NICO

Nico Noronha foi um grande repórter e um dos jornalistas mais divertidos que conheci. Escrevia com atrevimento e alegria. Fomos colegas na Zero Hora.
Há menos de duas semanas, agora no dia 8, no Bar do Alexandre (conhecido também como Bar do Alemão), no Menino Deus, reencontrei Nico depois de muitos anos, nem sei quantos.
Ele me mandava mensagens com um apelo: vem ao bar que eu faço um churrasco. Eu demorei meses para me submeter à sua sedução. Pois Nico comprou a carne e pediu para que o amigo Paulista pilotasse a churrasqueira de latão na calçada do Bar do Alexandre.
Estávamos lá eu, o Alexandre Kohls, o Carlos Wagner, o Elton Werb, a mulher do Nico, a Marinês, e outros parceiros do Menino Deus.
Adiei muito esse reencontro e vi Nico naquele dia 8 para o que seria nossa despedida. O que me lembro agora é que ele estava feliz e muito engraçado naquela noite. Quem passava na calçada puxava conversa com Nico.
Nico Noronha morreu hoje à tarde. Agora há pouco falei com o Alexandre e o Wagner e concluímos que ele estava sempre assim, numa boa.
Obrigado pelo churrasco e pela alegria, Nico. Obrigado por teus textos, pelo afeto, pelo reencontro e por ter me chamado para o último abraço.

O lado certo

banguebangue

Não conheço Matheus Chaparini, o repórter preso quando da desocupação do prédio da Secretaria da Fazenda, na quarta-feira. Mas conheço seu chefe, o grande Elmar Bones, diretor do jornal Já, o cara que ajudou a mudar a cara da imprensa gaúcha nos anos 70 com a Folha da Manhã.

Matheus fez na quarta-feira o que qualquer jornalista de campo gostaria de fazer. Acompanhou uma ação policial de dentro da baleia. Estava misturado a estudantes e policiais na hora de desocupação. Percebe-se, pelo vídeo que fez, que se posiciona sempre ao lado dos estudantes. Por isso acabou preso como um deles.

É um detalhe importante. Se estivesse ao lado dos policiais, não levantaria suspeitas. Em situações de conflito como aquela, o jornalista está, quem sabe na maioria das vezes, ao lado dos policiais. Nas mais variadas circunstâncias (como em guerras e intervenções violentas em favelas, por exemplo), repórteres ficam na retaguarda, atrás da polícia.

O erro cometido por Matheus, na visão da Polícia e da Brigada, pode ter sido este: ele estava onde estavam os estudantes, porque deve ter entrado com a turma do protesto, para acompanhar tudo de perto.

Se agiu errado, grandes jornalistas (vou citar um, Caco Barcellos, que começou como repórter do Elmar na Folha), de texto, de áudio e de imagem, cometem esse erro com frequência. E sem esse “erro” não existiria uma das grandes façanhas do jornalismo.

Estudantes de jornalismo devem ler sobre o Clube do Bangue-Bangue (quatro fotógrafos malucos que atuaram nos piores momentos dos conflitos entre brancos e negros na África do Sul, nos anos 90). Muitos acham que eles não devem servir de referência de como cobrir conflitos, porque passavam dos limites, mas sem eles não saberíamos quase nada dos massacres provocados pelo governo racista.

E eu vou dar um exemplo, em outro estágio, com outras circunstâncias, com personagem local. O repórter Rodrigo Lopes, da Zero, foi jornalista infiltrado quando conseguiu entrar na embaixada do Brasil em Honduras, em 2009, onde estava asilado o ex-presidente Manuel Zelaya. Poderiam ter dito, como fizeram com Matheus, que Rodrigo era da turma de Zelaya.

O que importa, no caso de Matheus, é que ele conseguiu o que o repórter busca sempre. Ficou perto da trincheira do alvo policial, e não sob a proteção da BM. Matheus fez o certo, naquele cenário, e isso não será constatado daqui a alguns anos, como lição a ser aprendida. Constata-se agora. É fato. Matheus foi repórter. Inspire-se em Caco Barcellos, para seguir no exemplo (poderiam ser muitos outros), e vá em frente.