A gincana para pegar Lula

A Folha conta hoje como a força-tarefa do Ministério Público da Lava-Jato e o juiz Sergio Moro põem em polvorosa os procuradores que atuam na segunda instância, junto ao Tribunal Regional Federal de Porto Alegre.
É uma correria para que sejam cumpridos os prazos e Lula seja julgado logo pelo TRF da 4ª Região. A pressão de Curitiba é extenuante.
É a mesma correria que acontece há 10 anos para que sejam cumpridos os prazos e sejam julgados os tucanos envolvidos na máfia do metrô paulista. Correm também para pegar a quadrilha paulista da merenda tucana. É uma correria que só vendo.
É a mesma correria que durante duas décadas agilizou o processo do mensalão tucano de Minas. E que toca adiante com rapidez recorde o caso (engavetado mais uma vez pela Polícia Federal) da famosa lista da propina de Furnas. Mas o Ministério Público vai dizer que não tem nada a ver com a PF.
Mas a correria inédita mesmo é esta para saber quem pega Lula primeiro. Parece mais uma gincana do que um processo. Nunca antes o Judiciário brasileiro foi tão ágil. Todo mundo corre atrás de Lula e conta vantagem ao dizer publicamente que corre.
Nunca antes procuradores e juízes foram tão protagonistas e exibicionistas. Lula é o coelho da Justiça brasileira.

Vão prender Lula?

Sou acordado pelo WhatsApp. Um amigo do Alegrete me garante que vão prender Lula por causa do tríplex.
Ele me informa. O Ministério Público pediu ao juiz Sergio Moro que mande Lula pra cadeia e ainda cobre uma multa de R$ 87 milhões.
Está aí a notícia para quem achava que a Lava-Jato estava calma demais. Diz ele que a manchete foi dada como furo, tarde da noite de sexta, pelo William Waack, no Jornal da Globo.
O amigo me disse que o homem salivava. Podem prender Lula antes do Aécio? As notícias dizem que pode demorar um pouco.
Vou tomar meu mate, hoje puro, sem carqueja ou cidreira, pra ver se entendo o que se passa.

O alvo

O próximo duelo será Dilma-Moro. O ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato no Supremo, já enviou ao juiz de Curitiba as delações do casal João Santana e Mônica Moura.

Enquanto isso, Aécio e Serra, com o tal foro privilegiado, estão na moita. E o caso de Fernando Henrique Cardoso, também delatado por caixa dois por Emílio Odebrecht?

Este não foi para Curitiba. Foi para a Justiça Federal de São Paulo. Sergio Moro não terá o trabalho de analisar a denúncia contra FH, que muitos dizem que já prescreveu.

Por que vai para São Paulo e não para Curitiba? Por que é Odebrecht, mas não é Lava-Jato? Não sei, não entendo e acho que nunca entenderei.

Talvez se alguém fizer um powerpoint. Aguardo manifestação dos meus amigos juristas.

E agora?

Algumas conclusões e perguntas sobre o depoimento de Lula ontem em Curitiba.

– Sergio Moro adotou uma postura de magistrado (mesmo que se escondesse das câmeras) e foi sempre respeitoso com Lula.

– Merval Pereira poderia se sair melhor que o procurador fazedor de perguntas.

– Se o depoimento de Lula, por causa de um tríplex de pobre, durou cinco horas, imagine o depoimento do Serra, que tem R$ 23 milhões na Suíça.

– Depois do pito de Lula, os procuradores (ou não são eles?) vão continuar vazando informações para o Diogo Mainardi, o sujeito que está em mutação e a qualquer momento pode virar um homem-mosca em Veneza?

– A turma da Lava-Jato e a imprensa embarcada vão preparar o troco para Lula.

– Quando sairá o próximo vídeo de Sergio Moro?

– Com os comentários depreciativos do Lula sobre o apartamento, fiquei com pena do tríplex.

– Agora, chega de Lula. Vamos ver se a Lava-Jato pega mesmo o Aécio, o Serra e outros tucanos que andam muito quietos (pena que não seja em Curitiba).

– Está na hora da direita preparar Luciano Huck para 2018, porque Lula se fingiu de lesionado e arrasou.

– Depois do acontecido ontem em Curitiba, a Lava-Jato será capaz de produzir algo mais em powerpoint?

– De quem afinal é o apartamento de Paris?

Imóveis

Como não tivemos transmissão direta, foi preciso imaginar as cenas de hoje à tarde na audiência em Curitiba. Em uma cena que eu imaginei, o juiz Sergio Moro tentava engrossar a voz e perguntava a Lula:
– O senhor roubou tudo o que dizem que roubou pra ter este tríplex no Guarujá?
E Lula respondia:
– Vocês não procuraram, mas eu também tenho um apartamento na Avenue Foch, em Paris, que eu coloquei no nome do Fernando Henrique Cardoso.

A estranha aparição do grão-duque

Lula seria ouvido por Sergio Moro na quarta-feira, dia 3. O depoimento foi adiado porque era preciso reforçar a segurança em Curitiba.

Estava programado há muito tempo, mas de repente a Polícia Federal teria se dado conta de que a segurança estava insegura…

O depoimento foi então remarcado para o dia 10. E aí, cinco dias antes, aparece de repente, saído do nada, Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, e se oferece para dizer a Sergio Moro que Lula sabia de tudo sobre as propinas.

E as provas? Duque não tem provas. Mas tem dois anos e dois meses de prisão preventiva na masmorra de Curitiba e a expectativa de uma pena que o condenaria a morrer até cinco vezes na cadeia. Se delatar Lula, poderá sobreviver.

Duque não precisa delatar Vaccari, Palocci, Mantega, João Santana, José Dirceu e as almas dos petistas mortos. Precisa delatar Lula. Sem provas. Apenas sob a proteção da nova teoria das convicções.

E ninguém havia entendido direito por que o depoimento de Lula foi transferido do dia 3 para o dia 10. Havia um grão-duque na manga.