E OS MILICIANOS?

A Lava-Jato tenta limpar a barra e, num momento ruim, anuncia que investiga bancos suspeitos de omissão ou conivência com a lavagem de dinheiro.
O que se conclui: é possível até investigar os bancos, mas poucos se atrevem a tocar nos milicianos do Rio amigos dos Bolsonaros.
Os promotores que tentaram, no caso do Queiroz, se deram mal.

VAI SOBRAR O QUEIROZ

Está aberto o processo de impeachment de Trump na Câmara. É a manchete de todos os jornais do mundo.
Agora imaginem a cena na ONU. Trump no maior pavor, pouco antes do anúncio da abertura do processo, e Bolsonaro correndo atrás dele pelos corredores para tentar falar da vaga para o filho em Washington e para tirar uma foto. É muita chinelagem.
Está ruim a situação da direita do Bolsonaro, e não só de Trump. Guaidó, o golpista fracassado, sumiu e reapareceu em fotos ao lado de traficantes.
Macri está tão mal que perderá a eleição para Fernández e Cristina já no primeiro turno.
Sartori, o bolsonarista uruguaio, nem vai disputar a eleição de outubro, porque não passou nas prévias dos blancos. Boris Johnson, o Trump britânico, está sendo forçado a renunciar.
E Benjamin “Bibi” Netanyahu talvez só sobreviva politicamente se compartilhar o poder com os adversários em Israel.
Os amigos de Bolsonaro estão tombando. Vai sobrar o Queiroz, sempre impune, como governador de Rio das Pedras. Mas Queiroz é forte.

O SUPREMO É REFÉM DO CHEFE DO QUEIROZ?

O Estadão dedicou esses dias longa reportagem às articulações de bastidores de Flávio Bolsonaro. O filho mais afeito a negócios, como gestor da fortuna da família e das relações com os milicianos, teria incorporado o papel de negociador do governo no Congresso e até no Supremo.

Flávio é apresentado como interlocutor importante inclusive de Dias Toffoli. Porque é ele o encarregado de barrar a CPI da Lava Toga.

O sujeito cercado pelo Ministério Público do Rio e beneficiado por uma decisão do mesmo Dias Toffoli trata com Toffoli de uma estratégia para impedir uma CPI que investigaria Toffoli e seus colegas de Corte.

É muito Toffoli na vida de um Bolsonaro acusado de comandar uma quadrilha.

Hoje, o Globo tem outra reportagem sobre Flávio, em que o senador é apresentado como o encarregado pelo PSL de mapear e comandar todas as possibilidades de vitória do partido nas eleições municipais.

Flávio Bolsonaro está num purgatório, beneficiado pela decisão de Toffoli que tira do MP o poder de investigá-lo a partir de informações sobre suas movimentações financeiras. Mas circula nas altas rodas togadas.

As sindicâncias contra Flávio e Queiroz podem desvendar todo o esquema mafioso das milícias cariocas. Mas estão paradas, e o homem continua agindo, enquanto o pai aparelha o que pode para protegê-lo.

Enquanto os promotores do Rio são amordaçados, o amigo dos milicianos manobra em várias frentes, incluindo o Supremo.

Numa situação normal, Flavio Bolsonaro estaria a caminho da cassação.

Mas a nossa normalidade de hoje o transforma em interlocutor do presidente do STF. O Supremo beneficia Flávio e Flávio retribui erguendo a trincheira contra a CPI que ameaça o Supremo.

Os ministros da mais alta Corte do país estariam reféns do chefe do Queiroz?

Dá o dinheiro para o Queiroz

Um grupo de países oferece a Bolsonaro o dinheiro que ele diz não ter para cuidar do que não cuida.
Mas Bolsonaro, o pior presidente do mundo, o mais humilhado, o mais desprezado, diz que só aceita o dinheiro para cuidar da Amazônia se Macron, que o chamou de mentiroso, admitir que o insultou.
Bolsonaro, o insultador, o cara processado pelo Supremo por dizer que não estupraria uma mulher feia, o disseminador de ódios e preconceitos, obrigando alguém a pedir desculpa é um deboche internacional.
Bolsonaro determinou publicamente, há muito tempo, o fim do politicamente correto, porque achou que venceria todas, mas encontrou um Macron pela frente.
Pega esse dinheiro, Bolsonaro, e pelo menos finge que cuida da Amazônia, ou manda logo o dinheiro para o Queiroz. Emprestado, claro.

