Guedes é o Roberto Alvim que deu certo

Paulo Guedes diz na maior caradura no Fórum de Davos: “As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”.
Quis sugerir, como se falasse para a direita imbecil do Brasil, que os destruidores da Amazônia são os pobres, e não os traficantes de madeira, os grileiros, os latifundiários e os assassinos de índios.
E ainda defendeu a liberação sem limites de agrotóxicos, num evento em que a pauta é a proteção do ambiente.
Paulo Guedes é o Roberto Alvim que deu certo.

O FIM DO DUELO ENTRE GRETA E SCRUTON

Morreu Roger Scruton, o pensador de uma certa direita pretensamente chique, que se sente no direito de refletir sobre o mundo deixando tudo como está, em nome do que ainda possa ser chamado genericamente de conservadorismo.

Scruton dava a entender que tinha grandes sacadas para os dilemas da humanidade, mas tangenciava abordagens, sempre a partir das posições do reacionarismo glamourizado. Não mexa em nada, nem no que nunca deu certo ou no que sempre estará errado.

Era aparentemente romântica, mas diversionista, antiga, superada, sua posição sobre o maior drama da humanidade: a solução para as questões ambientais está antes na casa de cada um, na vizinhança, nas comunidades, nas famílias, e não na abordagem política das macroquestões, como o aquecimento global.

Foi assim que o britânico deu munição para que o machismo mundial atacasse a menina Greta Thunberg, porque os radicais – segundo ele – gritavam muito e sugeriam poucas saídas. Pois a saída dos radicais sempre foi, antes de mais nada, denunciar os crimes dos destruidores do ambiente.

Essa pregação redundante é dele e foi dita na última passagem pelo Brasil: “Todos nós temos uma responsabilidade com o nosso meio ambiente. Um dos problemas é que os ativistas ambientais definiram essa responsabilidade como algo tão grande, tão vasto e tão abrangente, que ninguém sabe como enfrentar essa responsabilidade”.

Não é verdade. A humanidade superou há muito tempo, pelo menos no mundo considerado desenvolvido, o debate sobre o varejo do ambientalismo de classe média, como a separação do lixo, o replantio de áreas devastadas, do manejo do solo, das trocas de experiências nos bairros e nas escolas e outras iniciativas consideradas pedagógicas.

O que o mundo não conseguiu resolver, e não conseguiria nunca, se dependesse de gente como o filósofo do conservadorismo, são as responsabilidades dos grandes impasses determinados pelo interesse econômico, pelo imobilismo e pelo boicote político de grupos empresariais e países.

Não adianta, como ele pretendia, ficar propondo soluções ditas cotidianas para o ambiente, se Bolsonaro continua estimulando a destruição da Amazônia e Trump e as grandes corporações poluidoras mundiais mantêm o conluio pelo lucro a qualquer custo.

“Acredito – disse Scruton – que o movimento ambientalista errou ao começar a partir desses problemas imensos que não sabemos como resolver. Deveríamos começar pelos pequenos problemas que nos permitem cooperar com nossos vizinhos.”

Os vizinhos sabem há muito tempo o que fazer e não fazem mais porque as grandes políticas não ajudam. Scruton não sabia o que é o drama ambiental e social da miséria sem água e esgoto.

O guru da direita (imaginem que até Bolsonaro emitiu uma nota de pesar) morre sabendo que os ambientalistas acertaram e que suas ações ofendem apenas os destruidores do mundo.

O antiesquerdista, anticomunista e anticomunidade europeia Scruton morre junto com muitas das suas ideias individualistas, enquanto Greta está cada vez mais viva e mais radical.

APARELHAMENTO, PERSEGUIÇÃO E RESIGNAÇÃO

Ricardo Salles só demitiu a servidora de carreira Marisa Zerbetto da Coordenação-Geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas porque sabe que não acontecerá nada.
Marisa conspirava contra a liberação geral de venenos para a lavoura. Como o bolsonarismo aparelhou o Estado, a limpeza de gente incômoda continua. E só continua porque os colegas de Marisa ficarão quietos. A maioria ficará.
Ficam quietos diante dos desmandos do ministro analfabeto que aparelhou o Ministério da Educação, aquietam-se na área da segurança ocupada pela turma de Sergio Moro, ficam silenciosos na pasta dos direitos humanos de Damares.
Servidor público de carreira é funcionário permanente de Estado, não é subalterno eventual de Bolsonaro.
Por que a extrema direita vai se apoderando da estrutura de áreas decisivas do setor público e não acontece nada?
O que há hoje no serviço público que não existiu nem na ditadura, quando os rebeldes foram cassados e condenados a viver na penúria, mas seus colegas continuaram resistindo e sendo cassados?
A demissão de Marisa Zerbetto é resultado dessa apatia, da mesma resignação com que foi tratada a demissão de Ricardo Galvão do Inpe, enquanto índios são mortos, a Amazônia é devastada e as lavouras, os rios e os alimentos são envenenados.
O bolsonarismo conseguiu controlar e calar o serviço público. Até quando?

JANE FONDA E OS JOVENS

Prenderam Jane Fonda hoje em Washington porque fazia protestos em defesa do meio ambiente. Jane tem 81 anos, mas vai às ruas, protesta e acaba algemada e presa.
É um risco que raros jovens brasileiros correm hoje. Jovem brasileiro branco, como regra, não vai preso há muito tempo por causa de militância em defesa do ambiente ou de qualquer outra coisa.
A polícia só criminaliza os movimentos sociais e prende pobres e negros, quando não decide matá-los.
Mas não falemos da militância de exceção, porque as exceções apenas ajudam a explicar o momento brasileiro de apatia, alheamento e depressão.
O resto, o brasileiro branco, de classe média, que poderia estar protestando por alguma coisa, está vendo Netflix.
(O vídeo está no link)