SERGIO MORO, O ISENTO

Não entro na controvérsia sobre a situação jurídica de Cesare Battisti, porque não tenho informações que me habilitem a opinar, mas é brabo ouvir Sergio Moro dizer que a decisão do governo Lula de impedir a extradição do italiano teve “motivações político-partidárias”.
Um governo age politicamente porque é da sua natureza. Um juiz não deveria. Um juiz não poderia nunca agir seletivamente.
Tudo o que Moro fez na Lava-Jato sempre esteve sob suspeita, no Brasil e no Exterior, de contaminação política, reforçada por sua adesão a um governo de extrema direita.
Moro é ex-juiz e o futuro ministro da Justiça ‘técnico’ de um governo de ministros réus ou investigados por corrupção.
Mas nem todos os corruptos bolsonaristas pediram desculpas. E um motorista está desaparecido.
(O ponto a favor do ex-juiz é que parece que a sua voz está engrossando ao final das frases.)

A POLÍCIA DE SERGIO MORO

Cruzei esses dias num shopping pelo jurista Amilton Bueno de Carvalho, com quem não consegui conversar porque há sempre alguém de prosa com ele.
Pois vou encaminhar por aqui uma pergunta de leigo curioso e ao mesmo tempo atormentado. Que pode ser respondida por colegas dele e entendidos na área.
Essa é a pergunta: o ministério de Sergio Moro é da Justiça ou da polícia? Se Moro vai caçar quadrilhas de políticos, traficantes e bandidos do que chamam crime organizado e para isso está montando uma megaestrutura policial, o que tem de Justiça nisso aí?
Moro vai controlar a Polícia Federal e o Coaf (que era da Fazenda) e está levando para Brasília gente das suas relações na Lava-Jato, todos ligados à área da investigação e da acusação.
Alguém pode dizer que ele é o cara da Justiça, porque vai perseguir justiça com suas ações. Será? Isso virou justiça?
Quem pode me ajudar?

QUE FRACASSEM

Bolsonaro disse no discurso da diplomação: “A partir de 1º de janeiro serei o presidente de todos, dos 210 milhões de brasileiros. Governarei em benefício de todos sem distinção de origem social, raça, sexo, cor, idade, ou religião”.

Ninguém governa em benefício de todos. Em lugar nenhum. Podem governar para uma maioria, muitas vezes para uma minoria. Mas para todos, com os mesmos benefícios, é claro que ninguém consegue.

Não há como governar para fazendeiros, grileiros, desmatadores, negociantes do pré-sal, saqueadores da Previdência, das leis trabalhistas e do SUS e achar que governa para todos.

Não tem como governar para todos com Sergio Moro, Paulo Guedes, uma pastora reacionária, um ministro do meio ambiente que favorece poluidores e um chanceler que atribui o alerta sobre o aquecimento global a uma trama do comunismo.

Não há como governar para apoiadores de grupos nazistas e fascistas e achar que engana dizendo que também governa para as minorias que esses grupos atacam e desqualificam sem escrúpulos. Não tem como Bolsonaro governar para gays, negros, índios e miseráveis.

Eu desejo que o governo Bolsonaro – pela figura que o lidera, pelo que se propõe a fazer, pelo que significa como retrocesso em relação às grandes questões da humanidade, pelo ódio de seus apoiadores e pelos corruptos impunes que abriga – seja um grandioso fracasso.

É um direito que tenho. Não posso torcer por esse governo. Nem sob tortura. Estou fora. Fracassem! Fracassem! Fracassem!

A SOBERBA DERRUBA OS BOLSONAROS

Por que o motorista de Flavio Bolsonaro e seus cúmplices agiram com tanta desenvoltura na movimentação de R$ 1,2 milhão por um ano, inclusive durante a campanha eleitoral?

Porque os Bolsonaros e toda a direita brasileira se consideram acima de qualquer investigação e punição. Foi assim que os tucanos tombaram. Os tucanos acabaram por excesso de confiança.

