DISTÂNCIAS

Imaginem o climão na viagem de volta. São 9 mil quilômetros de Davos a Brasília. Imaginem Sergio Moro ao lado de Bolsonaro, carregando uma pasta gorda cheia de ideias, planos e leis rigorosas para o combate ao crime organizado.

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Agora imaginem o que pode estar acontecendo nesse momento em Curitiba. São 740 quilômetros entre Porto Alegre e Curitiba, mas eu asseguro: eu ouço daqui as gargalhadas de Lula.

Cena pra torcida

Sergio Moro vai enviar ao Congresso um projeto com proposta de criminalização do caixa dois eleitoral.

A lei não irá anistiar fatos passados e o crime de caixa dois poderá dar mais de cinco anos de cadeia.

Seria uma lei que poderia pegar inclusive Onyx Lorenzoni, que admite ter pego dinheiro por fora (e tem outra denúncia contra ele, essa não admitida).

Ninguém se esqueceu da gafe cometida pelo ex-juiz antes mesmo de assumir, quando disse que o deputado e agora ministro pediu desculpas e está tudo bem. E quem não pediu desculpas?

O que vai acontecer com a proposta do ex-juiz? Nada. Alguém imagina que a turma de Onyx, cheia de caixa dois, vai deixar passar esse tipo de projeto no Congresso?

Moro está jogando para a torcida e sugerindo que peçam mais desculpas.

 

O RAZOÁVEL

O juiz Marcus Vinicius Reis Bastos nos ofereceu elementos para uma reflexão importante, no momento em que determinou a soltura do empresário Joesley Batista.
Disse o titular da 12ª Vara Federal de Brasília que a prisão temporária do delator do jaburu, depois convertida em preventiva, é “flagrantemente aviltante ao princípio da razoável duração do processo”.
O juiz disse o que muitos juristas sempre disseram em relação às intermináveis prisões preventivas determinadas por seu colega Sergio Moro. O comandante da Lava-Jato em Curitiba manteve gente encarcerada por meses.
Foi uma tática denunciada com frequência por nomes respeitados do Direito. Moro prendia indefinidamente para obter delações.
O juiz sempre considerou a seu modo o que seria o princípio da razoabilidade de que fala Bastos. Mas quem iria questioná-lo, além dos valentes de sempre? Quem se arriscou foi acusado de conspirar contra seu poder absoluto de caçar corruptos.
Passados esses tempos de exceção, o poder de Sergio Moro talvez seja um dia finalmente percebido como uma aberração do Judiciário que tudo pode contra alguns e que quase nada faz contra outros.
O razoável para Sergio Moro não é o razoável para Marcus Bastos, de quem nunca ouvi falar. O Brasil pode estar precisando de mais Bastos e de menos Moros.

A gincana para pegar Lula

A Folha conta hoje como a força-tarefa do Ministério Público da Lava-Jato e o juiz Sergio Moro põem em polvorosa os procuradores que atuam na segunda instância, junto ao Tribunal Regional Federal de Porto Alegre.
É uma correria para que sejam cumpridos os prazos e Lula seja julgado logo pelo TRF da 4ª Região. A pressão de Curitiba é extenuante.
É a mesma correria que acontece há 10 anos para que sejam cumpridos os prazos e sejam julgados os tucanos envolvidos na máfia do metrô paulista. Correm também para pegar a quadrilha paulista da merenda tucana. É uma correria que só vendo.
É a mesma correria que durante duas décadas agilizou o processo do mensalão tucano de Minas. E que toca adiante com rapidez recorde o caso (engavetado mais uma vez pela Polícia Federal) da famosa lista da propina de Furnas. Mas o Ministério Público vai dizer que não tem nada a ver com a PF.
Mas a correria inédita mesmo é esta para saber quem pega Lula primeiro. Parece mais uma gincana do que um processo. Nunca antes o Judiciário brasileiro foi tão ágil. Todo mundo corre atrás de Lula e conta vantagem ao dizer publicamente que corre.
Nunca antes procuradores e juízes foram tão protagonistas e exibicionistas. Lula é o coelho da Justiça brasileira.

Vão prender Lula?

