Os monges do Supremo

Notícias de jornais informam que os ministros do Supremo estão escandalizados com a briga entre Gilmar Mendes e Luis Roberto Barroso. Mendes acusa Barroso de soltar corruptos e Barroso chama Mendes de mentiroso e de mudar a jurisprudência de acordo com o réu. E seus pares se surpreendem.

Deve mesmo ser um escândalo. O Supremo é o reduto dos monges. É só relembrar alguns exemplos da boa conduta dos colegas dos brigões.
Em 2007, quando Joaquim Barbosa se preparava para assumir a relatoria do mensalão, dois ministros trocaram mensagens pelo computador, flagradas pelo fotógrafo Roberto Stuckert Filho, do Globo.

Os dois ministros fofoqueavam sobre os grupos formados no STF, sobre a apresentação da denúncia e sobre as posições dos colegas, quando Barbosa virou tema da conversa. Um deles escreveu: “Esse vai dar um salto social”.

“Esse” era Joaquim Barbosa, o único negro do STF. A frase foi escrita pela atual presidente do Supremo, Carmén Lúcia. O interlocutor dela nas fofocas era Ricardo Lewandowski, revisor do mensalão, que passaria todo o julgamento brigando com Barbosa.

O próprio Lewandowski daria mais diante seu salto social, quase um duplo twist carpado, como presidente do Supremo, ao comandar a famosa sessão do Senado de 31 agosto do ano passado que aplicou o golpe em Dilma Rousseff.

Os ministros do Supremo estão surpresos com a briga Gilmar-Barroso porque esqueceram outra escaramuça, entre tantas outras, envolvendo o mesmo Gilmar e Joaquim Barbosa.

Foi em abril de 2009. Em determinado momento de um bate-boca, Mendes diz a Barbosa que ele não tem condições de dar lições em ninguém. E Barbosa responde: “Vossa excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso”.

Como aconteceu esta semana na briga com Barroso, o duelo foi encerrado com Gilmar Mendes nocauteado, com um sorriso de canto de boca. Nunca se ficou sabendo detalhes da história dos capangas.

Por isso, porque não se lembram de outros barracos e atitudes esdrúxulas (para usar uma palavra leve), os ministros disseram aos jornais que estão constrangidos com a última briga.

Tão constrangidos como ficaram na sessão que livrou Aécio e empurrou seu caso para a Câmara, quando a ministra Cármen Lúcia não conseguiu tornar compreensível o que afinal havia decidido, no voto de minerva em favor do tucano.

Por tudo isso, se quiserem bons exemplos para tentar reordenar suas vidas, pequenos e grandes bandidos sabem que qualquer exemplo, por mais básico que seja, não será encontrado neste Supremo.

O deboche

O pior mesmo para o ministro Lewandowski (depois de dizer que o impeachment foi “um tropeço da democracia”).é suportar a partir de agora a ironia de gente como Janaína Paschoal
Recebi o link do meu amigo jornalista Adriano Barcelos. Não tem como não compartilhar o deboche que a consultora do golpe postou no Twitter nesse recado dirigido aos seus “Amados”…

janaina

O tormento de Lewandowski

Guardo bem as intervenções de amigos e colegas que esperavam pelo grande fato capaz de interromper o golpe. Um gesto grandioso que determinasse: parem, em nome da democracia.
Esse gesto, para mim, poderia partir do ministro Ricardo Lewandowski. Imaginei que no dia final, o da votação, o ministro diria para a mulher durante o café da manhã, enquanto passava a manteiga no pão: não vou participar de um tropeço da democracia.
Lewandowski chegaria ao Senado com a cabeça erguida e, ainda em pé, anunciara: sigam vocês com esse processo, porque não posso ofender o Supremo e os que elegeram quem vocês desejam cassar.
Mas Lewandowski fez apenas uma última concessão, o encaminhamento da votação que permitiu a Dilma a preservação dos direitos políticos. Foi como acalmou parte do seu drama pessoal.
Desde então, Lewandowski deve ser um homem atormentado. Por isso declarou agora que o impeachment foi “um tropeço da democracia”.
É provável que, com o tempo, daqui a alguns anos ele fale mais e trate o golpe pelo nome.