Boicotes

Tem muita gente insistindo que o boicote à Netflix é uma contradição cometida pelos que condenaram o boicote à exposição Queermuseu.
Por favor, não é, e não só por causa das diferenças gigantescas entre as formas dos boicotes.
Não me envolvo com o boicote à série do Padilha, até porque não sou consumidor compulsivo de Netflix e de Padilhas, mas não tem como fazer comparações entre as duas situações.
E não vou escrever uma linha sequer para desenvolver meu argumento, em respeito aos que sabem (e também aos que fingem que não sabem) que a comparação é absurda.

O JANTAR DE R$ 10 MILHÕES

Finalmente vão investigar o jaburu-da-mala no famoso caso do jantar de maio de 2014 em que Marcelo Odebrecht acerta a ‘doação’ por fora de R$ 10 milhões que seriam para o PMDB. Não seria propina, seria doação.
O jaburu era vice-presidente da República e presidente do PMDB. R$ 6 milhões seriam encaminhados para a campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo. Os outros R$ 4 milhões ficariam aos cuidados de Padilha.
Sempre que a história desse jantar no Palácio do Jaburu aparece na imprensa é lembrado que Marcelo Odebrecht, ao delatar o caso, diz que o jaburu ausentou-se da mesa do jantar na hora do acerto da dinheirama.
O jaburu afasta-se entre a sobremesa e o cafezinho (e vai para o banheiro ou circula entre as emas nos jardins?). Ficam ali Marcelo, mais Claudio Melo Filho, diretor da empreiteira, e Padilha, então deputado federal.
Marcelo diz que o jaburu sabia de tratativas, mas decidiu afastar-se no momento da negociação.
Melo Filho já conta diferente, diz que o jaburu foi quem pediu o dinheiro ao empreiteiro, já no começo da conversa, sem muitos rodeios.
O desencontro aqui parece envolver um detalhe: na versão de Marcelo, o jaburu não teria ficado sabendo que R$ 6 milhões iriam para Skaf e que R$ 4 milhões iriam para Padilha. E Melo Filho compromete o jaburu.
Por que esse desencontro? Para que Marcelo livre a cara do jaburu sobre detalhes da partilha do dinheiro, já que R$ 4 milhões seriam da cota deles, do jaburu e de Padilha?
O que importa é que agora o ministro Edson Fachin atendeu a pedido da procuradora-geral, Raquel Dodge, e autorizou a investigação.
Até aqui, o jaburu estava sob a proteção de uma interpretação da Constituição, segundo a qual o presidente não pode ser responsabilizado por ato cometido que seja alheio ao seu mandato.
Rodrigo Janot, o antecessor de Raquel, assim havia entendido e poupado o jaburu. Nunca ninguém mais tratou do assunto, que passou rápido pela imprensa depois do golpe.
Raquel e Fachin entendem que o jaburu não pode mesmo ser responsabilizado agora, mas pode sim ser investigado.
Isso quer dizer o quê? Que o jaburu, que já foi denunciado por formação de quadrilha com Padilha e Moreira Franco (pelo próprio Janot, mas a denúncia foi rejeitada pelo Congresso) pode enfrentar mais uma bronca.
Vamos chamar de bronca mesmo, talvez apenas uma bronquinha, porque alguém acredita que isso dará alguma coisa?
Só se o caso fosse cair em Curitiba, com julgamento em segunda instância em Porto Alegre e o investigado fosse, claro, não o jaburu, mas Lula, e o jantar tivesse acontecido no tríplex do Guarujá ou no sítio de Atibaia.

Liberou geral

Vai para sorteio no Supremo o caso em que Eliseu Padilha e Moreira Franco são citados como agentes do Quadrilhão do jaburu. O ministro Edson Fachin pensou, pensou, pensou bastante e decidiu que o inquérito não deve mesmo ficar com ele, porque não tem relação com a Lava-Jato.

Passou a bronca para Cármen Lúcia, que vai mandar o caso para sorteio. Entenderam? Sorteio, de novo.

Outra vantagem para os dois denunciados. Se o processo for parar na primeira instância (se os dois perderem o foro privilegiado depois da eleição), Sergio Moro fica de fora.