Sou acordado pelo WhatsApp. Um amigo do Alegrete me garante que vão prender Lula por causa do tríplex.
Ele me informa. O Ministério Público pediu ao juiz Sergio Moro que mande Lula pra cadeia e ainda cobre uma multa de R$ 87 milhões.
Está aí a notícia para quem achava que a Lava-Jato estava calma demais. Diz ele que a manchete foi dada como furo, tarde da noite de sexta, pelo William Waack, no Jornal da Globo.
O amigo me disse que o homem salivava. Podem prender Lula antes do Aécio? As notícias dizem que pode demorar um pouco.
Vou tomar meu mate, hoje puro, sem carqueja ou cidreira, pra ver se entendo o que se passa.

O alvo

O próximo duelo será Dilma-Moro. O ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato no Supremo, já enviou ao juiz de Curitiba as delações do casal João Santana e Mônica Moura.

Enquanto isso, Aécio e Serra, com o tal foro privilegiado, estão na moita. E o caso de Fernando Henrique Cardoso, também delatado por caixa dois por Emílio Odebrecht?

Este não foi para Curitiba. Foi para a Justiça Federal de São Paulo. Sergio Moro não terá o trabalho de analisar a denúncia contra FH, que muitos dizem que já prescreveu.

Por que vai para São Paulo e não para Curitiba? Por que é Odebrecht, mas não é Lava-Jato? Não sei, não entendo e acho que nunca entenderei.

Talvez se alguém fizer um powerpoint. Aguardo manifestação dos meus amigos juristas.

E agora?

Algumas conclusões e perguntas sobre o depoimento de Lula ontem em Curitiba.

– Sergio Moro adotou uma postura de magistrado (mesmo que se escondesse das câmeras) e foi sempre respeitoso com Lula.

– Merval Pereira poderia se sair melhor que o procurador fazedor de perguntas.

– Se o depoimento de Lula, por causa de um tríplex de pobre, durou cinco horas, imagine o depoimento do Serra, que tem R$ 23 milhões na Suíça.

– Depois do pito de Lula, os procuradores (ou não são eles?) vão continuar vazando informações para o Diogo Mainardi, o sujeito que está em mutação e a qualquer momento pode virar um homem-mosca em Veneza?

– A turma da Lava-Jato e a imprensa embarcada vão preparar o troco para Lula.

– Quando sairá o próximo vídeo de Sergio Moro?

– Com os comentários depreciativos do Lula sobre o apartamento, fiquei com pena do tríplex.

– Agora, chega de Lula. Vamos ver se a Lava-Jato pega mesmo o Aécio, o Serra e outros tucanos que andam muito quietos (pena que não seja em Curitiba).

– Está na hora da direita preparar Luciano Huck para 2018, porque Lula se fingiu de lesionado e arrasou.

– Depois do acontecido ontem em Curitiba, a Lava-Jato será capaz de produzir algo mais em powerpoint?

– De quem afinal é o apartamento de Paris?

Imóveis

Como não tivemos transmissão direta, foi preciso imaginar as cenas de hoje à tarde na audiência em Curitiba. Em uma cena que eu imaginei, o juiz Sergio Moro tentava engrossar a voz e perguntava a Lula:
– O senhor roubou tudo o que dizem que roubou pra ter este tríplex no Guarujá?
E Lula respondia:
– Vocês não procuraram, mas eu também tenho um apartamento na Avenue Foch, em Paris, que eu coloquei no nome do Fernando Henrique Cardoso.

A estranha aparição do grão-duque

Lula seria ouvido por Sergio Moro na quarta-feira, dia 3. O depoimento foi adiado porque era preciso reforçar a segurança em Curitiba.

Estava programado há muito tempo, mas de repente a Polícia Federal teria se dado conta de que a segurança estava insegura…

O depoimento foi então remarcado para o dia 10. E aí, cinco dias antes, aparece de repente, saído do nada, Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, e se oferece para dizer a Sergio Moro que Lula sabia de tudo sobre as propinas.

E as provas? Duque não tem provas. Mas tem dois anos e dois meses de prisão preventiva na masmorra de Curitiba e a expectativa de uma pena que o condenaria a morrer até cinco vezes na cadeia. Se delatar Lula, poderá sobreviver.

Duque não precisa delatar Vaccari, Palocci, Mantega, João Santana, José Dirceu e as almas dos petistas mortos. Precisa delatar Lula. Sem provas. Apenas sob a proteção da nova teoria das convicções.

E ninguém havia entendido direito por que o depoimento de Lula foi transferido do dia 3 para o dia 10. Havia um grão-duque na manga.