AS IGNORÂNCIAS

Volto ao tema das ignorâncias. Saiu agora uma pesquisa que deixa o Brasil muito mal como país que está fora da realidade.

O Instituto britânico Ipsos Mori entrevistou pessoas de 38 países, para saber o que elas pensam sobre economia, costumes, indicadores sociais, criminalidade e outros assuntos.

O próprio Ipsos já chamou a pesquisa de Índice de Ignorância. O Brasil é o penúltimo colocado em percepção da realidade (só ganha da África do Sul). Em 36 países seus habitantes sabem mais das suas realidades do que os brasileiros sabem do seu próprio país.

Os brasileiros pensam que moram em outro país. Os líderes, os que mais sabem das próprias realidades, são os habitantes da Suécia, Noruega, Dinamarca, Espanha e Montenegro.

Li detalhes da pesquisa, que lida com respostas com informações aproximadas sobre índices, por exemplo. Acho que tem muita bobagem (como alguém vai saber, mesmo que como chute, qual é o índice de adolescentes grávidas no Brasil). Mas, no geral, mostra que a população recebe uma enxurrada de informações distorcidas ou superestimadas da TV, do rádio, dos jornais, dos políticos, das pessoas que fazem a cabeça média da maioria sobre o país e o mundo (fora a informação sonegada).

É com isso que o golpe conta para continuar evoluindo. Os golpistas finalmente perceberam, quando começaram a golpear Dilma e a perseguir Lula, que a desinformação é maior do que se pensava. E que é possível produzir ainda mais desinformação. As ignorâncias mantêm uma população na inércia.

Mas as esquerdas não gostam de tocar no assunto. Porque levar em conta esse dado seria considerar o povo ignorante e admitir os erros da própria esquerda. Não. Ninguém classifica ninguém como ignorante. O que se passa no Brasil é que o povo está submerso em ignorâncias produzidas.

O golpe produz ignorâncias e conta com isso para se manter. O brasileiro que elegeu Doria e o gestor Despacito foi engambelado por essa gente. O Brasil precisa reagir à produção de ignorâncias. O Brasil arcaico tem o domínio de tudo. Esqueça a CIA, o FBI, o Trump.

O Brasil que não sabe o que é vem sendo manipulado pelo Caiado, pelo Bolsonaro, pelo pato da Fiesp, pelo Pauderney, pelo Aécio, pelo Padilha e pelo Quadrilhão. Eles não precisam da CIA para fazer o que têm feito. Só precisam dos bancos, dos empresários e da imprensa.

O Brasil das ignorâncias existe porque não conseguimos enfrentar o Brasil arcaico. As ignorâncias são um produto nacional.

Em busca da pureza perdida

É precária, quase simplória, a análise de Mauro Paulino, diretor do Data Folha, para o crescimento de Lula nas pesquisas.
A prinicpal conclusão dele, em texto hoje na Folha, é que a maioria do eleitor despreza a corrupção como fator importante para que o candidato seja rejeitado.
A outra conclusão. Lula seria corrupto, mas faz mais pelos pobres do que os outros candidatos.
Não passa pela cabeça do analista que o eleitor está dizendo algo muito mais óbvio do que suas conclusões moralistas.
O que o eleitor diz é que Lula está sendo perseguido porque é Lula (mas essa questão não está nas perguntas formuladas pelo DataFolha). E que, no contexto da política suja brasileira, Lula ainda é menos sujo do que os candidatos da direita impune do PSDB, do PMDB e demais partidos golpistas que derrubaram Dilma.
Mas o diretor do DataFolha talvez imagine que um eleitor puro devesse buscar um candidato com a pureza do Brasil. Talvez como Aécio, Marina, Bolsonaro ou Doria Junior. Ou até quem sabe com a pureza do juiz de Curitiba.
(A conclusão final do analista, em tom de sabedoria superior, é que no fim políticos e eleitores são hoje tudo a mesma coisa. A minha conclusão é que o crescimento de Lula perturbou muito mais o jornalismo do que os políticos da direita.)

A direita bacana tem medo dele

Bolsonaro deixou de ser uma hipótese esdrúxula e passou a ser uma possibilidade real como candidato da direita às eleições de 2018. Lula venceria a eleição no primeiro e no segundo turno, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Transporte. E Bolsonaro poderia ser o adversário.

