Perigos

Equipamentos que tenho em casa. Mas não tente ter nada igual sem habilitação.
1. Enceradeira com cano serrado.
2. Batedeira com silenciador.
3. Ventilador com pás que lançam granadas.
4. Um aspirador apelidado de Sergio Moro porque tem grunhido fino e escolhe o que aspirar (o aspirador da minha amiga Cris Costi se chama Aécio).
5. Um espremedor de laranja da marca Queiroz que pode espremer quatro Bolsonaros ao mesmo tempo.
6. Um chuveiro Lorenzetti fora de linha (o fabricante não faz mais a resistência), que provoca choques na torneira, mesmo desligado.
Não tenho liquidificador, destruído num duelo com o microondas de um vizinho bolsonarista.

A NOVA TATUAGEM

A porta de Sergio Moro está sempre entreaberta. É pela fresta que o ex-juiz vê o rosto sorridente de Onyx. O gaúcho espia, meio tímido, e pergunta se pode entrar. Recebe autorização e senta-se diante do ex-juiz.
O ex-juiz antecipa-se:
– Posso adivinhar? É mais um pedido de desculpa? Agora pelo rolo das notas de R$ 317 mil do seu amigo de Porto Alegre?
– Sim, e mais uma tatuagem.
– O pedido de desculpa já está aceito.
– Mas quero mostrar a tatuagem.
E Onyx ergue a calça na altura da canela da perna direita. Mostra desenhos de ondas e começa a explicar:
– É mais uma tatuagem bíblica. É o Mar Vermelho. Começa aqui, vem subindo, subindo…
E Onyx vai erguendo a calça até onde dá e leva a mão até a virilha. O ex-juiz intervém:
– Não precisa mostrar todo o mar, só o começo.
Onyx retoma:
– É minha nova prestação de contas com Deus, de acordo com a linha do governo. Força, perseverança, milagre, alinhamento com a direita do povo de Moisés, tudo isso daí, como diz o chefe. O Mar Vermelho é minha única concessão ao vermelho. Pela força bíblica.
O ex-juiz só escuta. Onyx relembra que tem outras tatuagens, por outros deslizes cometidos, mas todos com contas acertadas com aquele que está acima de todos.
O ex-juiz levanta uma dúvida:
– Se você usou toda a perna direita para fazer o Mar Vermelho e já tem tatuagens nos braços, sobram o tronco e a outra perna. Está quase tudo ocupado? E se você precisar mais adiante?
– O tronco já está tomado – diz Onyx.
– Todo?
– Sim. O peito tem tatuagens pelos deslizes que cometi na adolescência. E as costas por causa de probleminhas no meu tempo de PFL.
– E a perna esquerda?
Onyx respira fundo:
– A perna esquerda, a mão esquerda, o braço esquerdo eu não uso pra nada.
O ex-juiz o interrompe:
– Não radicalize porque você pode precisar.
– Não uso nada que seja de esquerda. Eu tenho o lado direito do pescoço – responde Onyx. – Um bom pescoço. É onde os jogadores de futebol fazem tatuagens lindas.
E mostra o pescoço grosso, roliço. O ex-juiz sorri um sorriso de Mona Lisa e diz:
– É bom trabalhar com gente religiosa. Mas cuide bem do seu pescoço.
Onyx baixa a perna da calça até o tornozelo, levanta-se e despede-se com entusiasmo.
– Um dia vamos comer uma costela gorda.
O ex-juiz volta a sorrir como se fosse um personagem dos irmãos Coen misturado a outro personagem de Tarantino com alguma coisa de Almodóvar, Cantinflas e Mazzaropi.
Antes de sair, já na porta, Onyx volta-se para o ex-juiz, abre um sorriso e faz arminha com a duas mãos.

AS NOTAS DO HOMEM FORTE DE BOLSONARO

Uma reportagem com a marca de dois grandes repórteres, Fábio Schaffner e José Luís Costa. Aguardemos mais um pedido de desculpas a Sergio Moro.

………….

