MORO, O SUPREMO E AS MILÍCIAS

Todas as análises sobre o comportamento de Sergio Moro indicam que o ex-juiz não responderá às provocações de Lula porque ainda quer ser ministro do Supremo.
Moro não fez referência direta a Lula, no tuíte em que afirma que não responde a criminosos. O ex-juiz tenta se cuidar, porque atritos políticos diretos podem prejudicá-lo.
Mas Lula sabe que, ao atacar Moro, denuncia mais do que suas perseguições como justiceiro de Curitiba.
O que Lula disse ontem é que o governo se submete aos interesses de milicianos.
Se Moro é estrela desse governo, estamos diante de uma situação no mínimo esdrúxula.
Será a primeira vez que um aspirante a uma cadeira no Supremo tem laços com pessoas ligadas às milícias.
O Supremo aceitaria um ex-juiz que deixou a magistratura para ser ministro de Bolsonaro e da extrema direita no poder?
Pior do isso: a mais alta Corte do país pode ceder uma cadeira a alguém que compartilha sua autoridade com figuras acusadas de vínculos com milicianos?
As milícias, que ocupam espaços em todas as áreas, podem se dedicar ao sonho grandioso de se sentirem representadas no Supremo?

MORO E OS MILICIANOS

Dá para ouvir daqui as gargalhadas do Queiroz ao ler o comentário de Sergio Moro no Twitter:
“Aos que me pedem respostas a ofensas, esclareço: não respondo a criminosos, presos ou soltos. Algumas pessoas só merecem ser ignoradas”.
Sergio Moro tem ignorado todos os criminosos ligados às milícias. Moro trabalha para um sujeito que, como disse Lula, governa para milicianos.
A milícia impune ofende o ex-juiz como parte da estrutura de poder dos Bolsonaros. Mas o chefe de Dallagnol não se sente ofendido.

E OS MILICIANOS?

A Lava-Jato tenta limpar a barra e, num momento ruim, anuncia que investiga bancos suspeitos de omissão ou conivência com a lavagem de dinheiro.
O que se conclui: é possível até investigar os bancos, mas poucos se atrevem a tocar nos milicianos do Rio amigos dos Bolsonaros.
Os promotores que tentaram, no caso do Queiroz, se deram mal.

UMA CIDADE SOB CONTROLE DOS FASCISTAS

Uma cidade que se cala, como o Rio se calou, diante do assassinato de uma criança por milícias do próprio Estado que deveria protegê-la, é uma cidade que não pode exigir o respeito de ninguém.
Se não reagir amanhã, se continuar alienado, se permanecer indiferente à matança de pobres, negros e crianças, o carioca estará dizendo que aceita a barbárie de Witzel porque não tem forças para enfrentá-lo.
O carioca elegeu um pastor pilantra como prefeito e um juiz justiceiro como governador e construiu a carreira de uma família orientadora e inspiradora de tudo o que esses dois têm de pior.
O Rio incapaz de reagir ao extermínio ordenado pelo governo não precisa dizer que está indignado com o assassinato de Ágatha. Indignação é a palavra mais gasta e imprestável do Brasil do bolsonarismo.
O carioca deveria reagir, parar a cidade e derrubar pela força das ruas o governador criminoso que o massacra com tiros de fuzil. Mas o carioca dorme quieto, sabendo que amanhã os milicianos de Witzel voltarão a matar os pobres.
Se a polícia não matar um rico na Barra ou em Ipanema, a classe média continuará dormindo sem culpas.
O Rio é hoje a cara do Brasil dividido, quebrado, sem emprego, sem direitos, sem perspectivas, mas bovinamente submetido ao controle absoluto do fascismo bolsonarista.

O porto dos milicianos

A Globo cutucou Bolsonaro no JN com a pauta das máfias do contrabando do Porto de Itaguaí, no Rio.
As máfias derrubaram o comando dos auditores fiscais e o superintendente da Polícia Federal, que vinham reprimindo os contrabandistas.
A bandidagem do contrabando trabalha articulada com os milicianos amigos da família Bolsonaro, que controlam a região.
O que Sergio Moro pensa disso tudo? Moro é muito cuidadoso e não comenta nada que envolva as milícias.

