O cara da metralhadora

O famoso Bar Luiz, no centro do Rio, pode fechar no sábado porque tem dívidas e perdeu clientela. Mas ainda tentam salvá-lo.
Gente de todas as áreas se mobiliza pra chamar a atenção para a situação do bar e adiar o fechamento. E aí o governador do Rio avisa que vai aparecer lá e tomar uns chopis.
Agora, pensa bem. Tu tá lá com a tua turma e aparece Witzel, o cara da metralhadora, pra fazer marketing.
O bolsonarista chega e começa a confraternizar com todo mundo, como se fosse parte do lugar, com aquele jeitão folgado de amigo de miliciano. Não dá.
Coitados dos que tentam salvar o Bar Luiz.

O MASSACRE LEGALIZADO

A ordem é atirar, porque depois a Justiça dá um jeito. Por isso mataram um músico no Rio. Soldados do Exército dispararam 80 tiros no carro em que ele estava com a família.
Está na proposta do ministro Sergio Moro de atenuar os crimes das polícias. Está no discurso do bolsonarismo. O medo, a surpresa e a violenta emoção são as desculpas do fascismo. Atirem.
Se for negro, atirem 80 vezes com fuzis. Evaldo dos Santos Rosa era negro. Matam negros todos os dias. Negros e pobres. De cada 10 mortos por polícias no Brasil, seis são negros.
E os liberais brasileiros defensores da democracia, da lei e da ordem? Os liberais são os covardes desses tempos tenebrosos. Encolheram-se, esconderam-se, acadelaram-se.
Os liberais dos fóruns das liberdades agora fazem eventos para desfrutar do iluminismo de Olavo de Carvalho.
Revelam a verdadeira vocação para o fundamentalismo da extrema direita. Os liberais se lambuzam sem culpas no bolsonarismo.

POBRE RIO

O Rio deveria ser para sempre a cidade mais bela e alegre do Brasil, porque o Rio era o que toda cidade gostaria de ter sido. Era.

O Rio se transformou no centro irradiador de desgraças políticas e de tantas outras desgraças, em todas as áreas.

O Rio tem um prefeito que vê o diabo se movimentando entre o povo que o elegeu, porque o prefeito odeia Carnaval.

O Rio elegeu um prefeito fundamentalista que abomina as liberdades e a alegria da cidade. E agora elegeu um governador também fundamentalista que estimula a polícia a matar quem se mexer e estiver sob suspeita.

E os que estão sempre sob suspeita são os jovens pobres e negros, que são mortos mesmo quando não se mexem. Os pobres elegeram esse governador.

O Rio inventou as milícias. E as milícias chegam agora ao poder como amigas dos Bolsonaros, porque o Rio também nos deu os Bolsonaros. Os Bolsonaros são uma genuína invenção carioca.

Esse Rio tão lindo propaga desgraças políticas e convive com todo tipo de tragédia, das ditas ‘naturais’, que também pune os pobres, às tragédias anunciadas, como essa do incêndio no Flamengo, num lugar que deveria estar interditado.

O clube mais popular do Brasil faz o Brasil chorar com a morte de adolescentes vindos de toda parte do país para levar adiante o maior de todos os sonhos de um menino brasileiro. Eles queriam ser craques. O Rio mata Marielles e mata craques.

Mario Quintana disse do Rio que seus túneis tinham a função de fazer seus olhos descansarem de tanta beleza.

Nelson Rodrigues escreveu assim sobre o Rio: “Em São Paulo, de vez em quando eu tenho vontade de sentar no meio fio, na Avenida São João, e chorar de saudade, de nostalgia profunda”.

Nelson falou dessa saudade do Rio em 1967. Que falta sentimos todos nós desse Rio literário do tempo de Nelson Rodrigues, quando ainda era possível romantizar toda forma de miséria humana.

QUEM É CÚMPLICE DOS MILICIANOS?