O BRASILEIRO SILENCIOSO

Antes do golpe, muita gente ficou calada com o argumento de que não acreditava no êxito dos golpistas. Quando o golpe se consumou, continuaram quietos, porque imaginavam que aquilo não iria durar muito.

Quando prenderam Lula, os quietos aquietaram-se ainda mais, como se aquele fosse um drama do PT, até porque alguns diziam que Lula logo seria solto.

Quando Bolsonaro levou a facada e disparou nas pesquisas, teve gente que não acreditou no que iria acontecer, e preferiu de novo não se mobilizar contra nada, não abrir a boca, não palpitar, porque era preciso esperar.

Bolsonaro se elegeu e os quietos continuaram silenciosos, porque a situação era confusa, os interesses não estavam bem claros, a família estava dividida e o país seria salvo por algum milagre.

Quando Sergio Moro decidiu participar do governo e confirmou-se o golpe do Judiciário, como todo mundo previa, os silenciosos ampliaram seus silêncios, porque Moro era o guru da classe média ressentida e poucos tinham coragem de questionar o juiz caçador de corruptos.

Bolsonaro, Moro, os milicianos, Queiroz, os filhos de Bolsonaro, os armamentistas, os desmatadores, os grileiros, o agronegócio, os fabricantes de veneno, os assassinos de Marielle, os destruidores da educação, os adoradores de torturadores, todos eles se apoderaram do país.

E os quietos estão cada vez mais encaramujados. Os quietos são, pela quietude, parte do conluio.

Os silenciosos manejam a pior das políticas, a política do drible, do negaceio, do não-sei-nada-disso, do me-deixa- fora, do isentão e do isentinho que têm mil desculpas para não dizer e não fazer nada.

O brasileiro silencioso, acomodado na sua mudez, é o pior dos bolsonaristas, porque sua aparente neutralidade apenas fortalece a extrema direita.

O sujeito quieto, que se omite diante de todas as questões postas pelo bolsonarismo, é mais cúmplice da destruição do país do que os que aliaram ao golpe de 64 de peito aberto, como a maioria dos adesistas fez.

O omisso tenta ficar encoberto pelas próprias desculpas. Muitas vezes, domina a família, alguns amigos e até orienta posições onde trabalha. A posição dele é não ter posição, e aí é que está a posição do quietão dissimulado.

O silencioso é o colaboracionista que, como fizeram na Paris ocupada, recolheu-se ao seu acovardamento porque não queria se indispor com o entorno que havia virado nazista.

Mas hoje o cara isentão e omissão não chega a ser alguém com medo, que teme perder emprego, amigos e a admiração da direita, Ele é na essência um acomodado no desconforto geral. O desalento dos que estão na volta aprofundam sua acomodação.

O omisso vive das sobras da desgraça geral, porque ele não é da elite, não é rico, mas flana entre os que se beneficiam da desgraceira como se fosse um deles.

O silencioso se apresenta como um ser acima dos dilemas postos pelos entreveros políticos, como um cara com sabedoria superior. O brasileiro quieto está acovardado e tenta se convencer de que deve se orgulhar da sua covardia.

O QUE OS MILICIANOS TÊM QUE OS POLÍTICOS CORRUPTOS NÃO TÊM?

Sergio Moro e Deltan Dallagnol, que sempre emitiram opiniões categóricas sobre decisões que restringem a caçada a corruptos, ficarão quietos diante do canetaço de Dias Toffoli que blinda os milicianos cariocas?
Nenhum dos dois vai dizer que a decisão conspira contra os que combatem o crime organizado?
Este ano, em março, Moro e Dallagnol atacaram o Supremo quando o STF decidiu que processos da Lava-Jato que envolvem caixa dois e demais atos associados a crimes comuns, como corrupção, deveriam tramitar na Justiça Eleitoral.
Moro achava que o Supremo estava jogando no colo da Justiça Eleitoral crimes complexos que esta não poderia avaliar e julgar. Moro subestimou a Justiça Eleitoral e mais uma vez criticou a mais alta Corte do país.
O mesmo fez Dallagnol, sobre o mesmo assunto, quando disse que, ao enviar os processos para a Justiça Eleitoral, os ministros “mandavam mensagem de leniência”. Aqui no sentido de tolerância com o crime. Ele quis dizer e disse que os ministros faziam concessões a corruptos.
O procurador que era chefiado por Moro na Lava-Jato chegou a ter sua declaração investigada pelo Conselho Nacional do Ministério Público, por solicitação de Dias Toffoli.
Não deu em nada. Dallagnol disse que agir com leniência era uma coisa e ser leniente era outra. Ser leniente talvez fosse o que ele fazia em relação a Sergio Moro, que agia como seu chefe na Lava-Jato e ele se resignava diante das ordens do juiz.
Agora, quando a decisão de Toffoli benenficia o filho de Bolsonaro e acaba por beneficiar também Queiroz e os milicianos do Rio, Moro e Dallagnol ficaram quietos.
Toffoli não estaria conspirando contra os que fazem a guerra de combate ao crime organizado? Por que Moro e Dallagnol, sempre tão desafiadores das decisões do Supremo, agora estão calados?
O que os milicianos têm que os outros corruptos não têm?