ZERO HORA

Onyx usa notas em série de amigo para receber verba de gabinete

FÁBIO SCHAFFNER
JOSÉ LUÍS COSTA

Como deputado, ministro entregou à Câmara 80 cupons de consultoria para resgatar R$ 317 mil

Por quase 10 anos, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), usou 80 notas fiscais de uma empresa de consultoria tributária para receber da Câmara R$ 317 mil em verbas de gabinete. Dos 80 cupons, 29 foram emitidos em sequência pela Office RS Consultoria Sociedade Simples, indicando que o então deputado foi o único cliente da empresa por meses a fio.
A firma pertence a Cesar Augusto Ferrão Marques, técnico em contabilidade filiado ao DEM há 24 anos e que trabalha nas campanhas eleitorais do parlamentar. Marques também faz a contabilidade do partido no Estado — recebeu R$ 175 mil em 2017 por meio de uma empresa que atua sem registro no Conselho Regional de Contabilidade. A GaúchaZH, tanto Onyx quanto Cesar Marques negaram irregularidades (leia as declarações ao final do texto)
irregularidades (leia as declarações ao final do texto).
Onyx diz que Marques presta consultoria na área tributária para seu gabinete. Sobre notas em sequência ou apresentação de cupons de empresas diferentes, afirma que a explicação deveria ser dada pelo técnico em contabilidade.
— Notas em sequência, mês a mês ou mesmo espaçadas, dão a entender que a empresa não tem outros clientes, e esse é um indício forte de irregularidade. A Câmara não faz pente-fino, aceita todos os documentos como legítimos. Além disso, os deputados têm à disposição consultores concursados, alguns dos mais qualificados do país, que estão ali para ajudar a apresentar projetos — diz o secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castelo Branco.
Nas notas, o serviço é descrito como “acompanhamento do OGU (orçamento geral da União) e avaliação financeira tributária visando a elaboração de emendas e projetos na área tributária”. A caligrafia semelhante sugere que a mesma pessoa redigiu quase todas, inclusive com os mesmos erros de ortografia — em 14 documentos, projetos está escrito como “progetos” e, em nove, área é “ária”.
Nesses 10 anos, o deputado apresentou dois projetos na área tributária, entre 1.053 proposições de sua autoria. A título de comparação, no atual mandato, o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), relator da reforma tributária, apresentou três notas fiscais de consultoria, somando R$ 27 mil. Onyx usou 24 notas, no valor total de R$ 96 mil.
O dinheiro usado por Onyx faz parte do cotão, verba de gabinete no valor de R$ 40.875,90, livre de impostos, que cada deputado gaúcho tem à disposição para gastar na atividade parlamentar — os valores variam por Estado. Para receber, basta apresentar nota fiscal. Segundo a Câmara, o parlamentar não precisa justificar a finalidade do contrato.
A Office também tem problemas de operação. Está inapta perante a Receita Federal por ter omitido créditos ao fisco e tem R$ 117,5 mil de dívidas tributárias _ R$ 113,1 mil com a União e R$ 4,4 mil com a prefeitura de Porto Alegre. Não recolheu imposto entre janeiro de 2013 e agosto de 2018, embora tenha emitido no período 41 notas a Onyx.
Desde que a Office foi aberta, os registros na Receita e na prefeitura indicam como sede uma sala na Rua Vicente da Fontoura, bairro Petrópolis. A reportagem esteve no local e não encontrou a empresa, que funciona na Avenida Taquara, também no bairro Petrópolis, mesmo local onde opera — sem alvará — a Cesar A.F Marques.

………..

As relações da Office com Onyx
O dinheiro recebido por Onyx a partir das notas da Office é ressarcimento da verba de gabinete no valor de R$ 40.875,90 que cada deputado gaúcho pode gastar na atividade parlamentar.
• De junho de 2009 a agosto de 2018, a Office RS emitiu 80 notas fiscais de assessoria tributária para o então deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS).
• Somam R$ 317 mil, sacados da verba de gabinete do deputado.
• De janeiro de 2017 a agosto de 2018, foram 14 notas em sequência, à exceção de uma. O mesmo se repete de novembro de 2015 a maio de 2016 e de julho a outubro de 2016.
• Em 2 de janeiro de 2017 foi emitida a nota 401. Somente em 30 de agosto, a 402.
• A 403 é de setembro, a 404, de outubro e a 405, de dezembro. A 407 foi apresentada em janeiro de 2018, e as demais mês a mês, obedecendo à ordem até a 414, em agosto de 2018. Todas com o valor de R$ 4 mil.

