A imagem do Moinhos e do Parcão

Pessoas viajadas podem dizer se existe no mundo algum bairro em que o glamour natural do lugar – as ruas, suas galerias de arte e lojas de vanguarda, parques, cafés, brechós, essas coisas que podem estar num Soho, em Nova York, ou na Vila Madalena, em São Paulo –, tem ao mesmo tempo alguma conexão com atitudes e sentimentos reacionários.

Espaços urbanos interessantes, numa definição genérica, são invariavelmente arejados e progressistas, mas não necessariamente. O Moinhos de Vento, em Porto Alegre, sempre foi um lugar interessante. Mesmo que não tenha tudo isso.

É um reduto clássico da alta classe média, de sobrenomes tradicionais, de algum charme percebível na paisagem e na arquitetura. Mas não se pode dizer que seja um bairro progressista ou inovador.

Talvez exatamente por isso, por ser um lugar de gente que combina poder aquisitivo com boa formação, conhecimento, estética, rodagem internacional e outras virtudes, o Moinhos sempre tenha sido visto como um lugar pelo menos interessante.

Pois esse pessoal do velho Moinhos, por mais conservador que possa ser, não tem muito a ver com o que vem se passando no bairro em alguns fins de semana.

Sei que há um desconforto com a tentativa de transformar o Moinhos no reduto do reacionarismo gaúcho, da defesa do armamento, do ajuntamento que reúne de golpistas a racistas e homofóbicos, sob os mais variados pretextos explícitos ou encobertos. O principal deles é o antipetismo.

O Moinhos talvez acabe aceitando a festa de Saint Patrick, mas não merece isso.  O bairro, o Parcão e seu entorno não podem ser confundidos com os bolsonaristas. Se parte dos moradores atraiu esse pessoal para seu reduto, outra parte, talvez a maioria, não concorda com o esforço de alguns de transformar o Parcão na praça em que a extrema direita se pinta para a guerra.

Eu, por algumas vezes, escrevi aqui, ao falar das manifestações da direita extremada no bairro, que essa é a turma do Parcão. Alguns discordaram, me alertaram, pediram que eu reavaliasse a definição.

É o que faço agora. O Moinhos e o Parcão poderiam ser dispensados da presença incômoda dos que só aparecem eventualmente com a intenção de marcá-los como espaço do que há de mais retrógrado na política e na convivência humana.

Não tenho procuração para defender o bairro, até porque sou morador do sul profundo. Escrevo apenas para dizer que não tratarei mais o Parcão como o lugar da direita bolsonarista. Só espero que essa gente que invadiu o Moinhos não transfira seus espetáculos para a Aberta dos Morros.

A aristocracia bolsonarista

Depois da festa de hoje com o Bolsonarinho, em defesa das armas, o Moinhos de Vento nunca mais será o mesmo. Deve ser triste para uma certa direita clássica, a direita que tem ‘berço’, o apoio de certa nova direita aos Bolsonaros.
O ato pelo armamento nem teve o Bolsonaro pai. O homem mandou o filho para representá-lo.
A direita já se contenta com o Bolsonaro júnior (o mundo reacionário produziu fartura de juniores).
E tudo aconteceu no reduto em que o conservadorismo decadente ainda tenta desfilar seu charme nos cafés, nos antiquários, nos brechós de ricos e nas festas do São Patrício gaúcho, enquanto põe abaixo os casarões do bairro.
O golpe achinelou até a nossa pretensa aristocracia.

Os casarões e os batedores de panela

Os batedores de panela do Parcão estão diante de um dilema que o capitalismo à la Porto Alegre impõe também às elites que gostam de sol, árvores e pátios.
A Goldsztein finalmente venceu na Justiça e já iniciou a demolição dos seis casarões da Rua Luciana de Abreu. Está na capa da Zero Hora online.
Vão acabar com parte da memória e da alma do Moinhos. Mas os batedores de panela incomodados, inclusive os vizinhos do futuro edifício que vai lhes tirar a luz e o ar, devem se conformar com o vale tudo do empreendedorismo gaudério.
Batedores de panela sabem bem quando devem ficar quietos.
Negócios bem conduzidos não escolhem o que derrubar. E sabe-se agora, pela decisão da Justiça, que é tudo legal.
Há ocupações e ocupações. A da Vila Tronco existe há meio século e há pouco foi considerada ilegal, porque atrapalha o trânsito…

O que o Trum acharia disso tudo?