Por que Janot poupou o jaburu-da-mala?

É grave o que diz o procurador Celso Três em entrevista a Daniel Haidar para o jornal El País. Segundo ele, o procurador Rodrigo Janot teria como abrir investigação contra o jaburu-da-mala, quando era vice de Dilma.
Janot preferiu esperar, porque acreditava que teria um terceiro mandato na Procuradoria-Geral.
Conheço Celso Três, com quem conversei várias vezes no tempo do caso Banestado. O procurador fala o que acha que deve falar. Espera-se que Janot ofereça alguma explicação.
Vejam o que Três afirmou:
“Está provado hoje que Janot sabia, sim, da gravação da JBS. O ex-procurador Marcello Miller deu a entender que o procurador-geral da República sabia disso. Mas, ainda assim, o que é a segunda denúncia? Janot imputou a Temer obstrução de Justiça e (chefia de) organização criminosa. Mas ele cita atos de corrupção que são anteriores ao mandato presidencial. Isso que é grave contra Janot. Enquanto a ex-presidente Dilma Rousseff estava no poder, Janot sequer abriu investigação contra Temer. Tinha gente processada e até presa com elementos que Temer já apresentava, como o caso da Engevix. Isso é inexplicável. Aí quando ele vai fazer? Quando ele se convence que não conseguiria um terceiro mandato”.

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/10/politica/1510338596_866594.html

 

Moro deveria examinar grampo do jaburu

A conversa gravada do repórter do Globo com o jaburu-da-mala deveria ser enviada ao juiz Sergio Moro, especialista em grampos de presidente da República.
O grampo precisa ser submetido à perícia, para se saber se uma informação é verdadeira.
É o trecho em que o jaburu, depois de dizer que “não, não é daqui”, afirma que tem mais de 10 mil alunos espalhados pelo Brasil. Dez mil alunos!!!!
Primeiro, Moro poderia dizer se é dali mesmo. E depois poderia esclarecer a questão dos estudantes, pedindo recibos ao jaburu.
Nem Matusalém, que viveu 969 anos, teve tantos alunos. Mas Sérgio Moro, que já processou mais de 10 mil tucanos, certamente poderá esclarecer. Sergio Moro esclarece tudo.

O Brasil merece o deboche destes dois

Flagraram policiais militares que recebiam propina do tráfico no Rio. Eles ainda não foram indiciados pela Polícia. Se forem, podem ou não ser denunciados pelo Ministério Público.

Mesmo assim, se apenas na condição de suspeito um deles fosse recebido pelo juiz que poderia depois julgá-lo, nenhum jornalista sairia a perguntar a juristas e professores de ética se aquilo teria sido normal ou moralmente aceitável. Porque a resposta é óbvia.

Mas um sujeito graúdo, denunciado pelo Ministério Público, e por acaso ocupando a presidência da República, provoca celeuma entre avaliadores de conduta quando janta com o juiz que o recebe em casa e já participou de um e pode vir a participar de outro julgamento em que o conviva é o réu.

Será que a atitude de Gilmar Mendes recebendo o jaburu em sua casa pode ser entendida como algo razoável? Há dúvidas sobre isso? É o que os jornais saíram a perguntar aos ‘especialistas’. Não há o que perguntar.

Ora, Gilmar Mendes e o jaburu jantam a todo momento e apenas voltaram a se encontrar agora, um dia depois do ocupante provisório do Planalto ter sido denunciado por corrupção passiva pelo procurador-geral da República.

Jantam e pronto. Está superado o debate sobre a questão ética envolvida nesta e em outras ações e gestos de Gilmar Mendes e do jaburu.

O que o Brasil não consegue debater é a questão política dessa relação entre juiz e réu. É a abordagem política que deveria interessar e nos mobilizar. Porque os juristas já apontaram as ilegalidades e imoralidades das atitudes de Gilmar Mendes. Tanto que já foram apresentados três pedidos de impeachment ao Senado, para que ele seja afastado do Supremo. Até os procuradores da Lava-Jato batem em Mendes.

Não é preciso ouvir professor da USP e da FGV para saber que Mendes e seu amigo jaburu não deveriam fazer o que fazem. O que o Brasil precisa é entender politicamente o deboche dessa dupla.

Eles agem assim porque se convenceram de que continuarão impunes. Mendes sabe que não será derrubado com argumentos legalistas e pedidos de impeachment. E o jaburu está certo do mesmo, de que pode continuar manobrando e permanecer no poder graças a essas manobras.

O único gesto capaz de derrubá-los seria o mais improvável hoje, o grande gesto das ruas, algo semelhante ao que a classe média ressentida fez com Dilma. Os dois, Mendes e Temer, sabem que as ruas não serão acionadas contra eles.

E sem a insatisfação expressa das ruas, ninguém mais cairá. Sem a compreensão de que Mendes e o jaburu nos desafiam politicamente e tripudiam nossa inação, tudo continuará como está (não vamos mais falar de indignação, por favor).