O DEBOCHE DO CHEFE DO QUEIROZ

A realidade transforma tudo da Era Bolsonaro em deboche. Flávio Bolsonaro, blindado por Dias Toffoli como o homem das movimentações financeiras acobertadas por um miliciano, é o autor da proposta de criação de um imposto único sobre… sim, isso mesmo, sobre movimentação financeira.
O investigado sob a acusação de chefiar uma quadrilha que acobertava movimentações financeiras feitas por laranjas é autor de uma tentativa de ressuscitar um imposto que a direita sempre rejeitou. Porque esse imposto contribuía para a localização e denúncia de operações suspeitas.
Flávio Bolsonaro consegue, depois de ser beneficiado pela decisão de Dias Toffoli, produzir o grande escárnio. O senador abraça a ideia de uma entidade ‘liberal’ chamada Brasil 200 e vai à luta.
“O imposto único, não declaratório, é insonegável, de cobrança automática e fácil fiscalização. Coloca o Brasil na era da modernidade”, diz com grande entusiasmo Gabriel Kanner, presidente da entidade.
Eis aí a modernidade. O senador que conseguiu se livrar do Coaf, responsável pela localização da sua dinheirama suspeita, abraça agora uma ideia que pode ajudar a identificar operações como a que ele fazia no Rio sob a cobertura de Queiroz e dos assessores do senador.
Será que o projeto da nova CPMF foi combinado com os milicianos sob investigação no Ministério Público do Rio?

O QUE OS MILICIANOS TÊM QUE OS POLÍTICOS CORRUPTOS NÃO TÊM?

Sergio Moro e Deltan Dallagnol, que sempre emitiram opiniões categóricas sobre decisões que restringem a caçada a corruptos, ficarão quietos diante do canetaço de Dias Toffoli que blinda os milicianos cariocas?
Nenhum dos dois vai dizer que a decisão conspira contra os que combatem o crime organizado?
Este ano, em março, Moro e Dallagnol atacaram o Supremo quando o STF decidiu que processos da Lava-Jato que envolvem caixa dois e demais atos associados a crimes comuns, como corrupção, deveriam tramitar na Justiça Eleitoral.
Moro achava que o Supremo estava jogando no colo da Justiça Eleitoral crimes complexos que esta não poderia avaliar e julgar. Moro subestimou a Justiça Eleitoral e mais uma vez criticou a mais alta Corte do país.
O mesmo fez Dallagnol, sobre o mesmo assunto, quando disse que, ao enviar os processos para a Justiça Eleitoral, os ministros “mandavam mensagem de leniência”. Aqui no sentido de tolerância com o crime. Ele quis dizer e disse que os ministros faziam concessões a corruptos.
O procurador que era chefiado por Moro na Lava-Jato chegou a ter sua declaração investigada pelo Conselho Nacional do Ministério Público, por solicitação de Dias Toffoli.
Não deu em nada. Dallagnol disse que agir com leniência era uma coisa e ser leniente era outra. Ser leniente talvez fosse o que ele fazia em relação a Sergio Moro, que agia como seu chefe na Lava-Jato e ele se resignava diante das ordens do juiz.
Agora, quando a decisão de Toffoli benenficia o filho de Bolsonaro e acaba por beneficiar também Queiroz e os milicianos do Rio, Moro e Dallagnol ficaram quietos.
Toffoli não estaria conspirando contra os que fazem a guerra de combate ao crime organizado? Por que Moro e Dallagnol, sempre tão desafiadores das decisões do Supremo, agora estão calados?
O que os milicianos têm que os outros corruptos não têm?

A AMPLIAÇÃO DAS MILÍCIAS

Está nos cantinhos dos sites. Nenhum jornal da grande imprensa teve o peito de dar em manchete a declaração de Bolsonaro ontem em Santa Maria, quando finalmente explicitou em discurso o objetivo do armamentismo bolsonarista:
“Nossa vida tem valor, mas tem algo com muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. Temos exemplo na América Latina. Não queremos repeti-los. Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós”.
(Vi ontem no Diário de Santa Maria os vídeos da visita de Bolsonaro. Havia uma certa euforia histérica nas ruas da cidade universitária. Tem alguma coisa na água e no ar de Santa Maria.)