O MORTO QUE FICOU BONZINHO 

Circulam muitas versões para o famoso almoço que Lula abandonou antes que começasse na Folha de S. Paulo, em 2002. O personagem principal não é Lula, é Otávio Frias Filho, o diretor de Redação que morreu agora aos 61 anos.
A versão contada desde o começo (e depois distorcida por outras versões) foi reafirmada por Otávio Frias de Oliveira, dono da Folha, pouco antes de morrer.
Na campanha de 2002, os Frias convidam Lula para almoçar na Folha. Na recepção ao convidado, o Otavio filho pergunta a Lula se ele, sem curso superior, se sentia mesmo preparado para governar o país.
Lula levanta-se e vai embora. O anfitrião mal educado sugeria que alguém sem faculdade não poderia governar o Brasil.
Lula governou o país por duas vezes, produziu prosperidade, criou universidades e reduziu desigualdades. Acabou encarcerado, enquanto tucanos corruptos com diploma, todos amigos dos Frias, continuam soltos e impunes.
Desde aquele almoço do desaforo, os Frias (que também eram amigos dos ditadores) nunca mais deram trégua a Lula e ao PT.
E é esse o sujeito apresentado hoje, por versões variadas, como educado, fino e democrata. O homem que convidou o que viria a ser o maior líder popular do país para um almoço em que tentaria, como anfitrião bem nascido, humilhá-lo como operário sem um dedo.
Tudo por causa da importância que dava à ideia de que a competência só se manifesta se tiver o respaldo de um diploma?
Mais do que isso. Otavinho tentou pisotear Lula e colocá-lo, como diziam os brancos escravistas, no seu devido lugar, não como escravo, mas como retirante nordestino sem formação superior e sem lustro.
Otavinho não era apenas parte da imprensa conservadora (que um dia pretendeu ser pluralista e cheirosa). Era a expressão da elite paulistana emplumada, reacionária e sempre golpista.

O JORNALISMO NO PENHASCO DO OSTRACISMO

Otavio Frias Filho, diretor da Folha de S. Paulo, publica hoje um artigo contra Lula. É a melhor prova (e não uma simples convicção) da diferença entre a imprensa brasileira e a imprensa americana mostrada no filme The Post, A Guerra Secreta.
A imprensa liberal americana tem como vocação confrontar o poder, porque só assim sobrevive como imprensa e não só como negócio, como mostra o filme (e acho que eles ainda vão derrubar Trump).
Aqui, a imprensa do golpe quer usufruir do poder dos amigos. O jornalismo brasileiro não produziu uma reportagem, uma só, com informações que acrescentassem alguma coisa às delações, aos vazamentos bem escolhidos e aos grampos de Sergio Moro. Nada.
O artigo é cheio de volteios para dizer o seguinte: viva a eleição sem Lula.
Entre o Judiciário seletivo que poupa corruptos a direita e a imprensa do golpe, não me arrisco a dizer qual é o mais calhorda.
Para plagiar o título do diretor da Folha: é a imprensa brasileira, sob pressão das redes sociais, sendo empurrada para o penhasco do ostracismo. De mãos dadas com o Judiciário.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/otavio-frias-filho/2018/01/1953538-lula-no-ostracismo.shtml