O MAIOR DE TODOS OS ZAGUEIROS

 

Nenhum zagueiro da Copa que termina amanhã jogou tanto quanto esse senhor aí da foto. Nenhum tem a elegância que ele exibia dentro da área. Ninguém impõe o respeito que ele impunha, sempre com a cabeça erguida.

Nunca nenhum zagueiro da Copa fez o que esse senhor fez uma vez e eu vi. A bola espirrou na área e ele saltou como um acrobata e tirou a bola com a sola do pé, por cima do centroavante, erguendo a perna para trás como um escorpião. Ele aplicou um balãozinho no centroavante, dentro da área.

Era um jogo amistoso contra um time de Porto Alegre. Mas o zagueiro fez tudo com categoria, sem exageros, como se fosse a coisa mais simples do mundo. E o centroavante ficou espantado.

Pois esses dias fui a Rosário, a minha terra, e disse ao amigo Marco Valerio Flores Andreazza que desejava visitar o Estádio Centenário, o estádio da minha infância, ali na baixada dos trilhos.

Fomos com o fotógrafo Emílio Pedroso, e alguém nos mostrou no chão a calçada da fama, com estrelas com os nomes de jogadores de Rosário que se destacaram pelo Brasil ou eram ídolos do Internacional, o clube da cidade, mantido pela Swift (um Internacional que jogava de camisa azul).

Mas não estava ali na calçada o apelido do melhor zagueiro que vi jogar. Reclamei com um funcionário e o homem esclareceu: ele tem a sua estrela, mas está com o nome. E lá estava escrito: “Alexandre Mendonça. Reconhecemos o seu talento e o seu valor”.

Na minha infância, ninguém sabia quem era Alexandre Mendonça. Mas todos sabiam e sabem até hoje quem foi Vacacaí. É este senhor ao meu lado, localizado em sua casa, a poucas quadras do estádio, pelo Marco Valério.

Os franceses podem dizer que viram Varane jogar. Eu vi o grande Vacacaí, o cara que a Swift levou de São Gabriel para Rosário só para jogar no seu time. Seu apelido saiu do nome de um rio gabrielense.

Eu vi todos os jogos do Internacional entre os meus 12 e 13 anos, quando morei em Rosário. Todos. No dia em que eu encontrei Vacacaí, eu disse que me lembrava de alguns outros jogadores.

Mas não sabia mais o nome de nenhum deles, mesmo dos atacantes que sempre ficam na memória da gente. Só me lembrava de um. O único nome de que lembro até hoje é este: Vacacaí.

Eu disse isso a esse senhor de 83 anos, ele se emocionou e eu admito que me enxerguei ali naquele momento na arquibancada descoberta do Centenário (que foi demolida), lá entre 1965 e 1966, com o Minuano batendo nas costas, eu ali catando amendoins num saquinho feito de jornal velho, eu sempre sozinho, sem nenhum adulto me acompanhando, aprendendo com os gritos da torcida o que significava corner, offside, back, score, centre foward, e eu então admito que comecei a me lembrar daquele tempo e chorei sim ao lado de Vacacaí.

Ele me olhou com respeito. Este senhor foi o maior zagueiro que vi jogar e por isso ele é pra mim o maior zagueiro do mundo de todos os tempos. Vacacaí foi a minha primeira referência no futebol, muito antes de Alcindo.

No dia em que nos encontramos, na semana passada, eu comecei a conversa perguntando a Vacacaí se ele se lembrava daquele lance com a sola do pé, que levantou a arquibancada.

Eu nunca esqueci aquele lance. Ele me disse que sim. Que também não poderia esquecer aquela façanha. E recontou a jogada em detalhes.

Ninguém sabe, nem ele nem eu, ninguém mais quer saber o placar daquele jogo, porque não interessa.

O que importa é que naquele domingo gelado de 65 ou 66 Vacacaí enfrentou o Grêmio e deu um balãozinho com a sola do pé em Alcindo, o Bugre, o maior goleador da história do Olímpico.

Como jogava este Vacacaí.

O ‘ó’ e o ‘oi’

Eu sou do tempo em que se dizia ó quando se encontrava um conhecido na rua. Ó, tudo bem? Alguns até respondiam: Tudo bem, comendo pão de ló com a tua vó.

Minha infância no Rosário foi ouvindo ó no Ginásio Plácido de Castro e por toda parte. Depois é que comecei a ouvir oi, mas aí eu já morava no Alegrete.

Alguém levou para a Fronteira o oi de Porto Alegre ou do Rio. Aí pelo começo dos anos 70. Foi logo um sucesso no quiosque da praça, mas o oi demorou a chegar até a região da Coxilha do Adão e do José Ascânio Villaverde.

Poucas vezes se vê alguém falando olá para um conhecido. Falam mais na TV (olá, boa tarde, como diz a Sandra Annenberg), nos gibis e nas dublagens de desenho animado.

Agora, leio que o Facebook é considerado cada vez mais antigo por jovens e adolescentes porque tem muito texto. Eles querem cada vez menos texto. Menos do que no Twitter e menos do que no Instagram.

Os jovens querem ler e escrever com menos letras e podem assim abandonar o oi, porque tem duas letras, e escrever ó. Escreveriam assim: ó, tdb?

Este texto, por exemplo, é considerado um textão pelos jovens. Mas eu tenho uma versão mais curta que resume: no Rosário, as pessoas diziam ó.

(O ‘ó’ consta do Dicionário Houaiss, ao lado do oi e do olá, todos como interjeições. O ó pode ser usado como saudação reconhecida.)

Os diabos do Plácido

Estou acompanhando o debate em torno do ensino de religião. O que posso dizer é que as aulas do padre Hermes, na primeira série do Ginásio Plácido de Castro, no meio dos anos 60, em Rosário, me divertiam muito. Era uma turma de guris e gurias de uns 11 e 12 anos.
Me lembro de uma cena em que a gurizada mais barra pesada, que sentava num canto, desafiou o professor de religião. O padre perdeu o controle da aula, foi exasperando-se com a bagunça formada e de repente começou a gritar: é o demônio, é o demônio.
E saiu porta afora fazendo vento com sua batina preta. Uma professora da direção foi chamada. Os guris seguravam a risada e a professora vasculhava a sala com o olhar e perguntava: quem é o demônio?
O padre apontou o dedo para um guri. Aquele era o demônio. O guri foi levado para a sala de detenção e o padre retomou a aula. Me lembro bem do padre Hermes.
Eu era o líder da turma, eleito pelo voto direto. Nunca uma turma de colégio teve um líder tão relapso. Naquele ano, os diabos afrontavam os professores, inclusive o que representava Deus, e eu não fiz nada.
Na verdade, eu estava ao lado dos diabos, mesmo que não fosse um deles. Os demônios são sempre os outros. Os diabos do Plácido eram divertidos demais.