Adoradores e bajuladores de Sergio Moro estão certos de que Lula e o PT serão caçados para sempre pelos justiceiros. E que a direita escapará.

É o que eles pensam. Bolsonaro e os filhos agiam numa boa com o motorista. O depósito na conta da mulher de Bolsonaro é a demonstração da soberba da impunidade.

Vão pegar Cabral, Garotinho e Pezão, mas não pegam os Bolsonaros. É o que eles pensam.

Mas a casta dos Bolsonaros tem apoiadores, bajuladores e eleitores e tem também, na mesma medida, quem não faz parte dessa turma.

Uma família inteira, agressiva, desrespeitosa e exibicionista, acredita que exercerá o poder absoluto sem riscos? Que irá desafiar até mesmo a elite que a abomina e apenas a utiliza como instrumento de guerra?

Os Bolsonaros acreditam mesmo que, com Sergio Moro na Justiça (que é na verdade a polícia), tudo será aparelhado para que nada se saiba da vida deles e dos amigos da direita, de toda a direita, mesmo a moderada, e não só da extrema direita? Acreditam?

A direita do golpe, que inventou Bolsonaro e que tenta agora se livrar dele, acredita que Coaf e Polícia Federal, sob o comando de Sergio Moro, são instituições dominadas? Que o Ministério Público é todo deles?

Que continuem acreditando.

O COAF ESPERA SERGIO MORO

Uma das obsessões de Bolsonaro, nas conversas sobre a estrutura policial que está sendo montada em torno de Sergio Moro, era o destino do Coaf.

O órgão controlador da movimentação de dinheiro será decisivo, segundo Bolsonaro, para estrangular o crime organizado, principalmente os traficantes.

Foi por isso que Bolsonaro tirou o Coaf do Ministério da Fazenda e o entregou de presente a Sergio Moro na Justiça. Com a Polícia Federal e o Coaf, o ex-juiz pode transformar algumas ações em grande teatro com manchetes no Jornal Nacional.

Há uma semana, Moro havia anunciado que o atual presidente do Coaf iria bailar, porque seu escolhido para o cargo era Roberto Leonel, auditor e chefe da área de inteligência da Receita Federal.

Pois logo depois os homens do Coaf decidiram dar um aviso a Moro. Anunciaram para a imprensa, antes da posse, que haviam flagrado a família. Mandaram um recado para o juiz e para seu chefe: não tentem brincar com a gente.

Sergio Moro tem uma tarefa dura. Se pegou os Bolsonaros, que pareciam intocáveis, o Coaf parece não estar sob o controle da direita. Moro conseguirá aparelhar o Coaf para que funcione nos moldes do seu QG seletivo de Curitiba?

Eu queria ouvir as gargalhadas dos caras que pegaram os Bolsonaros e advertiram Sergio Moro do que o espera no Coaf.

Aos poucos, ensaiando no seu cargo ‘técnico’, Moro se dá conta de que Brasília não é a panela de Curitiba.

E AGORA, SERGIO MORO?

Sergio Moro flanava em Curitiba. Tinha time próprio e exclusivo, somente se envolvia com processos contra o PT e contra Lula. Moro era adorado pela direita como uma figura inatacável do Judiciário.

Grampeou Dilma e Lula, mas não deu nada. Mandou a gravação do grampo para a Globo e não deu nada. Determinou que Lula fosse submetido à condução coercitiva e não deu nada.

Condenou Lula sem provas e não deu nada. Participou de festas com Aécio e não deu nada. Tirou fotos e dividiu mesas de comilanças com Doria Junior em Nova York. Desafiou o Supremo várias vezes. Não deu nada.

Foi nomeado ministro da Justiça de Bolsonaro, na maior cara dura, e acha que não vai dar nada. Que continuará flanando, sem pressões, com o apoio unânime dos ‘liberais’ e da imprensa.

Mas Moro, o ex-justiceiro, já tem pelo menos três pepinos que irão testá-lo, agora em cargo político que ele tenta vender como se fosse um cargo técnico.