O que diz Onyx Lorenzoni

“Conheço Cesar Marques desde 1992. Durante algum período ele fez consultoria, acompanhando o orçamento da União, deu orientações, inclusive há alguns projetos com base no trabalho dele. Lembro da proposta de isenção de IPI para bicicleta, um trabalho detalhado sobre Refis bancário para pessoa física e sobre CPMF. Sempre nos ajudou a pensar em ações do mandato. Tem e-mail, algum texto, às vezes era aconselhamento.
Agora, essa coisa da numeração das notas, isso é problema dele, da empresa dele. Não me cabe, não sei se era o único cliente dele. Também não sei dizer por que alguns serviços ele prestava pela Office, outros pela Cesar A.F. Marques. Suponho que seja questão tributária, mas essa pergunta tem de fazer para ele. Mas ele sempre foi diligente, tanto que está conosco há anos. Tu teres uma pessoa que cumpre a lei é algo positivo.
A prestação de contas da campanha saiu mais cara porque ele deu consultoria para vários candidatos do Interior, não foi só a minha candidatura. Agora, não sabia que não havia esse registro no Conselho de Contabilidade, nem que isso tinha essa relevância, até porque as contas foram aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral. Mas não sei disso. Pode ter esse problema, mas é alguém que me acompanha desde 1992, não achei ontem.”

O que diz Cesar A. F. Marques

Afirma que presta serviços para Onyx Lorenzoni há cerca de 30 anos — consultoria na área tributária para elaboração de projetos de lei. Garante que o parlamentar não é seu único cliente, embora a clientela da Office RS seja reduzida.
Questionado sobre a sucessão de notas em série emitidas ao deputado, primeiro negou, depois disse tratar-se de estratégia empresarial.
— É uma questão tributária. A parte de consultoria, atendo pela Office, que não está no Simples, pois nessa tenho poucos clientes. A Cesar A.F Marques está no Simples, então atendo todos outros clientes.
Marques diz que o DEM-RS é seu maior cliente e que é o único para o qual entrega notas fiscais, daí a emissão em série:
— Para outros serviços, faço por cobrança bancária. Aí, não emito nota.
Conforme o Conselho Regional de Contabilidade (CRC), isso não deveria ocorrer.
— A empresa deve emitir nota fiscal sempre que presta serviço — diz o chefe de fiscalização do CRC no Estado, José Calleari.
Marques afirmou desconhecer que a empresa Cesar A.F Marques atue irregularmente por não estar registrada no CRC.
— Eu, pessoa física, tenho registro no CRC. Como a minha empresa é individual, disseram que não precisava. Vou ter de ver isso.

ONYX, O VIAJADOR

Reportagem da Folha online mostra, em detalhes, que o deputado Onyx Lorenzoni viajou pelo Brasil em campanha por Bolsonaro às custas do meu, do seu, do nosso dinheiro.
Onyx viajava para propagandear o candidato e depois pedia à Câmara o reembolso dos gastos com passagens.
No dia 6 de setembro, data do atentado a Bolsonaro, Onyx estava em Juiz de Fora. Fazendo o quê? Campanha para Bolsonaro. E pediu reembolso.
São mais de 70 viagens só para Rio e São Paulo, custeadas pela Câmara. Mas Onyx é deputado por Rio ou São Paulo?
Pois foi Onyx, lembra a reportagem, quem prometeu que, como ministro da Casa Civil, abrirá mão do cartão corporativo, assegurado a altas autoridades para custear gastos com viagens.
A frase é dele: “Aquela coisa de pagar jantar, pagar vinho, pagar uísque não sei quantos anos, nesse governo não ter não vai ter não”.
Mas teve viagem para fazer campanha para Bolsonaro, e muita viagem, custeada pelos cofres públicos.
A Folha pergunta: irá devolver o que gastou em campanha, como se estivesse em atividade como parlamentar, e fora da sua base, que é o Rio Grande do Sul?
E aí perguntamos nós: ou só irá pedir desculpas?

E AGORA, SERGIO MORO?

Sergio Moro flanava em Curitiba. Tinha time próprio e exclusivo, somente se envolvia com processos contra o PT e contra Lula. Moro era adorado pela direita como uma figura inatacável do Judiciário.