Se não é processo da Lava-Jato, nem vai para Curitiba. Evita-se o constrangimento de o juiz ter de lidar com um caso tão cabeludo e sem petistas envolvidos.

E aí, meu amigo, um processo com esses dois numa vara qualquer de primeira instância… Todo mundo sabe o que vai acontecer. Serra, Aécio, o jaburu, Padilha, Moreira Franco, todos vão escapar da Justiça. A única chance de pegá-los é pela ação política.

Da quadrilha do golpe, só um ficará na cadeia: Cunha, porque alguém tem que manter isso aí. Geddel não conta, porque esse era apenas o guarda-malas.

Cunha está quieto porque recebe comidinha especial todas as semanas e só teria algum valor como delator se dedurasse alguém do PT.

Cunha é um pelego velho. Mas deve ficar preso. Se sair da cadeia, pode querer comer brioches de novo com o jaburu.

Fomos derrotados pelo Quadrilhão

Um dia, a direita brasileira no poder foi sofisticada. Tinha um disfarce de centro-esquerda, mas era uma direita emplumada. Uma direita com o charme de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Armínio Fraga, Luis Carlos Mendonça de Barros, Paulo Renato Souza, Bresser Pereira (há muito tempo arrependido do que pensou e fez), Celso Lafer e tantos outros.

Aquela direita sim era uma direita neoliberal com convicções ideológicas e fortes laços com os interesses dos grandes grupos internacionais. Tanto que vendeu metade do Brasil. Aquela direita tinha lastro e glamour.

Hoje, o programa de TV do PMDB nos mostrou a cara da direita que chegou ao poder em agosto do ano passado. O Brasil arcaico nos governa, com o jaburu, Padilha, Moreira Franco, Jucá, Eunício de Oliveira. Esses caras, que aplicaram o golpe com a ajuda de tucanos e do baixo clero, com o Supremo e com tudo, mantêm o povo sob controle.

Não há sofisticação nenhuma. Não há desculpa de que o mundo financeiro internacional manda cada vez mais no Brasil. O mundo financeiro não precisa mandar, mas só desfrutar do que o Brasil primitivo faz. As esquerdas acham que, ao atribuir o golpe e a anestesia geral a conspirações internacionais, atenuam suas culpas.

Nós fomos golpeados pelo Brasil arcaico, por essa turma do PMDB. Eles nos venceram. As reformas trabalhista e da Previdência, a destruição do SUS e da educação, a entrega do pré-sal, tudo passa antes pelo desejo dos coronéis de desfrutar dos benefícios de todas essas manobras. Do dinheiro que delas resultam, da partilha do saque. Os estrangeiros, claro, chegam para se apropriar do butim.

Mas o Brasil arcaico, predatório, não precisa que o sistema financeiro internacional lhe diga o que fazer para voltar ao sistema escravocrata do século 18. O Brasil do PMDB do Quadrilhão que apareceu na TV é o Brasil primitivo que nos mantém sob controle total.

Foi-se o Brasil de FH e de seus ministros que falavam com George Soros e com os grandes banqueiros e executivos mundiais. O Quadrilhão conversa com os grileiros de terras, os destruidores de florestas, os matadores de índios e os patos reacionários da Fiesp. Meirelles é apenas um lustro.

Não houve e não há nenhuma sofisticação no golpe. Não nos enganemos. Não há hoje nenhuma força internacional mais implacável do que a que sempre existiu.

O dinheiro manda no mundo e o mercado financeiro manobra com a política também no Brasil. Mas os coronéis da política, do latifúndio e seus prepostos das igrejas evangélicas e das balas mandam no Brasil. Estamos anestesiados por forças nacionais retrógradas, pelo Brasil da escravidão. Eles tomaram conta das instituições.

Mas as esquerdas não falam disso, que é admitir a submissão aos novos bandeirantes, a capitães do mato, a sinhozinhos, a coronéis e a todos os agregados que para eles trabalham, inclusive na imprensa e no Judiciário.

O PMDB que apareceu na TV tem o Brasil sob controle. Esqueçam as conspirações do FBI. Nós estamos sob o comando do Brasil do Quadrilhão e não conseguimos reagir. O Quadrilhão não precisa de FBI. Só precisa dos seus cúmplices em todas as instituições, principalmente no Judiciário.

