Aleluia

A Lava-Jato tem quatro anos, mas pela primeira vez um tucano foi denunciado em São Paulo. É grande, mas é laranja. É o famoso Paulo Preto, homem de confiança de José Serra, flagrado por autoridades da Suíça com depósitos equivalentes a R$ 130 milhões.
Foi denunciado pelo MF Federal por peculato, corrupção e organização criminosa. Preto é conhecido como operador de propinas do PSDB. Agiu durante anos. E há anos todos sabiam que era o cara dos tucanos nos roloscom grana pesada.
Foi denunciado agora pelo desvio de verbas do programa de reassentamento da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A), da qual foi diretor no governo tucano de Serra de 2007 a 2010.
O que acontecerá com Preto? Talvez aconteça o que aconteceu com os tucanos investigados há uma década por causa do cartel e das propinas do metrô paulista. Nada, nada, absolutamente nada.

O JANTAR DE R$ 10 MILHÕES

Finalmente vão investigar o jaburu-da-mala no famoso caso do jantar de maio de 2014 em que Marcelo Odebrecht acerta a ‘doação’ por fora de R$ 10 milhões que seriam para o PMDB. Não seria propina, seria doação.
O jaburu era vice-presidente da República e presidente do PMDB. R$ 6 milhões seriam encaminhados para a campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo. Os outros R$ 4 milhões ficariam aos cuidados de Padilha.
Sempre que a história desse jantar no Palácio do Jaburu aparece na imprensa é lembrado que Marcelo Odebrecht, ao delatar o caso, diz que o jaburu ausentou-se da mesa do jantar na hora do acerto da dinheirama.
O jaburu afasta-se entre a sobremesa e o cafezinho (e vai para o banheiro ou circula entre as emas nos jardins?). Ficam ali Marcelo, mais Claudio Melo Filho, diretor da empreiteira, e Padilha, então deputado federal.
Marcelo diz que o jaburu sabia de tratativas, mas decidiu afastar-se no momento da negociação.
Melo Filho já conta diferente, diz que o jaburu foi quem pediu o dinheiro ao empreiteiro, já no começo da conversa, sem muitos rodeios.
O desencontro aqui parece envolver um detalhe: na versão de Marcelo, o jaburu não teria ficado sabendo que R$ 6 milhões iriam para Skaf e que R$ 4 milhões iriam para Padilha. E Melo Filho compromete o jaburu.
Por que esse desencontro? Para que Marcelo livre a cara do jaburu sobre detalhes da partilha do dinheiro, já que R$ 4 milhões seriam da cota deles, do jaburu e de Padilha?
O que importa é que agora o ministro Edson Fachin atendeu a pedido da procuradora-geral, Raquel Dodge, e autorizou a investigação.
Até aqui, o jaburu estava sob a proteção de uma interpretação da Constituição, segundo a qual o presidente não pode ser responsabilizado por ato cometido que seja alheio ao seu mandato.
Rodrigo Janot, o antecessor de Raquel, assim havia entendido e poupado o jaburu. Nunca ninguém mais tratou do assunto, que passou rápido pela imprensa depois do golpe.
Raquel e Fachin entendem que o jaburu não pode mesmo ser responsabilizado agora, mas pode sim ser investigado.
Isso quer dizer o quê? Que o jaburu, que já foi denunciado por formação de quadrilha com Padilha e Moreira Franco (pelo próprio Janot, mas a denúncia foi rejeitada pelo Congresso) pode enfrentar mais uma bronca.
Vamos chamar de bronca mesmo, talvez apenas uma bronquinha, porque alguém acredita que isso dará alguma coisa?
Só se o caso fosse cair em Curitiba, com julgamento em segunda instância em Porto Alegre e o investigado fosse, claro, não o jaburu, mas Lula, e o jantar tivesse acontecido no tríplex do Guarujá ou no sítio de Atibaia.