Grampeou Dilma e Lula, mas não deu nada. Mandou a gravação do grampo para a Globo e não deu nada. Determinou que Lula fosse submetido à condução coercitiva e não deu nada.

Condenou Lula sem provas e não deu nada. Participou de festas com Aécio e não deu nada. Tirou fotos e dividiu mesas de comilanças com Doria Junior em Nova York. Desafiou o Supremo várias vezes. Não deu nada.

Foi nomeado ministro da Justiça de Bolsonaro, na maior cara dura, e acha que não vai dar nada. Que continuará flanando, sem pressões, com o apoio unânime dos ‘liberais’ e da imprensa.

Mas Moro, o ex-justiceiro, já tem pelo menos três pepinos que irão testá-lo, agora em cargo político que ele tenta vender como se fosse um cargo técnico.

Paulo Guedes, o ministro da Fazenda que o recebeu na primeira visita à casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca, está sendo investigado pela Polícia Federal por fraudes em fundos de pensão. A Polícia Federal está sob o comando do ex-juiz.

Flavio Bolsonaro, deputado estadual, eleito senador pelo Rio, filho de Bolsonaro, era chefe de Fabrício Queiroz, ex-PM flagrado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por ter movimentado R$ 1,2 milhão durante um ano e depositado R$ 24 mil na conta de Michelle Bolsonaro.

Queiroz, já afastado do gabinete do deputado (por que saiu?) era motorista e segurança do deputado. De onde tirou tanto dinheiro? De quem é essa dinheirama?

Moro vai descobrir, porque será o grande chefe do Coaf. Bolsonaro fez questão de deixar o Coaf sob as ordens do ex-magistrado.

Tem Mais. Onyx Lorenzoni, futuro chefe da Casa Civil, que admitiu ter recebido caixa dois (mas não é propina) de R$ 100 mil em 2014, está sendo investigado por ordem do Supremo por mais um caixa dois de R$ 100 mil (mas não é propina) de 2012, que ele nega.

É complicada a situação de Sergio Moro, porque Onyx pediu desculpas pelo primeiro caixa dois. E Moro sempre disse que caixa dois é crime grave. Mas admitiu que, se Onyx pediu perdão, as desculpas deveriam ser aceitas. E afirmou que confia no colega.

Sergio Moro vai começar a sentir em dezembro o calor do inferno em Brasília. Ele acha que seus amigos da imprensa vão poupá-lo. Alguns irão. Mas a guerra pela informação faz com que cada um brigue pelo osso que às vezes o patrão não quer ver por perto.

Não haverá patrão capaz de segurar a briga pelos ossos em volta de Sergio Moro. O jornalismo, por mais covarde que seja, como tem sido o jornalismo brasileiro desde o golpe de agosto de 2016, é mobilizado pela batalha entre os que desejam saber mais e informar mais. É da natureza de quem lida com informação, ou o jornalismo não sobrevive.

Ninguém conseguirá segurar bons repórteres que já estão atrás dos rolos dos Bolsonaro e de seus amigos. Sergio Moro vai experimentar agora o que nunca experimentou na vida boa de Curitiba, por mais que a estrutura da Justiça venha a ser aparelhada pelo bolsonarismo.

Preparem-se para as performances do ministro. Sergio Moro vai ter de dançar com as cobras que ajudou a criar.

De novo

O pedido de desculpa continua. Ontem foi para Roberto Davila. Parece que cada vez fica pior. A culpa agora seria do PT.
Pelo que entendi, o negócio é “ajustar” isso daí. E os votos teriam aumentado por causa de uma cicatriz que ele ameaçou mostrar.
Pra rir um pouco, com vocês o pedidor de desculpas.
(E por que fecha os olhos?)

O pedido de desculpa continua. Ontem foi para Roberto Davila. Parece que cada vez fica pior. A culpa agora seria do PT. Pelo que entendi, o negócio é "ajustar" isso daí. E os votos teriam aumentado por causa de uma cicatriz que ele ameaçou mostrar.Pra rir um pouco, com vocês o pedidor de desculpas.(E por que fecha os olhos?)

Posted by Moisés Mendes on Sunday, December 2, 2018