O modelo de Curitiba

O juiz Sergio Moro ficou com a parte pobre da Lava-Jato, com os tesoureiros do PT e com Lula e os pedalinhos e a reforma da cozinha do Guarujá. Até Marcelo Odebrecht ficou pobrezinho perto dos irmãos Batista e das malas do Geddel.
Sergio Moro é juiz para pegar um Lucio Funaro e suas conexões jaburianas. Este sim, como se vê agora na sua delação, é mafioso de verdade. Se pegasse Funaro, Moro pegaria Cunha, Padilha, Geddel, Moreira Franco e o jaburu. O Quadrilhão seria todo de Moro.
Mas Sergio Moro só lida com gente sem foro privilegiado. Ele só avança em gente com foro se for para grampear Dilma. Quando foi para grampear Dilma (ilegalmente) e mandar o grampo (ilegalmente) para a Globo, aí não teve a desculpa do foro.
Moro deve ter sido o único juiz de primeira instância de todos os tempos, em qualquer parte do mundo e sob uma democracia, mesmo que capenga, que grampeou (com a desculpa de que foi sem querer) o telefone da mais alta autoridade do país. E deu publicidade ao seu delito, como se fosse repórter dos Marinho.
Um dia os professores de Direito ainda falarão desse episódio como uma das maiores aberrações da Justiça. Hoje, poucos falam, porque o Direito absoluto a ser imitado é o do modelo das prisões preventivas intermináveis e das delações saídas das masmorras de Curitiba.
(Para que não fique dúvida: o ministro Teori Zavascki considerou ilegal a divulgação do grampo pelo juiz, porque o próprio grampo também foi, é claro, um ato ilegal. Mas Teori está morto.)

O deixa-comigo do Quadrilhão

Ninguém mais duvida que Geddel, o prestativo, era o cofrinho de todo o Quadrilhão. O doleiro Lucio Funaro conta na delação que Geddel era o cara do deixa-comigo-que-eu-cuido-de-tudo-isso-aí.

Muita gente tem um Geddel por perto, não necessariamente um ladrão, mas um prestativo meio bobão que precisa ser reconhecido, até com bons cargos, pelo seu desprendimento. Geddel cuidava da grana, outros cuidam das mais variadas demandas. Na firma, na repartição, na família.

É o cara do eu resolvo. O sujeito aquele que sempre se encarrega de assumir  problemas, mas que também será visto sempre com desconfiança. Porque é um bobão.

Geddel era o bobo do Quadrilhão do PMDB, um aprendiz de coronel baiano. Por ser o cofre da turma do jaburu e de Cunha, ganhou cargos do PMDB nos governos do PT. Geddel era o prestativo da cota do jaburu.

O apartamento em Salvador, com as malas com R$ 51 milhões, era uma casa de passagem. Dali saía o dinheiro para, entre outras coisas, comprar o apoio ao golpe que derrubou Dilma. Geddel devia dizer todos os dias aos outros: fica tranquilo que está bem guardado.

Os outros tinham Geddel como o resolvedor, o prático, o ajudante-de-ordens. Nenhum dos demais membros da quadrilha faria esse trabalho de guardar  malas. Geddel fazia com gosto.

Todos nós conhecemos os Geddeis da vida, com aquela cara redonda, rosada, sempre fazendo piadas, amigão dos jornalistas. Mas esse é o sujeito que na História, na literatura policial e nos filmes faz o personagem que de uma hora para outra entregará sem querer todos os da quadrilha. É o faz-tudo que tropeça na soberba misturada à atrapalhação e à ingenuidade.

Os outros citados na denúncia de Rodrigo Janot, o Padilha, o Moreira Franco, o Henrique Alves e o Rocha Loures (a mula), deveriam ter boa parte de suas poupanças na malas do Geddel. Um dia Geddel vai falar, porque o faz-tudo não fica quieto.