A PROPINA DA GLOBO

Está protocolada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) uma representação em que PT, PDT e PSOL acusam a rede Globo de ter ferido a concorrência no caso de propinas da Fifa.
Os partidos também acionaram a Procuradoria-Geral da República para que investigue o crime denunciado por um delator. E ainda pediram ao Ministério da Ciência e Tecnologia que casse a concessão da TV, porque a Globo, ao pagar por fora para obter licença de transmissão de jogos, feriu a Lei Geral de Telecomunicações.
O que vai dar disso tudo? Nada. Nem no Cade, nem no MP e muito menos no Ministério do jaburu. Talvez dê alguma coisa na Suíça ou nos Estados Unidos.
Só teria alguma consequência aqui se tivesse uma reforma em uma cozinha ou se achassem pedalinhos e barcos de alumínio. Não vai dar nada. Nunca dará nada. Nada, nada, nada. A não ser que um filho do Lula apareça na história como homem forte da Fifa.

O truque da auditoria

A conversa da Globo de que fez auditoria nas suas contas e não descobriu pagamento de propinas é uma armadilha para incautos. A direita está certa de que o país se imbecilizou a ponto de aceitar qualquer explicação.

O truque foi consagrado pelos tucanos na Lava-Jato. Se alguém fez algo errado, não foi o comando da Globo, foi um subalterno. E uma auditoria poderia descobrir a mutreta.

A Globo transfere o rolo com as propinas do futebol para algo ou alguém que poderia estar fora do seu controle. Ou seja, se a propina for confirmada, a Globo dirá que alguém de escalões inferiores cometeu o crime, mas não a Globo.

A Globo adota a tática do PSDB. Nunca a culpa é deles, nem mesmo dos tesoureiros deles, quando há corrupção comprovada. Não há um tesoureiro tucano investigado, um só.

A culpa sempre é de alguém sem ligação orgânica com o partido, um operador, um agregado, um tarefeiro. É assim nos casos que investigam Serra, Alckmin, Aécio, Aloysio Nunes e os governos tucanos desde os anos 90 em São Paulo.

Nunca vai aparecer, no caso do metrô, por exemplo, um cacique tucano no rolo ou alguém do partido. O condenado é sempre um gerentinho do metrô. Não há um tucano condenado pela máfia do trem dos governos do PSDB. Só ajudantes prestativos.

Com a conversa da auditoria, a Globo está apenas tentando enganar trouxa. A média da população, segundo a Globo, vai entender que uma auditoria interna é algo esclarecedor. E todos os dias eles vão anunciar que a auditoria interna não descobriu nada.

Enquanto isso, um já se matou na Argentina, um peruano ameaçou o delator Alejandro Burzaco de degola e o próprio delator está em crise nervosa em Nova York.

A Globo se meteu com gente da pesada da máfia internacional do futebol. Mas um gerente de terceira linha vai pagar o pato. No Brasil, a teoria do domínio do fato só vale para condenar gente do PT.

Por que Aécio poupa a Veja?

Aécio Neves foi à tribuna do Senado hoje para se defender da acusação de um delator de Odebrecht de que recebia propinas em uma conta em Nova York.

Atacou o delator e atacou até Dilma Rousseff, dizendo que ela explora sua dor pessoal (imagine um acusador juramentado da estirpe de Aécio se queixando de dores pessoais).

Mas não atacou a revista Veja, que o colocou na capa como propineiro. Se a denúncia é uma mentira, se Veja inventou a história, como ele já disse, por que não anuncia que vai processar a revista?

Por que Aécio não encara Veja? O que mais Veja sabe de Aécio, com quem trocava afagos públicos até o tucano cair em desgraça?

O veneno da direita pega a família de Aécio

Poucos políticos comemoram tanto a caçada a Lula e aos parentes de Lula quanto Aécio Neves. No dia 4 de março, quando Lula foi surpreendido em casa pela Polícia Federal, no famoso episódio da condução coercitiva, também Fábio Luiz da Silva, filho de Lula, foi alvo das batidas da PF.

A partir dali fechou-se o cerco à família de Lula. Aécio comemorou pelo twitter: “Os graves indícios de irregularidades e crimes cometidos à sombra do projeto de poder do PT finalmente estão vindo à luz”. E disse que o caso da família Lula não era da política, “mas de polícia”.

