A matança

Os nove jovens mortos em Paraisópolis não devem entrar nas estatísticas da matança diária da Polícia Militar de São Paulo. Até porque, segundo Sergio Moro, as autoridades cometeram erro operacional.
Monica Bergamo informa hoje na Folha que até outubro 697 pessoas foram mortas por policiais fardados no Estado. Em 2018, foram 686 no mesmo período.
É preciso que se repita sempre: matam pobres e negros. E os assassinos são, na maioria, da mesma base social das vítimas.
São pobres e negros matando pobres e negros a mando dos brancos.

A CULPA É DO ERRO OPERACIONAL?

Um erro operacional grave. É como Sergio Moro define o massacre de Paraisópolis.
O estouro da bomba no colo do sargento Guilherme do Rosário, no atentado do Riocentro, em 1981, também foi resultante de um erro operacional.
Torturadores da ditadura diziam se exceder em suas tarefas e assim cometiam assassinatos por erro operacional. Vladimir Herzog foi morto assim numa masmorra militar.
O erro operacional pode ser usado para explicar de delitos leves a crimes bárbaros, nas mais variadas circunstâncias.
O massacre de 111 presidiários do Carandiru, em 1992, teria sido provocado pela perda de comando e por um erro operacional da polícia militar.
Na origem das matanças das barragens que estouram em Minas, estão erros operacionais.
Quanto maior a chance de impunidade, maior a possibilidade de ‘erro operacional’.
Pobres, negros, índios e mulheres são eliminados todos os dias por assassinos que recorrem à desculpa do erro operacional.

DESAFIO A SERGIO MORO

Depois do massacre de Paraisópolis, Sergio Moro participaria de um debate ao vivo sobre excludente de ilicitude?
Não de um debate com jornalistas amigos na TV, mas com pessoas comuns, com moradores de comunidades que tiveram os filhos, os irmãos e os amigos assassinados pela ação da polícia.
Moro iria defender com o povo a ideia de lei aguardada pelos que massacram, batem, reprimem e atiram em jovens pobres e negros sem medo de serem punidos?
Moro circularia hoje, como defensor do povo e caçador de bandidos, pela favela de Paraisópolis? Ou Moro só fala de excludente de ilicitude para empresários e facções de políticos da extrema direita?
Moro foi esses dias ao Congresso defender suas ideias sobre a licença para matar bandidos.
Se o ex-juiz é o defensor do povo inseguro, que vá defender sua tese lá onde o povo mora.

O PRIMEIRO BAILE E O MASSACRE DE PARAISÓPOLIS

O primeiro grande baile funk de Porto Alegre aconteceu em abril de 2001, no Gigantinho. Pode ter sido o maior baile funk de todos os tempos no Estado.

Eram mais de 4 mil pessoas na quadra e nas arquibancadas. O funk apresentava-se como novidade para os gaúchos. Veio gente do Rio para organizar a festa. Eu vi, eu estava lá.

Os bailes, já naquela época, ainda longe do bolsonarismo, atraíam todo tipo de preconceito da direita moralista e dos que odeiam negros e pobres.

Eu queria saber o que era um baile funk. Com meu amigo Júlio Cordeiro, que fez as fotos, ficamos até o dia clarear e apresentamos um relato de duas páginas em Zero Hora.

Podemos dizer que ajudamos a divulgar o funk e reforçar o combate às tentativas de estigmatização da arte e das festas dos funkeiros. Ronaldinho Gaúcho apareceu no ginásio do Inter, protegido por um capuz, para não mostrar a cara na casa dos colorados.

Me lembro do estudante Mário Roberto Gomes de Lima, 18 anos, morador da Restinga, com uma camiseta preta e a inscrição no peito: 100% negro. O guri era o que o IBGE cadastra como pardo. Mas ele queria ser reconhecido como 100% negro. Nunca tinha visto uma camiseta como aquela, que depois se popularizou.

Mário tem 36 anos hoje. Faz o quê? Mora onde? Me lembrei dele e do baile por causa do massacre de Paraisópolis. A maioria dos 10 mortos tinha idade semelhante à do adolescente de 2001.

De lá até aqui, o preconceito ficou ainda mais cruel e foi politizado pela direita, e os massacres ganharam suporte “jurídico”. Matavam muitos negros em 2001, sempre mataram, por qualquer motivo. Agora matam com a proteção do discurso oficial e das iniciativas bolsonaristas de Sergio Moro.

Matam porque, na Era Bolsonaro, assassinos fardados não temem mais nada. Um ex-juiz diz que podem matar se sentirem medo, se apresentarem desculpas sobre alguma surpresa ou se estiverem sob forte emoção. Ainda não é lei, mas está na fala de um ministro da Justiça.

Matam porque muitos ficam impunes e mais adiante, com a lei de Moro, todos ficarão. O bolsonarismo se sente desconfortável com a festa das comunidades. O racismo bolsonarista odeia a alegria dos negros.