Paulo Guedes, o ministro da Fazenda que o recebeu na primeira visita à casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca, está sendo investigado pela Polícia Federal por fraudes em fundos de pensão. A Polícia Federal está sob o comando do ex-juiz.

Flavio Bolsonaro, deputado estadual, eleito senador pelo Rio, filho de Bolsonaro, era chefe de Fabrício Queiroz, ex-PM flagrado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por ter movimentado R$ 1,2 milhão durante um ano e depositado R$ 24 mil na conta de Michelle Bolsonaro.

Queiroz, já afastado do gabinete do deputado (por que saiu?) era motorista e segurança do deputado. De onde tirou tanto dinheiro? De quem é essa dinheirama?

Moro vai descobrir, porque será o grande chefe do Coaf. Bolsonaro fez questão de deixar o Coaf sob as ordens do ex-magistrado.

Tem Mais. Onyx Lorenzoni, futuro chefe da Casa Civil, que admitiu ter recebido caixa dois (mas não é propina) de R$ 100 mil em 2014, está sendo investigado por ordem do Supremo por mais um caixa dois de R$ 100 mil (mas não é propina) de 2012, que ele nega.

É complicada a situação de Sergio Moro, porque Onyx pediu desculpas pelo primeiro caixa dois. E Moro sempre disse que caixa dois é crime grave. Mas admitiu que, se Onyx pediu perdão, as desculpas deveriam ser aceitas. E afirmou que confia no colega.

Sergio Moro vai começar a sentir em dezembro o calor do inferno em Brasília. Ele acha que seus amigos da imprensa vão poupá-lo. Alguns irão. Mas a guerra pela informação faz com que cada um brigue pelo osso que às vezes o patrão não quer ver por perto.

Não haverá patrão capaz de segurar a briga pelos ossos em volta de Sergio Moro. O jornalismo, por mais covarde que seja, como tem sido o jornalismo brasileiro desde o golpe de agosto de 2016, é mobilizado pela batalha entre os que desejam saber mais e informar mais. É da natureza de quem lida com informação, ou o jornalismo não sobrevive.

Ninguém conseguirá segurar bons repórteres que já estão atrás dos rolos dos Bolsonaro e de seus amigos. Sergio Moro vai experimentar agora o que nunca experimentou na vida boa de Curitiba, por mais que a estrutura da Justiça venha a ser aparelhada pelo bolsonarismo.

Preparem-se para as performances do ministro. Sergio Moro vai ter de dançar com as cobras que ajudou a criar.

O EX-JUIZ E A DELEGADA

A partir de hoje, Sergio Moro não é mais juiz federal. Passa a fazer parte da estrutura de poder que começa a ser montada por Bolsonaro.
De 1º de novembro, quando anunciou que aceitara o convite para ser ministro, até hoje passaram-se 19 dias. E nesse tempo todo, Moro sempre veio com a conversa de que, enquanto lidava com os preparativos para assumir, iria tirar férias.
Um juiz envolvido num projeto político controverso (apesar de dizer que está em missão técnica) tentou driblar os brasileiros, a própria magistratura e a própria consciência, sempre tão atenta a questões morais, e continuar recebendo como juiz, quando não mais atuava como juiz.
Sergio Moro tentou fazer o que não deu certo porque acha que tudo o que faz é aplaudido pela direita.
Alguns perguntam. Mas e se não der certo? Se não der certo, se não conseguir ser ministro do Supremo (que seria seu grande projeto), e como não pode voltar a ser juiz, Moro será advogado de gente com dinheiro.
Não fiquem com pena de Sergio Moro, que hoje confirmou a delegada federal Erika Marena na sua equipe, mas ainda sem cargo.
Erika foi a delegada do caso do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, da Universidade Federal de Santa Catarina, que se matou depois de sofrer um cerco da PF (e até hoje nada foi provado contra ele). A escolha da delegada é um acinte para professores, alunos e servidores da UFSC e para pelo menos metade da comunidade catarinense.
Mas esse é Sergio Moro, o ex-juiz que também vai chefiar a PF e terá na Justiça um poder que nenhum ministro da pasta teve, dizem que nem na ditadura.
Preparem-se. Se é que estamos em condições de nos preparar para alguma coisa do que vem aí.