Não houve, por parte de Aécio e de nenhum tucano, nenhuma restrição ao cerco aos filhos de Lula e à mulher dele, Marisa Letícia, depois tornada ré pelo juiz Sergio Moro. O que houve foi uma permanente comemoração.

Depois, alguns tucanos foram chorar no velório de Marisa Letícia. Mas a maioria só está chorando agora, quando a irmã de Aécio aparece de novo como receptora das propinas do neto de Tancredo Neves.

Andréa Neves experimenta o que os parentes de Lula enfrentam (inclusive um irmão), desde o momento em que a direita decidiu, com a ajuda de parte do Ministério Público e do Judiciário, que pegar o ex-presidente não bastava. Era preciso destruí-lo com a destruição também de seus familiares.

Aécio acha que delatores, a revista Veja (sua antiga aliada) e as instituições estão desrespeitando sua família.

Aécio não está sendo comido pela Justiça, que sempre poupou os tucanos em todos os escândalos em que se envolveram. Está sendo devorado pelos próprios parceiros, com a mesma tática usada contra Lula.

Acredite: vão ouvir Aécio

Aécio Neves finalmente será ouvido sobre o caso de Furnas. É quase inacreditável. A decisão é do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que há uma semana pediu mais tempo para investigar o tucano.

Em maio, fará um ano que Aécio está sob investigação do Ministério Público por suspeita de receber propinas de Furnas (já foi delatado meia dúzia de vezes).

Mas até agora nada se sabe do que foi apurado pelas investigações, porque a direita sempre goza dos benefícios do segredo de Justiça.

Segredo de Justiça no Brasil funciona bem quando o investigado é do PSDB.

Não dá nada

Chegaram ao milhão que a OAS deu de propina para Rodrigo Maia. É descoberta da Polícia Federal.
Antes, por delação, haviam chegado ao milhão que a Andrade Gutierrez deu ao homem do Jaburu.
E agora? Agora são R$ 2 milhões. Com o que foi mandado para o Serra na Suíça, são R$ 25 milhões.
Com mais os R$ 10 milhões do Sérgio Guerra, mais os milhões do…
Quem quiser que continue. Mas esta é uma matemática que não dá em nada.

As propinas na obra de bilhões de Aécio Neves

Vai e volta e a imprensa redescobre as histórias escabrosas de Aécio Neves. Hoje, a manchete da Folha é sobre as propinas que ele negociou com a Odebrecht, quando era governador de Minas, para construção da Cidade Administrativa, a nova sede do governo.

A obra custou apenas R$ 2,1 bilhões em 2010. É preço de hidrelétrica. A reportagem conta em detalhes, a partir da delação de um vice-presidente da empreiteira, como o próprio Aécio participou das reuniões para negociação da propina.

E daí? E daí que este deve ser o décimo delator de Aécio. E vai acontecer o quê? Vai acontecer o aconteceu com a lista de Furnas, há quase um ano sob investigação no Ministério Público Federal, e com o mensalão mineiro, em que o tucano também é investigado.

Nada, nada, nenhuma delação, nenhuma suspeita, nenhum indício e nenhuma prova abalam Aécio Neves. Falta, quem sabe, convicção por parte da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça.

Mais um

Poucos ofereceram tanta munição pretensamente ‘técnica’ para o golpe quanto João Augusto Nardes, ministro do Tribunal de Contas da União. Nardes foi o relator das contas de Dilma no TCU e concedia uma entrevista por dia para falar das pedaladas.
Era um dos líderes da cruzada ‘moral’ que provocou o golpe e acabou levando corruptos ao poder. Até que o nome dele começou a aparecer nas delações como recebedor de propina. Hoje, tem mais uma notícia sobre Nardes.
O ex-diretor da Petrobras Renato Duque delatou o ministro como recebedor de R$ 1 milhão, para que ele não apresentasse argumentos legais no TCU contra o contrato de uma plataforma metida em rolo.
A propina teria sido negociada em jantar na casa de Nardes, diz a notícia da Folha. E vai acontecer o quê?
Eu sei e quem me lê aqui também sabe muito bem o que vai acontecer. Por isso nem me arrisco a responder. Nardes anda sumido.