A MORAL DA GLOBO

O repórter Mauro Naves foi suspenso pela Globo porque teria passado dos limites nas regras, muitas vezes nem escritas, da relação de um jornalista com suas fontes.

Naves teria passado “contatos” (as notícias não esclarecem que contatos são esses) do pai de Neymar para os advogados de Najila Trindade, a moça que acusa o jogador de estupro.

Diz a nota da Globo: “Mauro Naves é um profissional excelente, com grandes contribuições ao Jornalismo Esportivo da Globo. Mas há evidências de que as atitudes dele neste caso contrariaram a expectativa da empresa sobre a conduta de seus
jornalistas”.

Expectativas? Se a Globo e as grandes corporações da imprensa brasileira tornarem tal decisão uma regra, sobrarão poucos. A imprensa vive dessa troca.

O chamado jornalismo de fontes, que ouve declarações nos cantinhos e em elevadores, manda recados, obtém furos e faz muitas vezes apenas o que a fonte quer, é quase regra na política. Mais do que no futebol, muito mais.

A grande imprensa vive disso. Muita gente fez fama com essa tática que alguns podem achar promíscua. Sem isso, não existiria jornalismo, nem Watergate, nem Lava-Jato.

A Lava-Jato é um resultado clássico dessa relação quase sem limites de jornalistas com os condutores de uma caçada, no Ministério Público de Deltan Dallagnol e no Judiciário de Sergio Moro, ou nada se saberia de delações e vazamentos.

O furo que Sergio Moro oferece de bandeja à Globo, quando grampeia Lula e Dilma e oferece a gravação da conversa à Globo, é o maior troféu dessa promiscuidade nos últimos anos.

Aquilo foi um delito do juiz e só existiu porque alguém da Globo topou a troca. A Globo ajudava a derrubar Dilma e a comprometer Lula, e o juiz ganhava fama.

A Globo tenta agora punir Mauro Naves porque o caso tem repercussão por um aspecto, o da moralidade dos costumes, que pune também a moça enquanto tenta punir o jogador.

A Globo nunca temeu se misturar a vazadores de informações sobre corrupção do PT e apenas do PT. Mas teme se envolver com vazamentos envolvendo estupro. Talvez porque Neymar precise de uma “proteção ética” que Dilma e Lula nunca tiveram.

É uma atitude muito ruim. É falsa. É cínica.