Estamos juntos

Meu amigo Juremir Machado da Silva, conta comigo e vamos enfrentar juntos os que tentam nos meter medo. Que os jornalistas que estiverem sesteando acordem logo e se aliem aos que resistem contra o fascismo.
Jornalista que se considera ‘de opinião’ tem que assumir posição clara em momentos graves, ou abandonar tudo e vender moranguinho.
Este é o texto que Juremir publicou no Facebook e que teve grande repercussão.

Eu tenho medo

JUREMIR MACHADO DA SILVA

Ando de um lado para outro ao amanhecer olhando a cidade pela janela. Sim, confesso, eu tenho medo de Jair Bolsonaro, do bolsonarismo e de bolsonaristas. Tenho medo do que podem representar: preconceito, raiva, simplificação e culto à violência. Tenho medo de quem anda armado e de quem prega a liberação das armas como solução para questões sociais profundas ligadas à desigualdade. Tenho medo de quem vê comunismo em políticas sociais praticadas em qualquer democracia. Tenho medo de quem diz que não amaria um filho gay e depois relativiza suas declarações como piadas ou falas infelizes.
Contemplo o cinza e a rua deserta e sinto o corpo moído. Deixo meus temores aflorarem. Não há mais como segurá-los. Tenho medo de quem diz ter fraquejado ao conceber uma filha. Tenho medo de generais que veem nos índios a origem da indolência, em negros a fonte da malandragem e classificam a beleza do neto como branqueamento da raça. Tenho medo dessa fúria conservadora e desse salto para o passado. Tenho medo de quem chama colega de vagabunda e pesa negro em arroubas. Eu tenho medo de adeptos fanáticos que espalham toneladas de notícias falsas em redes sociais em defesa da verdade e dos bons costumes.
Tenho medo de militares que defendem autogolpe e constituição sem constituintes eleitos. Tenho medo de candidato que fala em aumentar o número de ministros do STF para aparelhar a suprema corte como foi feito na Venezuela. Tenho muito medo de quem diz querer a paz, mas tem seguidores que espalham a violência pelo país, agridem e até matam como na Bahia. Tenho medo de quem vê símbolo budista em suástica talhada com canivete em barriga da mulher. Tenho medo de quem sustenta que o nazismo era de esquerda, pois quem faz isso se coloca à direita de Hitler. Eu tenho medo do bolsonarismo por saber que se trata de uma ideologia de extrema-direita capaz de causar asco, pelo machismo e pela homofobia, até em Marine Le Pen, a odiosa líder da racista e xenófoba extrema-direita francesa. Eu tenho medo de quem prega a censura e até a prisão de uma estrela internacional como Roger Waters por ele ter ousado criticar Messias. Eu tenho muito medo.
Eu tenho medo do que Bolsonaro, se eleito, fará com as terras indígenas, com a educação, com a cultura, com a economia, a Previdência e a legislação trabalhista já combalida. Tenho medo de que voltemos às aulas de Moral e Cívica. Eu tenho vergonha da direita brasileira, do MDB ao PSDB, que se aliou a Bolsonaro por ideologia ou por busca de votos no segundo turno. Eu tenho vergonha desses velhos caciques que passaram a vida contando para os netos e eleitores o quanto foram valentes na luta consentida contra a ditadura e agora, no ocaso, apoiam o candidato que louva o regime militar e tem como ídolo o torturador. Eu tenho medo de generais que defendem a eliminação de livros que contrariam a sua visão de mundo. Eu tenho medo da censura, da truculência e do moralismo hipócrita. Eu tenho medo de quem diz que ditadura matou pouco ou que deveria ter matado em vez de torturar.
Eu tenho medo dos tantos colunistas da velha mídia que têm ajudado a empurrar o Brasil para os braços de Bolsonaro. Se o capitão ganhar, poderá dedicar o seu triunfo às redes sociais e a um exército de jornalistas encastelados nos jornalões, no rádio e na televisão. Eu tenho medo de ser abatido, tenho medo da caça às bruxas, tenho medo do macarthismo, tenho mais medo que sonhos, mais temores que esperanças, mais pavores que ilusões, mais inquietações do que indicativos de melhoria. Eu sinto cada vez mais pavor do cinismo dos políticos, esses seres capazes de tudo, de qualquer aliança, por cálculo eleitoral.
Eu me sinto perplexo ao ver os velhos emedebistas Pedro Simon e Ibsen Pinheiro darem aval ao apoio a Bolsonaro. Eu me vejo estupefato com a adesão do jovem tucano gaúcho Eduardo Leite ao candidato do PSL. Eu sinto medo dessa falta de parâmetro, de limite, de fronteira. Eu sinto muito medo desta época pautada por uma única lei: vale tudo.

 

Pilantra

Ouvi o áudio do “editorial” que um sujeito leu numa rádio de Porto Alegre sobre a violência e os assassinatos na cidade.
Medalha de ouro de idiotia para o homem cujo cacoete é falar como se fosse uma mistura de adolescente com malandro. O tal radialista deseja o massacre de colegas de profissão e seus familiares.
É a gritaria de sempre de que a criminalidade se multiplica também porque há defensores de bandidos. Estes ‘defensores’, diz o editorial, devem ser os próximos escolhidos pela bandidagem.
E os ignorantes, segundo ele, são os outros.
Trata-se de um grande oportunista de dramas pessoais e do trauma coletivo com a insegurança de toda a cidade.
O sujeito do tudo-pela-audiência ainda simulou, à la Janaína Paschoal, no seu estúdio mundo cão, que iria ter um troço no ar.
Pilantra. Vou repetir: pilantra.

O mesmo veneno

O senador Aécio Neves experimentou na praia, no Rio, do mesmo veneno que a direita destila diariamente contra quem considera do PT, do governo golpeado ou das esquerdas, nas ruas, em restaurantes, em elevadores.
A mulher que filma e ataca o tucano não deve servir de modelo para ninguém nesse tempo de cusparadas e agressividades multiplicadas – muito menos o nível de caimento da cintura da bermuda do senador.