AS LIÇÕES ÉTICAS DE UM BOLSONARISTA

Leiam esse trecho do mais exaltado moralismo edificante e informem-se abaixo sobre seu autor.
“A vida nos ensina muitas coisas. Uma das principais é ser inabalável nas posturas de cunho ético. Eventualmente há maus comerciantes que se aproveitam da ingenuidade de clientes, parceiros ou fornecedores e acabam levando vantagem financeira indevida. No entanto, o mercado é implacável; em pouco tempo ele “fica queimado na praça” e a loja acaba fechando. Na verdade, o vacilo ético, cedo ou tarde, desmoraliza aquele que o pratica”.
O autor dessa pérola, de 2017, que pode ser encontrada com busca no Google, é o bolsonarista Vitor Augusto Koch, investigado por desvios de mais de R$ 10 milhões na Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Sul, reduto da direita bolsonarista militante.

O JANTAR DE R$ 10 MILHÕES

Finalmente vão investigar o jaburu-da-mala no famoso caso do jantar de maio de 2014 em que Marcelo Odebrecht acerta a ‘doação’ por fora de R$ 10 milhões que seriam para o PMDB. Não seria propina, seria doação.
O jaburu era vice-presidente da República e presidente do PMDB. R$ 6 milhões seriam encaminhados para a campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo. Os outros R$ 4 milhões ficariam aos cuidados de Padilha.
Sempre que a história desse jantar no Palácio do Jaburu aparece na imprensa é lembrado que Marcelo Odebrecht, ao delatar o caso, diz que o jaburu ausentou-se da mesa do jantar na hora do acerto da dinheirama.
O jaburu afasta-se entre a sobremesa e o cafezinho (e vai para o banheiro ou circula entre as emas nos jardins?). Ficam ali Marcelo, mais Claudio Melo Filho, diretor da empreiteira, e Padilha, então deputado federal.
Marcelo diz que o jaburu sabia de tratativas, mas decidiu afastar-se no momento da negociação.
Melo Filho já conta diferente, diz que o jaburu foi quem pediu o dinheiro ao empreiteiro, já no começo da conversa, sem muitos rodeios.
O desencontro aqui parece envolver um detalhe: na versão de Marcelo, o jaburu não teria ficado sabendo que R$ 6 milhões iriam para Skaf e que R$ 4 milhões iriam para Padilha. E Melo Filho compromete o jaburu.
Por que esse desencontro? Para que Marcelo livre a cara do jaburu sobre detalhes da partilha do dinheiro, já que R$ 4 milhões seriam da cota deles, do jaburu e de Padilha?
O que importa é que agora o ministro Edson Fachin atendeu a pedido da procuradora-geral, Raquel Dodge, e autorizou a investigação.
Até aqui, o jaburu estava sob a proteção de uma interpretação da Constituição, segundo a qual o presidente não pode ser responsabilizado por ato cometido que seja alheio ao seu mandato.
Rodrigo Janot, o antecessor de Raquel, assim havia entendido e poupado o jaburu. Nunca ninguém mais tratou do assunto, que passou rápido pela imprensa depois do golpe.
Raquel e Fachin entendem que o jaburu não pode mesmo ser responsabilizado agora, mas pode sim ser investigado.
Isso quer dizer o quê? Que o jaburu, que já foi denunciado por formação de quadrilha com Padilha e Moreira Franco (pelo próprio Janot, mas a denúncia foi rejeitada pelo Congresso) pode enfrentar mais uma bronca.
Vamos chamar de bronca mesmo, talvez apenas uma bronquinha, porque alguém acredita que isso dará alguma coisa?
Só se o caso fosse cair em Curitiba, com julgamento em segunda instância em Porto Alegre e o investigado fosse, claro, não o jaburu, mas Lula, e o jantar tivesse acontecido no tríplex do Guarujá ou no sítio de Atibaia.