Ah, dirão alguns, mas Mendes não foi eleito. Nem o jaburu.

(A charge é do Aroeira)

Eles jantam e nós pagamos a conta?

Gilmar Mendes e o homem do Jaburu podem anunciar daqui a pouco mais um jantar para debater a melhor forma de reorganizar a democracia no Brasil. Eles podem almoçar, jantar, tomar café da tarde, eles podem quase tudo.

Mas o jornalismo não tem o direito de debochar do leitor e tratar o jantar desses dois com ar de seriedade. Os jornais não podem noticiar e comentar o encontro como se fosse parte da normalidade do ambiente pós-golpe.

A imprensa brasileira desrespeita o leitor que a sustenta ao achar que uma reunião do homem do Jaburu com Gilmar Mendes, na casa de Gilmar Mendes, pode mesmo ser entendida como uma tentativa de aperfeiçoar a democracia.

Não há seriedade nem normalidade num encontro como este. Podem dizer que os dois, se quisessem, conversariam até entre as emas dos jardins do Palácio do Jaburu. Porque, afinal, Mendes preside o TSE e o homem do Jaburu ocupa a presidência da República. Podem mesmo, num país onde tudo passou a ser possível.

Os jantares são apenas o acinte, o agravante. Não há normalidade no encontro festivo de um juiz e de um investigado pelo juiz, que se reúnem e anunciam que irão melhorar o financiamento eleitoral e a representatividade dos partidos, as eleições e a democracia.

A justiça eleitoral não pode ter a pretensão de ser formuladora de leis, normas e soluções para a reorganização partidária e as melhores formas de subsidiar partidos numa democracia. Gilmar Mendes não pode ter a ambição de se apresentar como o pensador das saídas para os dilemas estruturais da política brasileira em jantares com o homem do Jaburu.

E um dia a democracia irá cobrar do jornalismo a conta pela forma com que tratou a relação de um juiz com o sujeito que ele deveria julgar.

 

O homem do Jaburu está confiante

A sensação geral é de que o homem do Jaburu ganhou confiança. Ele parece estar certo, por um conjunto de acontecimentos, de que aplicou o golpe no golpe que os tucanos estavam preparando. Adiós, golpe dentro do golpe.

Ele acredita que será poupado no Tribunal Superior Eleitoral, que as delações da Lava-Jato vão confundir todo mundo, que seus ministros envolvidos com corrupção somente serão denunciados formalmente daqui a muitos meses e que irá emplacar Alexandre de Moraes no Supremo..

Mas o que mais conta a favor do homem do Jaburu é que os golpistas descobriram o que nunca imaginaram. O governo pode continuar fingindo que governa, mesmo com a economia aos pedaços, o desemprego aumentando, o futuro cada vez mais incerto, porque isso não muda nada.

O que o Jaburu descobriu é que não precisa fazer nenhum esforço para evitar reações, porque não há nenhuma reação em articulação. O país entrou em estado de letargia.

A classe média que ajudou no golpe anuncia que voltará às ruas em nome da Lava-Jato, mas também isso não muda nada, só tira as camisetas da Seleção do roupeiro e oferece outra chance de protesto-lazer aos entediados da Avenida Paulista e do Parcão.

O homem do Jaburu que foi ao velório em Chapecó, dia 3 de dezembro, era um sujeito encolhido, inseguro. Hoje não. Suas estranhas mãozinhas agitam-se no ar em movimentos de prepotência, empáfia e soberba.

O homem finalmente se sente no poder, o que pode ser bom pra ele e pode também, por excesso de confiança, ser a sua ruína.

 

As muitas faces do homem do Jaburu

Algumas constatações feitas pelos meus amigos aqui no Facebook (com comentários que me fizeram rir muito), depois que publiquei a foto oficial de Temer (à esquerda). Agora à tarde, o Jaburu divulgou outra versão. A foto da direita corrige a da esquerda, que estaria “errada”.
1. A primeira versão da foto, à esquerda, é uma montagem grosseira. A foto do corpo foi recortada e colada sobre a foto do cenário (dá pra ver na linha branca que contorna o cabelo). A segunda versão deu uma melhorada.
2. O sorriso está estranho. Parece que há um retoque na linha da boca, no canto direito, nas duas fotos.
3. A faixa é desbotada e amarrotada.
4. O escudo está sem os contornos vermelhos na estrela, que fazem parte do desenho oficial (é só verificar na wikipédia).
5. Faltam no escudo as inscrições em azul: República Federativa do Brasil – 15 de Novembro de 1889.
6. Também faltam no escudo o ramo de café à direita e o ramo de fumo à esquerda (ambos verdes). A áreas dos ramos no escudo são um borrão amarelo.
(Dizem no Jaburu que a faixa está assim porque é antiga e teria sido usada por Lula…).
7. Na primeira versão, Temer tem um rosto redondo e cor de rosa. Na segunda, o rosto ficou menos rosado e está mais alongado. A nova foto foi claramente botoqueada. Os cabelos estão mais brancos na segunda versão.
8. Na montagem da esquerda, o nó da gravata ficou sobre o colarinho. Melhoraram o retoque na segunda foto ‘corrigida’ à direita.
9. Ele está com cara de Coringa nas duas fotos.
10. As fotos são, enfim, colagens artificiais feitas e refeitas que representam bem o governo do Jaburu.