Rubens Valente e o casal poupado

Artigo de Rubens Valente hoje na Folha sobre um assunto que a imprensa esqueceu. A constrangedora manobra do Ministério Público Federal que blindou os Bolsonaros. Aqui se entende como o casal irá escapar, se pegaram mesmo o filho de Bolsonaro e a turma do Queiroz.
Este é o texto:

INVESTIGAÇÃO SOBRE O CASO QUEIROZ POUPA O CASAL BOLSONARO

Rubens Valente

O escritor Ivan Lessa (1935-2012) dizia —ou pelo menos dizem que ele dizia— que, a cada 15 anos, o país esquece o que aconteceu nos 15 anteriores. Em tempos de “Justiça seletiva”, uma expressão que está na moda, cabe atualizar a conta para um ou dois anos.
Vejamos o caso de Fabrício Queiroz. O ex-assessor amigo da família Bolsonaro tinha uma conta bancária turbinada com parte dos salários de assessores da Assembleia Legislativa do Rio. Dinheiro público, portanto. Nessa mesma conta foi compensado um cheque de R$ 24 mil em benefício da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
Após um sintomático delay de 38 horas, o presidente saiu em defesa da mulher. Disse que Queiroz devolvera dinheiro de um empréstimo pessoal seu e que o valor total na verdade era maior, R$ 40 mil, quitado em prestações.
Desde então sabemos que a conta alimentada com dinheiro público também alimentou o casal Bolsonaro. Isso posto, o que fez o sistema judicial encarregado de apurar o caso Queiroz? Quebrou o sigilo da primeira-dama ou do presidente? Não. Tentou ouvi-los em depoimento? Não. Ao menos instou o presidente a esclarecer alguma coisa por escrito? Não.
Os responsáveis por esse lapso têm endereço: o Ministério Público Federal no Rio e a Procuradoria-Geral da República em Brasília. Os dois órgãos abriram mão do caso, que acabou enviado ao Ministério Público estadual, preso a limites jurídicos e políticos. Simplesmente não pode intimar Bolsonaro, por exemplo.
Até pouquíssimo tempo atrás policiais, procuradores e juízes sabiam que a mera menção a autoridades com foro privilegiado paralisava a apuração, que devia ser imediatamente enviada ao tribunal competente para prosseguimento. De repente, não é mais assim no Brasil. E nenhuma autoridade constituída reage contra essa proteção ao casal Bolsonaro, que em outro momento histórico seria chamada de blindagem judicial.

FUX, LULA E QUEIROZ

Não se sabe até agora o que Luiz Fux pensa do fim da mordaça que ele impôs a Lula, impedido de conceder entrevista a Monica Bergamo, da Folha. Fux, tão falante, está calado.
Não vamos esquecer que, ao mesmo tempo em que censurava Lula, Fux tentou impedir o andamento do processo contra Fabrício Queiroz no Ministério Público do Rio.
Fux estava de plantão no Supremo e foi muito atencioso ao apelo de Flavio Bolsonaro, ex-patrão do sujeito. O processo só voltou a andar porque o ministro Marco Aurélio cassou a decisão favorável à dupla amiga das milícias.
É provável que Lula seja finalmente entrevistado. Mas quem garante que Queiroz será um dia obrigado a falar? Lula queria ser ouvido por Monica Bergamo e Fux não deixava.
O Ministério Público queria ouvir Queiroz, e Fux tentou impedir. Mesmo com o processo destravado, Queiroz nunca prestou depoimento sobre o caso da caixinha com dinheiro de assessores de Flavio Bolsonaro, que beneficiou até a primeira-dama.
Será linda a Páscoa do Queiroz.