liberal.
(Hoje à tarde, o narrador Cleber Machado disse na Globo, na transmissão de Palmeiras x Flamengo, que as nove pessoas morreram “durante a dispersão de um baile funk”…)