Não é Aécio, nem Alckmin, nem Serra, nem Marina. O candidato que cresce é Bolsonaro, o sujeito que está sendo processado, com autorização do Supremo, por ter feito repetidos ataques machistas e covardes à deputada Maria do Rosário.

Bolsonaro, o deputado sem freios, das declarações racistas e homofóbicas, aplaudido na Avenida Paulista e no Parcão por homens e mulheres com a camiseta da Seleção, seria então o candidato ideal da direita? De uma certa direita, sim. De outra direita mais convencional, a direita mais bacana, não?

Mas por que não, se ele foi ovacionado pela classe média golpista em todo o Brasil? Porque Bolsonaro foi longe demais como alternativa a uma eleição. Bolsonaro era o cara para bater no PT, em Lula, em Dilma e nas esquerdas e agredir feministas, gays e negros. Mas não para ser candidato.

Bolsonaro é a excrescência que uma fatia da direita, assim como ocorreu com parte dos republicanos em relação a Trump, não quer ver por perto. Trump tem o glamour do bilionário gestor, que vai recuperar empregos, pôr a correr mexicanos e muçulmanos e restaurar o orgulho americano.

Bolsonaro é um ogro, usado pela direita branca apenas como instrumento de disseminação de ódio, preconceito, medo da ascensão dos pobres e desconforto com a classe média que passou a viajar de avião e a frequentar a universidade.

Essa classe média tradicional, que se diz com berço, mais cheirosa, não almeja um Bolsonaro como candidato. Pretendia que ele fosse apenas uma marionete de seus impulsos mais cruéis. Por isso, temos lido cronistas golpistas diversos, inclusive alguns cronistas gaúchos mais fofos, atacando Bolsonaro, com pelo menos quatro anos de atraso. Por que não atacavam antes?

Porque só agora Bolsonaro é um problema. Bolsonaro pode tirar um tucano qualquer do páreo. Bolsonaro é uma ameaça a Aécio. É preciso não brincar com Bolsonaro.

É ingrata demais a direita que agora ataca ou despreza Bolsonaro, depois de pedir que ele fizesse o serviço da boca suja.

62% querem eleição. E daí?

A partir de hoje, cai no esquecimento a história da já famosa pesquisa que a Folha havia escondido sob o tapete.
Ninguém mais fala nisso, apenas os blogs sujos. O dado apurado pelo Datafolha, indicando que 62% dos eleitores pesquisados querem nova eleição, já está a caminho do ralo das notícias esquecidas.
E o jornalismo continuará fazendo o que sempre fez. Seguirá em frente, autônomo, independente, transparente, defendendo as instituições e a democracia.

A manipulação

A melhor análise sobre a manipulação de informações pela imprensa, no esforço pela manutenção do interino, está no texto dos jornalistas Glenn Greenwald e Erik Dau, do site intercept.

Eles jogam luzes nas sombras da já famosa pesquisa escondida pela Folha.

O americano Glenn Greenwald tem ajudado a divulgar no Exterior a farsa do golpe no Brasil e por isso é visto com desconfiança pelo jornalismo embarcado.

O texto mostra que a prioridade do projeto conservador agora é tentar salvar Michel Temer de qualquer jeito, com boas notícias nos jornais e na TV, considerando-se que a opção tucana (a preferida), em eventual eleição, foi para o ralo.

Leia aqui:

https://theintercept.com/2016/07/20/folha-comete-fraude-jornalistica-com-pesquisa-manipulada-visando-alavancar-temer/

Isso é muito feio

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A notícia sobre a pesquisa que a Folha escondeu (62% dos eleitores querem novas eleições) está em todos os sites hoje, inclusive de O Globo.

Mas não há uma linha, uma só, sobre o fato na versão impressa da própria Folha. Nem no online.

Vasculhei a Folha agora e não achei nada. Posso não ter visto algum registro sobre o “erro”, perdido em algum canto, mas admito que não achei nada. Quem tiver alguma informação, que me passe.

O que está claro sobre a pesquisa é que a Folha fez uma opção desrespeitosa (para usar um eufemismo) não só com seus leitores. Não se trata aqui de debater critérios jornalísticos. O erro cometido está acima de normas de redação ou de bom senso para quem lida com informação.

Não é um erro como muitos dos cometidos todos os dias nas redações e que são da natureza do jornalismo. É um “erro” deliberado, que não poderia ficar impune.

É óbvio demais que, se uma pesquisa diz que 62% da população deseja eleições, essa informação é mais relevante do que outro dado que diz que, entre Temer e Dilma, os eleitores (50%) preferem Temer (mesmo que também esse dado esteja sob suspeita).

