O OLHAR DE SERGIO MORO

Sergio Moro não erguia a cabeça e não abria os olhos diante das câmeras de TV, enquanto falava para os repórteres sobre a prisão do homem acusado de ter assassinado Marielle.
Por que Moro não conseguia olhar para quem o questionava sobre a prisão do miliciano no condomínio dos Bolsonaros na Barra da Tijuca?
O ex-juiz está diante de um dilema que pode consumi-lo. É insustentável para um caçador de criminosos a convivência com amigos e parceiros de milicianos.
Homens públicos convivem com todo tipo de corrupto. Mas pela primeira vez passam a circular ao lado de cúmplices de milicias que abrigam assassinos de aluguel.
Por mais que Moro diga que não há nada provado contra o presidente, são muitas as conexões da família com milicianos. As homenagens de Flavio Bolsonaro, o dinheiro da caixinha gerida pelo Queiroz, as assessoras parentes de milicianos, o matador que por coincidência é vizinho do presidente.
Moro sabe que foi parar no lugar errado na hora errada, se é mesmo alguém disposto a perseguir o crime organizado. Nada é mais organizado hoje, nem mesmo o tráfico, do que a estrutura e o funcionamento das milícias no Rio.
Moro tem várias opções. A primeira é continuar, para não desistir da vaga ao Supremo, que é seu grande sonho.
A segunda é abandonar Bolsonaro e aliar-se aos militares, no autogolpe previsto já nas eleições por Hamilton Mourão.
E a terceira é ir embora, abrir uma banca para bacanas e ficar rico em poucos anos lidando com os casos de gente do crime empresarial organizado (ou alguém imagina que Moro irá defender os pobres?).
Sergio Moro caiu numa armadilha, porque desejava estar ao lado dos tucanos. O golpe o empurrou para os braços do bolsonarismo. Convivendo com quem convive, Moro pode, a qualquer momento, ser testemunha de algo grave.
Nas entrevistas, o ex-juiz não olhava para baixo, porque nem abria os olhos. Moro olhava para o fosso que pode tragá-lo junto com os Bolsonaros.

CASUALIDADES

O Rio de Janeiro tem mais de 2 milhões de domicílios, incluindo casas, apartamentos, favelas, cortiços, tudo onde alguém possa morar. Está no Censo do IBGE.
O Rio de Janeiro tem 6,7 milhões de habitantes. E o cara preso acusado de ter matado Marielle mora no mesmo condomínio do presidente da República.
Falta procurar agora, como tem dito desde o início da manhã Mônica Benício, a viúva de Marielle, quem matou matar. E por que Marielle foi morta por milicianos, se nunca teve enfrentamentos com milicianos?
O deputado Marcelo Freixo, com quem Marielle trabalhou, também pergunta: ela foi morta a mando de quem?
O provável é que o mandante more ou tenha morado num desses 2 milhões de domicílios.
É preciso procurar. É muito domicílio. Mas essa agora é a missão da polícia, do Ministério Público e da Justiça.
É preciso achar o mandante do assassinato de Marielle. E como diz Mônica, tem que ser já.

AS MILÍCIAS E A GLOBO

Todos os dias o Globo traz alguma reportagem sobre as milícias e os Bolsonaros. Hoje, não achei nada, até porque não há como manter o assunto em pauta todo tempo.
O Brasil já teve e tem políticos ligados descaradamente a grileiros, desmatadores, assassinos de índios, banqueiros, sonegadores, juízes e todo tipo de mafioso.
Mas o país não sabia (apenas desconfiava) que tinha políticos envolvidos com milicianos e suas famílias. É o que o Globo tenta dizer todos os dias.
E vai continuar dizendo, porque o grande duelo do bolsonarismo é o do pai e dos manos com a Globo.
O enfrentamento mortal dos Bolsonaros não é com as esquerdas, a igreja Católica, o papa, os sem-terra, os sem-teto, os partidos.
Não é com os movimentos sociais, os estudantes, os professores. Não é, por enquanto, com nenhum deles, até porque a capacidade de reação de todos esses grupos está fragilizada.
Por enquanto, o duelo explícito, descarado, a guerra aberta para matar ou morrer, desde o começo do governo, é com a Globo. Os Bolsonaros atiram e a Globo responde.
Por isso o Globo não pode deixar de nos informar, todos dias, alguma coisa sobre a relação das milícias com os Bolsonaros.
Hoje, senti falta. Não achei nada sobre as milícias do Rio das Pedras. Mas posso ter sido distraído.

