A DÍVIDA

Se me perguntassem o que ganhei com a Copa, eu diria que ganhei a chance de conhecer Daniel dos Santos Ferreira, o moço da foto.
Daniel é um dos milhões de brasileiros que tentaram obter alguma renda com a Copa.
Instalava-se no canteiro de uma rótula da Avenida Juca Batista, na Aberta dos Morros, estendia os varais de camisetas e bandeiras e sentava-se à espera de compradores. Quase ninguém aparecia.
As bandeiras são feitas por ele mesmo e pela mulher, Beatriz, aqui na zona sul de Porto Alegre.
Um dia, fui puxar conversa com Daniel, pensando que ficaria uns minutos no canteiro. Fiquei meia hora. Ele sabe que a direita que se apropriou da camiseta e da bandeira esculhambou com seu sonho de ter uma renda extra com a Copa.
Hoje, a chuva o alertou de que deveria ir embora antes do final do jogo com a Bélgica, porque nada daria certo. Daniel retirou-se antes da frustração.
Mais do que a seleção fracassada, os destruidores de símbolos têm uma dívida com Daniel e Beatriz. Um dia eles saberão cobrar o que roubaram deles.

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A Seleção sem força

Uma sensação muito ruim de que a Seleção parece refletir a situação do país. Na adversidade, o time esmorece, como o povo esmoreceu depois do golpe.
É algo que vem desde a Copa de 2010, quando os jogadores parecem ter perdido, naquele jogo com a Holanda, quase tudo que a Seleção acumulou de vitalidade e dedicação à luta a partir de 1958.
Foi em 2010, com aquele time de pernas frouxas, que tudo começou, até o desfecho dos 7 a 1 em 2014. Foi em 2014 que o mundo viu pela primeira vez o capitão de uma equipe chorar num canto, afastado dos liderados.
Para completar, a direita se apropriou da camiseta da Seleção e da bandeira. A direita verde-amarela do golpe e do ódio fundamentalista pode ter amaldiçoado o futebol brasileiro.

VOU TORCER POR TAISON

Há momentos engraçados em ‘O que é Isso, Companheiro’, o livro que Fernando Gabeira publicou na volta do exílio sobre sua vida de militante clandestino na ditadura. Num dos episódios, ele conta que o grupo se reuniu num aparelho para deliberar se deveria ou não torcer pelo Brasil na Copa de 70.
Houve uma divisão e parece que cada um ficou com liberdade para apoiar, torcer ou ficar indiferente. Era uma decisão política. Médici poderia tirar proveito do Tri. E tirou mesmo.
É o que se repete a cada Copa, em quaisquer grupos, mesmo que sem esse tom de seriedade ou mesmo de politização do futebol. Agora mesmo a pergunta de novo é esta: a Seleção merece nossa torcida?
Eu não consigo levar minha racionalidade para o futebol, até porque sou um gremista que, com dois netos colorados, perdeu muito das suas convicções de torcedor.
Em relação à Copa, eu havia tomado uma decisão. Ontem, me convenci de que estava certo. Vou torcer mesmo por Taison, para que ele participe dos jogos. Para que não fique apenas no banco.
Vi ontem a reportagem do Tino Marcos no JN sobre as histórias desse pelotense e da mãe dele, dona Rosângela, que criou 11 filhos sozinha.
Há mais de 10 anos, publiquei em Zero Hora cinco perfis de mães que se viraram do mesmo jeito, sem marido, sem companheiro, sem nada por perto além da solidariedade de outras mães. Só elas e os filhos.
Me lembro até hoje de cada uma daquelas histórias e da valentia daquelas mães e dos seus filhos que sobreviveram, apesar de muitas vezes não terem o que comer.
Por isso vou torcer por Taison, o guri de Pelotas, hoje capitão do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia.

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7 a 1 para as quadrilhas

camiseta4 - Copia

A classe média que aderiu ao golpe se apropriou da camiseta da Seleção para sair às ruas pelo impeachment. Foi uma péssima ideia, para a Seleção, para o país e para o golpe.

Que a saída de Dunga e a chegada de Tite indiquem um recomeço para a Seleção e para o que ela representa. Mesmo que eu não seja otimista.

Não imagino que a Seleção possa voltar a ter um dia a força que teve até 2002. Há exatos dois anos, em 14 de junho de 2014, às vésperas da Copa, escrevi na Zero Hora que a Seleção havia chegado ao fim como expressão de identidade.

Para que não pareça oportunismo, agora que a Seleção rasteja como moribunda (e com uma camiseta manchada politicamente), colo aqui o linck de um comentário do blog do editor de ZH sobre o texto que escrevi há dois anos e a análise de dois outros textos semelhantes que vieram na sequência, na Folha e em O Globo (meu texto pode ser lido também nesse linck).

http://wp.clicrbs.com.br/editor/2014/07/10/a-patria-sem-chuteiras-i-ii-e-iii/?topo=13,1,1,,,13

Disse lá e repito aqui que não acredito na ressurreição da imagem da Seleção como afirmadora da ideia de nação e de civismo. O futebol elitizado, as máfias (que fim levou o José Maria Marin com sua tornozeleira em Nova York?), a Lei Pelé, os estádios superfaturados e as gangues de torcidas mataram o futebol.

O que sobrevive é a força de um hábito que contagia apenas a classe média. As imagens de TV mostram que o povo sumiu dos estádios. Os jogos são espetáculos da TV paga. O povo não pode ir a campo e não tem dinheiro para pagar a TV. As quadrilhas venceram.

A reação da Paulista

moldura amarela

Circulam pela Avenida Paulista informações de que a turma pró-Temer pretende fazer uma megapasseata no domingo. Seria uma resposta aos atos públicos de Dilma pelo país. Ontem, a presidente golpeada esteve em manifestação na Borges de Medeiros, em Porto Alegre.

Temeristas, tucanistas e adoradores do pato da Fiesp acham que é preciso reagir. O ato na Paulista pode ter a participação de Lobão, Caiado, Tiririca, Bolsonaro e Aloysio Nunes, todos ídolos do Parcão.

Aécio, Serra e Alckmin não aparecerão, porque eram corridos da rua pela própria direita antes mesmo do golpe.

E as panelas? Ninguém sabe o que fazer com as panelas. Muito menos com as camisetas da coleção 7 a 1.

Eles queriam o outro

camiseta2

Cresce entre os que antigamente se autoproclamavam como formadores de opinião a sensação de que a coisa não vai dar certo. Pensadores, jornalistas e similares, todos formuladores do golpe (e não só figurantes de passeatas) começam a endereçar críticas aos próprios golpistas.

A direita é sempre traiçoeira, inclusive com as ideias que ajuda a fomentar. Preparem-se para o que será lido a partir de agora, enquanto muitos abandonam o barco. Teremos, em poucos dias, lacerdistas que se voltarão contra a criatura. Leremos textos vigorosos em nome da ética e da moralidade.

Fernando Henrique já anunciou: se não der certo, a gente cai fora. E deixa o Temer com o Padilha, o Moreira Franco, o Mendoncinha, o Alexandre Frota e o José serra,

Tem gente que não sabe o que fazer com a camiseta dos 7 a 1. Quem sabe, guardar para o próximo golpe – ou para o próximo jogo com a Alemanha.