Teremos muita coisa esclarecida quando formos muito além do que já se sabe das conexões dos milicianos com a política da extrema direita no Rio.
Por que determinados políticos atacam genericamente (como retórica) tudo que é bandido, mas nunca enfrentaram um bandido, nunca se referiram a traficantes e nunca criticaram os milicianos?
Por que os políticos líderes da extrema direita carioca não atacam os milicianos?
Talvez nem seja preciso responder.

A GURIA DE VACARIA

Márcia Tiburi é de Vacaria. Foi o que anunciou com alegria o advogado e professor Carlos Frederico Guazzelli no meio de um debate sobre fascismo hoje à noite no Café Nossa Cara, no Bom Fim. Guazzelli é vacariense e estava se exibindo.
Há muito tempo não temos muito o que exaltar por aqui. O fascismo, um dos temas que Márcia Tiburi gosta de abordar, ganha feições variadas no Estado desde antes do golpe de agosto de 2016.
O Rio Grande que alguém algum dia inventou de chamar de o Estado mais politizado do Brasil (e muitos acreditaram nessa lenda) é visto hoje como a república do relho.
Márcia mexe com o orgulho dos vacarienses porque se atreveu a se apresentar como pré-candidata ao governo do Rio pelo PT. Criou o fato político do mês. A professora de filosofia mora no Rio há quatro anos. Vai para uma guerra.
Joga-se na linha de frente da política numa hora em que muitos estão saindo.
Quem ainda estiver em dúvida sobre o que deve fazer em meio à longa ressaca do golpe, que se inspire no gesto corajoso de Márcia. Pelo Rio, por Marielle, pelas mulheres, pelo Brasil, por Lula, pela democracia.
Uma mulher vai encarar a disputa pelo governo no Estado em que os homens não conseguem descobrir ou não querem descobrir quem matou uma mulher negra, favelada, de esquerda, militante política, vereadora, defensora das comunidades pobres e dos direitos humanos, bissexual, formada em sociologia.
A valente Marielle merece que sua história e sua memória sejam homenageadas pelo gesto de uma gaúcha de Vacaria. Sem gauchismos e sem bravatas.
Márcia se dispõe a enfrentar a barra de um Estado quebrado, os traficantes, as milícias, os capitães Nascimentos, os amigos do José Padilha, a Globo, o Jornal Nacional, os traumas causados pela intervenção federal, os golpistas, os fascistas com chiado, os conchavos das máfias dos garotinhos e dos cabrais.
É fácil ser militante e correr poucos riscos em tempos de calmaria. A democracia testa seus defensores em seus piores momentos.
No livro “Como Conversar com um Fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro”, editado pela Record, Márcia nos ajuda a refletir sobre o medo que os fascistas têm das mulheres.
Pois vai em frente, Márcia Tiburi. Mete medo neles.

A foto do Crivella

Ainda tem gente vibrando (principalmente a esquerda carioca) com o retrato do Crivella fichado pela Polícia em 1990, que saiu agora na capa da Veja. É uma bobagem. E ainda há todo um debate jurídico sobre a ilegalidade da foto.
Crivella tem outros delitos, mais recentes, que merecem abordagem. Um retrato antigo, sobre a participação do indivíduo na desocupação de um terreno da Universal há 26 anos, não vale nada.
Eu quero ver na capa da Veja a foto de um tucano preso. Se um tucano for preso e aparecer na capa da Veja, eu faço o que se chamava antes de assinatura perpétua da revista.
Se acontecer, eu leio na Veja até os textos com 20 adjetivos por parágrafo de autoria do Augusto Nunes.

O mesmo veneno

O senador Aécio Neves experimentou na praia, no Rio, do mesmo veneno que a direita destila diariamente contra quem considera do PT, do governo golpeado ou das esquerdas, nas ruas, em restaurantes, em elevadores.
A mulher que filma e ataca o tucano não deve servir de modelo para ninguém nesse tempo de cusparadas e agressividades multiplicadas – muito menos o nível de caimento da cintura da bermuda do senador.