Gullar

Passados alguns dias, também decido falar em voz alta o que muitos pensaram e disseram a respeito da morte de Ferreira Gullar.
O artista da literatura da resistência estava morto há muito tempo. Quem morreu agora foi o cronista que se dedicava a destruir o que o poeta progressista havia escrito.
Com sua prosa conservadora, Gullar reproduzia com pobreza estética o senso comum dos golpistas e fazia força para aniquilar seus próprios versos.
A imagem que ficou, ainda bem, parece não ter sido a do militante adorador de Aécio Neves e de outros tucanos, mas a do poeta que engajou sua arte à luta contra a tirania.

O poeta sírio

sírio

Daria um bom debate, se não desse muita gritaria, essa história do poeta sírio que esteve na FLIP, em Paraty.

Li meia dúzia de reportagens para ver se todas tinham o mesmo tom. E tinham.

Abud Said foi xingado de babaca e ouviu vaias do público porque não quis falar sobre política e o Estado Islâmico.

E ainda – como conta o Carlos André – criticou entidades ligadas aos direitos humanos, que não saberiam nada do que se passa no seu país.

O poeta é jovem e mora na Alemanha. Claro que fugiu do horror da guerra civil, mas não sei direito se seria um perseguido.

Fugiu do debate, imagino,  porque teme represálias do Estado Islâmico – ou por que simpatiza com o terrorismo? Parece que não é o caso.

Mas, enfim, o que importa é: nós aqui, sentadinhos, quietinhos, resignados  com o golpe da turma do Michel, temos o direito de cobrar posições valentes de um sírio exilado na Europa?

Meu palpite é que aí está o bom debate. Quantos golpistas encabulados devem ter atacado o sírio por considerá-lo alienado, omisso ou covarde.

Poesia na masmorra (2)

temer

Vamos continuar imaginando. Agora, imaginemos que Michel Temer vá visitar Sarney, Cunha, Calheiros e Jucá na cadeia. Sarney fala da vida na cela e reclama que os outros, que também são poetas, não param de recitar seus próprios versos.

Mas cada um tem apenas meia dúzia de poemas, e os colegas de masmorra se repetem muito.

Michel Temer diz que pode contribuir para a variedade. E recita esta obra-prima do simbolismo paulista, de sua autoria. Ei-la:

EXPOSIÇÃO

Escrever é expor-se.
Revelar sua capacidade
Ou incapacidade.
E sua intimidade.
Nas linhas e entrelinhas.
Não teria sido mais útil silenciar?
Deixar que saibam-te pelo que parece que és?
Que desejo é este que te leva a desnudar-te?
A desmascarar-te?
Que compulsão é esta?
O que buscas?
Será a incapacidade de fazer coisas úteis?
Mais objetivas?
É por isso que procuras o subjetivo?
Para quem a tua mensagem?
Para ti?
Para outrem?
Não sei.
Mais uma que faço sem saber por quê.

Poesia na masmorra

sarney2

Imagine que se cumpra o desejo do procurador Rodrigo Janot, e Cunha, Renan Calheiros, Jucá e Sarney fiquem na mesma cela e passem o dia entreolhando-se para saber quem será o primeiro a delatar o outro.

De repente, Sarney, articulado com o juiz Sergio Moro, que adora literatura, começa a declamar seus poemas.

Não há quem aguente o pau-de-arara dos poemas do Sarney na masmorra de Curitiba. A poesia sarneiseana pode ser usada na tática da delação.

Tente imaginar Sarney lendo este poema:

Uma noite

dormiu

dentro de mim.

Mil demônios

balançando-a para lá e para cá,

a rede de linha de seda.

Ela sorria

com o odor

do cio.

Não sei se devia andar

a dizer ou recitar

acalantos.

Não quero

mais o canto do adormecer.

Quero entregar-me

para ser visto e amado, num banquete

das saudades que fugiram

ou

morreram.

Pensar-te navio que se afogou

na Praia Grande.

Teus mares

são terras de França

para onde

Maria de Médicis

mandou caravelas

para os domínios destas paisagens

onde o nome de São Luís foi dado

para dizer Maranhão:

mar e paixão.

 

As Letteras

lettera

Qual a diferença da Olivetti Lettera 82 para a Lettera 32? Eu tive uma 32 azul piscina, que durou até a metade dos anos 80. O Carpinejar tem uma Lettera 82. Foi onde datilografou os poemas do livro Amor à moda antiga, que autografa hoje às 19h na Livraria Cultura.

Milton Santos, o geógrafo, corria da rapidez de uma máquina de datilografia. Só escrevia à mão. Quando o entrevistei, pouco antes de ele morrer, me disse pelo telefone que ninguém pode pensar direito se tiver pressa.

Quem, nos últimos anos, fez o que o Carpinejar acabou de fazer e datilografou algo em uma máquina esquecida em algum canto? Ou escreveu uma linha de texto à mão?

Os próximos poemas do Carpinejar poderiam vir em composição tipográfica, como faziam os gráficos que catavam letras de ferro, uma a uma, nas gráficas escuras dos séculos 19 e 20, e depois viravam poetas. Para citar um de perto, Alceu Wamosy foi um deles.