Dois terços da população querem novas eleições, não querem Temer.

O que a Folha fez compromete o jornalismo dito independente e subestima o contingente da população que o sustenta, a classe média crítica, bem informada, que hoje se abastece de outros meios para pelo menos diversificar pontos de vista.

Foi o que os blogs fizeram a respeito da controversa pesquisa. Sem o esforço dos blogueiros para entender o levantamento do Datafolha e suas interpretações, o dado escondido continuaria sob o tapete.

A transparência que o jornalismo sempre defende deve valer também para o próprio jornalismo, ou veículos como a Folha estarão, a partir de agora, sempre sob suspeita.

O relatório do próprio Datafolha, que denuncia a fraude jornalística cometida pelo jornal, está no linck abaixo:

http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2016/07/20/av-presidente-michel-temer-completa.pdf

O que a Folha escondeu

É delicada a situação da Folha de S. Paulo, depois da controversa pesquisa do Datafolha, publicada na edição de domingo, sobre as eleições de 2018.

Este blog levantou, no mesmo domingo, suspeitas sobre os 50% que apoiariam a permanência de Temer, segundo a pesquisa.

Outros blogs (todos “sujos”, claro, segundo a imprensa dita “independente”) levaram outras suspeitas adiante. E agora ficamos sabendo que a Folha omitiu um dado devastador: o eleitor não quer saber de Michel Temer, os eleitores (62%) querem novas eleições.

Leia este trecho de reportagem do jornal El país, que anuncia a publicação do mea culpa pela Folha, corrigindo os “erros” da pesquisa de domingo.

Este é o texto do El Pais:

“Para 62% dos brasileiros, uma saída para a crise política seria a renúncia de Michel Temer e Dilma Rousseff para que fossem realizadas novas eleições.

O dado consta da pesquisa feita pelo instituto Datafolha em 14 e 15 de julho, mas não apareceu nas reportagens publicadas sobre o assunto e nem no relatório da pesquisa disponibilizado pelo instituto em seu site nesta terça-feira.

A existência desta e de uma outra pergunta, a respeito da percepção popular sobre os procedimentos do impeachment, foram reveladas pelo site Tijolaço e confirmado em reportagem publicada pela própria Folha, que traz link para a nova versão do documento.

O episódio aprofunda a controvérsia em torno do mais respeitado instituto do país, que vinha sendo questionado por ter apresentado dados de maneira imprecisa em um gráfico do jornal sobre os favoráveis a uma nova votação e por supostamente não ter repetido a pergunta sobre o hipotético pleito, como no levantamento de abril”.

Agora, a pergunta: por que a Folha escondeu o dado sobre a eleição e deu manchete para o falso apoio a Temer, a partir de uma pergunta formulada de forma enviesada? (Se o melhor seria Temer ou Dilma.). O melhor estava em outra resposta: para 62%, o melhor é que se realizem eleições já.

E agora?

Está aqui o relatório da pesquisa. É constrangedor:

http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2016/07/20/av-presidente-michel-temer-completa.pdf

Pesquisas e pesquisas

A pesquisa DataFolha para a presidência da República em 2018 dá José Serra como o tucano com melhores chances, muito à frente de Alckmin e de Aécio.
Parece uma pesquisa meio bêbada. Serra? Por que Serra? Será por que está reatando relações com a França, enquanto se prepara para enfrentar a poderosa Bolívia?
Serra numa hora dessas? O jornalismo e as pesquisas andam muito estranhos.

…..

Outros dados da pesquisa do DataFolha, para mostrar que pesquisas são pesquisas: 50% preferem que Michel, o interino, continue governando, e 32% querem a volta de Dilma, enquanto 4% não querem saber de nenhum dos dois.
Vem agora o dado assustador: enquanto metade dos pesquisados diz que gostaria de ter a continuidade do interino do Jaburu no Planalto, 33% não sabem dizer o nome do atual presidente temporário da República. E 2% dizem outros nomes.
A pesquisa mostra então que um terço dos ouvidos pelo DataFolha não sabe dizer quem governa o país.
Repetindo: um terço não sabe por quem é governado. Mas 50% do total (dos quais faz parte esse um terço, claro) desejam continuar sendo governados por um sujeito de quem muitos não sabem nem o nome.
Os turcos devem ter algo a nos ensinar.