 

O banco que pagou o golpe

Durante anos, os analistas políticos tentaram nos engambelar. Diziam que o poder de líderes da direita vinha da capacidade de articulação, do charme e até do perfume que usavam.
O poder, sabe-se agora, veio sempre da capacidade de distribuir dinheiro. Esse era o poder de Eduardo Cunha, como mostra a delação do doleiro Lúcio Funaro.
Cunha era, segundo o doleiro, “um banco de corrupção de políticos”. Ele pagava por apoios e mutretas.
Cunha, disse o doleiro, era articulado com o jaburu-da-mala. E o jaburu era chefe de Geddel, de Moreira Franco e de Padilha, segundo o Ministério Público. Todos juntaram muito dinheiro no Quadrilhão.
Funaro deve saber por cima o que só Eduardo Cunha e seus parceiros sabem a fundo: como foi comprado o apoio para derrubar Dilma? Quantas malas de Geddel foram usadas no golpe?
Mas a quem interessa essa informação, se não contribui em nada para o cerco a Lula?

Os direitos do Quadrilhão

Estou aqui tomando meu mate com carqueja e pensando. No golpe contra Dilma, a direita do Congresso declarou voto pela família, por Deus e por Eduardo Cunha. Foi um voto pelos costumes e pela ‘moral’ religiosa.
Já na votação da denúncia contra o jaburu-da-mala, o argumento pró-jaburu foi o da defesa da estabilidade econômica. Foi um voto pela segurança do povo.
A piada da primeira votação ficou pior na segunda. Agora, a denúncia a ser votada pega o jaburu, Padilha e Moreira Franco. Fica mais complicado arranjar um argumento para todos.
Estava pensando num pretexto possível e até ofereço essa ideia de graça a eles. Os golpistas poderão manter a sinceridade e votar em defesa do direito de formação de quadrilha, que é do que trata uma das denúncias do Ministério Público.

AS DOENÇAS

No intervalo de uma das reuniões na ONU, Moreira Franco bateu na porta da suíte onde estavam o jaburu-da-mala e seus assessores. Moreira Franco pediu licença e entrou:

– Cumpre informar que o juiz não autorizou o tratamento para a cura do Padilha.

– Podemos falar disso depois? – indagou e ordenou o jaburu, alegando que precisava preparar uma proposta de paz entre Trump e o gordinho da Coreia e que esse plano seria decisivo para evitar a guerra.

Moreira Franco insistiu:

– Padilha deve ser curado logo.

– O que ele tem é saudade do Geddel – disse o jaburu.

Moreira Franco argumentou:

– E saudade é doença. Mas recorremos a um juiz de Brasília, o mesmo que disse que os gays são doentes, e ele disse que Padilha deve lutar para esquecer o Geddel. Ele não reconhece um homem saudoso como doente. Que Padilha é um homem sadio.

– E o Gilmar?

– Ainda não recorremos ao Gilmar.

– Pois faça-o. O Gilmar decide o que é doença, do resfriado às pestes medievais. Se for preciso, Gilmar prende as doenças e solta as doenças – disse o jaburu.

Quando Moreira Franco estava deixando a suíte, chegou Padilha.

– Saudade é doença, sim – disse Padilha.

– Mas o Geddel sairá logo – falou o jaburu, com a voz baixa, aquela voz em ponto morto que parece que não é dele, em tom de quem consola.

Padilha jogou-se na cama presidencial, agarrou-se ao travesseiro e começou a chorar.

– Mas e as malas? E as malas?

Padilha dava socos no travesseiro. O jaburu chamou Moreira Franco e fez um sinal com a mãozinha:

– Psss… Deixa ele quieto.

E virou-se para o assessor e continuou ditando, fazendo círculos com o dedo indicador no ar:

“Como eu estava dizendo, todavia, o Brasil oferece-se, no entanto, como potência mundial, a tratar a doença que acomete o mundo e que pode de inopino afastar-nos dos trilhos da paz, da bonanza…(com z mesmo)…”

A excursão do Quadrilhão

O Quadrilhão denunciado por Rodrigo Janot viaja para Nova York amanhã. O jaburu-da-mala, Eliseu Padilha, Moreira Franco e uma chusma de subalternos que os auxiliam na condução do trem da economia, da moralidade e da esperança.
Janot queria que todos eles fossem para a Papuda junto com Aécio. Os três vão à ONU e à Casa Branca e depois vão às compras. E Aécio anda por aí. A Papuda que espere.