Texto do Globo, com base em reportagem da revista IstoÉ:

O senador e ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) entregou suas contas de campanha para o Senado à irmã de dois criminosos – os irmãos Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, presos, em agosto do ano passado, na operação Quarto Elemento, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Ministério Público do Rio de Janeiro. Valdenice de Oliveira Meliga, que era lotada no gabinete de Flávio na Alerj , assinou cheques de gastos de campanha em nome dele. É o que revela uma reportagem publicada pela revista “Isto É”. O parlamentar já havia empregado em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) a mãe e a mulher do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, chefe do grupo de milicianos conhecido como Escritório do Crime.

A revista teve acesso a dois cheques assinados por Valdenice, em nome da campanha de Flávio: um de R$ 3,5 mil e outro de R$ 5 mil.

Os irmãos participaram de atos de campanha do senador, antes da prisão. Em foto publicada no perfil de Flávio no Instagram, em outubro de 2017, o então deputado estadual aparece ao lado dos irmãos Alan, Valdenice e Alex, e do pai, Jair Bolsonaro. “Parabéns Alan e Alex pelo aniversário. Essa família é nota mil!!!”, dizia a mensagem

Vale ressaltar que outra funcionária do gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj exerceu a função de primeira-tesoureira do PSL no Rio. Alessandra Cristina Ferreira de Oliveira fez a contabilidade de 42 campanhas eleitorais do partido no estado, por meio de sua empresa, a Alê Soluções e Eventos Ltda. O curioso é que o cheque de R$ 5 mil era destinado à empresa de Alessandra, que recebia de volta parte desse dinheiro, como pagamento pelos serviços de contabilidade prestados por sua empresa.

Segundo a reportagem da revista, Alessandra recebeu R$ 55 mil das campanhas do PSL, cobrando valor entre R$ 750 e R$ 5 mil de cada candidato.

A Alê Soluções foi constituída em maio de 2007. De acordo com a Receita Federal, a empresa fica na Estrada dos Bandeirantes 11.216, em Vargem Pequena, zona oeste do Rio de Janeiro. Mas o endereço registrado no Tribunal Regional Eleitoral é Avenida das Américas número 18.000 sala 220 D, no Recreio dos Bandeirantes, o mesmo endereço na sede do PSL.

Alessandra Oliveira disse à Isto É que não vê conflito ético no fato de ser ao mesmo tempo tesoureira do partido, funcionária de Flávio Bolsonaro e ter contratado sua empresa para fazer a contabilidade das campanhas.

Segundo o jornal O Globo, Flávio Bolsonaro diz que a reportagem da revista faz “uma ilação irresponsável” ao tentar vinculá-lo com candidaturas irregulares e milicianos em “mais uma tentativa de denegrir a imagem do senador”.

“Val Meliga é tesoureira geral do PSL. Tinha como determinação legal a obrigação de assinar cheques do partido em conjunto e jamais em nome do atual senador.Os supostos irmãos milicianos apontados pela revista são policiais militares. Em relação aos serviços de prestação de contas eleitorais, não houve qualquer direcionamento do PSL-RJ relacionado à escolha dos profissionais de assessoria contábil e jurídica. Todas as prestações de contas foram aprovadas, ratificando a legalidade e lisura durante o processo eleitoral”.

QUEM É CÚMPLICE DOS MILICIANOS?

Teremos muita coisa esclarecida quando formos muito além do que já se sabe das conexões dos milicianos com a política da extrema direita no Rio.
Por que determinados políticos atacam genericamente (como retórica) tudo que é bandido, mas nunca enfrentaram um bandido, nunca se referiram a traficantes e nunca criticaram os milicianos?
Por que os políticos líderes da extrema direita carioca não atacam os milicianos?
Talvez nem seja preciso responder.