Me devolvam o direito de confiar no Supremo

Juristas, teóricos, juízes, promotores, advogados e todos os operadores do Direito que me desculpem, mas a falsa controvérsia sobre o jantar (e outros encontros) de Gilmar Mendes com o homem do Jaburu está muitos degraus acima de uma mera questão jurídica.

Questão jurídica grave, e para especialistas, é a sucessão de Teori Zavascki na relatoria da Lava-Jato. Jantares, viagens e outros encontros entre um juiz e alguém que será por ele julgado são assuntos para todos nós. Esse não é um tema para especialistas.

Os aspectos jurídicos, do que possa ou não ser delituoso, são secundários. O jantar de Gilmar Mendes e Michel Temer, um dia depois do sepultamento do juiz da Lava-Jato, não é nem uma questão para outros entendidos em posturas públicas de tantas outras áreas.

Não é nem uma complexa questão filosófica. Essa é uma questão para qualquer cidadão que ainda veja o Supremo como referência de sabedoria e referência ética.

E não venham com Platão, Aristóteles, Kant e com grandes viagens regressivas às Grécias e às Prússias da Wikipédia.

Para entender o que aconteceu, não precisa ser especialista em altas filosofias e normas de comportamento de homens públicos. Precisa apenas ser alguém que ainda olhava para o Supremo com um mínimo de confiança nos atos de seus ministros.

O jantar de Gilmar Mendes é demolidor dessa confiança. Todos têm o direito de dizer que se sentem ofendidos pela sequência de fatos envolvendo os dois personagens.

Não há como não se sentir menosprezado, subestimado, agredido pela naturalidade dos encontros entre dois homens que deveriam estar acima de suspeitas, um juiz presidente do Tribunal Superior Eleitoral (e membro da mais alta Corte do país) e um governante que dele dependerá para sobreviver politicamente, ou não. Sem considerar que pode virar réu por corrupção (ou seria apenas caixa dois?), depois de dezenas de citações em delações premiadas da Lava-Jato.

Por tudo isso, eu me acho no direito de exigir de volta a confiança que um dia tive no Supremo.

 

A frase pavorosa

Seu Mércio me manda um whatsapp: “A frase do ano já foi dita pelo sábio do Jaburu. Foi um acidente pavoroso, terrível. O homem pavoroso e suas definições terríveis. Ele diz uma frase do ano a cada semana. E ainda nos deve a frase do século”.

E encerra o seu Mércio: “A frase do homem me persegue, é um eco que não abandona minha cabeça. O golpe é cada vez mais pavoroso”.

 

Noivos

Não tenho o direito de contagiar ninguém com meu pessimismo. Mas confesso que não acredito que o homem do Jaburu caia antes de abril. Acho que só cai em maio, no mês das noivas.
O homem do Jaburu é o noivo trágico que a direita vai deixar no altar, em troca de um tucano com melhores dotes.
O homem do Jaburu será tão enganado quanto Eduardo Cunha, a quem a direita prometeu mundos e fundos mas com quem nem chegou a noivar.

E os R$ 4 milhões?

É difícil a vida de arrecadador de dinheiro para os partidos. O ministro Eliseu Padilha conta em entrevista ao Globo deste domingo que o homem do Jaburu de fato pediu dinheiro à Odebrecht para a campanha do PMDB em 2014, como denunciou um delator da empresa, o executivo Claudio Melo Filho.
O encontro com Marcelo Odebrecht aconteceu em maio em jantar no Jaburu. Padilha participou. Diz Padilha que o dinheiro (teriam sido R$ 6 milhões, segundo o delator) foi registrado e declarado legalmente ao TSE.
Só que Padilha não diz onde teriam ido parar outros R$ 4 milhões que o delator da Odebrecht diz ter repassado depois a ele, Padilha, por orientação de Marcelo e por acordo com o homem do Jaburu. Padilha não sabe de nada.
Este é sempre o mistério das doações não contabilizadas. O arrecadador nem sempre acusa o recebimento, porque diz que não recebeu nada. Quem vai provar que recebeu?
É uma situação ruim para quem opera com os doadores e para dirigentes e candidatos do partido, que ficam à espera de um dinheiro que não aparece.
Nesse caso, o delator pode ter se enganado.