A PERGUNTA

Uma pergunta para aulas de jornalismo: por que, na entrevista que fez para o Fantástico, a repórter Poliana Abritta não perguntou a Sergio Moro nada sobre a contradição entre condenar de forma categórica o caixa dois (que ele considera um crime grave) e perdoar o deputado Onix Lorenzoni por ter recebido caixa dois?

Só Onix merece perdão? Por que é ministro? Por que um pedido de desculpa anistia um delito?

A contradição foi o assunto da semana passada, depois da entrevista coletiva em que o juiz diz que, se pediu desculpas, Onix fica numa boa.

O que o Fantástico tentou, na tentativa de reparar o mico da pergunta que não foi feita, foi editar dentro da mesma entrevista um texto com imagens sobre a coletiva, como que dizendo: não esquecemos, não, daquele espisódio (e a Globo ainda ofereceu um presente para Onix: a informação de que o deputado já teria doado metade do caixa dois de R$ 100 mil a entidades filantrópicas. Quais?)

Mas a pergunta agora é essa: por que a repórter é recebida pelo juiz para uma entrevista exclusiva (que ele não daria a veículos não cumpliciados com a direita) e não faz a pergunta que todo o Brasil fez durante dias?

O juiz vetou a pergunta por antecipação? Poliana ficou constrangida ou intimidada? A própria repórter poderia falar a respeito, em nome da transparência que o jornalismo tanto defende.

 

ESCOLHAS

A cada fala de Sergio Moro como futuro ministro, há quem pense que o escolhido deveria ter sido outro, que o cara mesmo é Deltan Dallagnol.
Dallagnol fala com mais segurança e não revira os olhos. E ainda faz aqueles desenhos com bolinhas azuis em powerpoint.
Dallagnol é mais completo e ainda tem uma voz potente.
O livro do Dallagnol é muito melhor do que o filme do Sergio Moro. E Dallagnol não diria nunca que não irá perseguir inimigos políticos e que não irá mentir. Dallagnol não raciocina pela negação.
As mulheres bolsonaristas dizem que Dallagnol é mais jovem e mais bonito. E Dallagnol é mais religioso, faz jejum, teme Deus e respeita o diabo.
Ainda dá tempo de trocar. Sergio Moro iria para o Ministério da Família, no lugar de Magno Malta. A Lava-Jato cuidou muito bem da família dos delatores, todos em liberdade, com direitos assegurados, boas poupanças e sem tornozeleiras.
E Magno Malta poderia ser, num governo parlamentarista (tudo pode acontecer), o nosso primeiro-ministro.
E Bolsonaro? Bolsonaro continuaria com o programa de TV que faz em casa para que depois seja retransmitido pela Globo.
A Globo virou retransmissora da TV caseira do Bolsonaro, inclusive dos flagrantes do homem sacando dinheiro em caixa eletrônico.
Na Era Havan, a Globo conseguiu o que queria. Virou uma Record.

OS INFILTRADOS

É boa a ideia de Sergio Moro de infiltrar agentes entre bandidos e quadrilhas. O juiz deve andar vendo muito filme do José Padilha.
Mas pode dar certo. Poderão começar infiltrando policiais em empresas, latifúndios e grileiros que submetem seus empregados ao escravismo e que poderão atuar à vontade com a extinção do Ministério do Trabalho.
Se quiserem, que infiltrem agentes em empresas que sonegam, adulteram leite, fazem lavagem de dinheiro, financiaram as campanhas da extrema direita e apoiam a perseguição a minorias sob o pretexto de que atuam em nome de Deus.
Infiltrem agentes entre os próprios apoiadores de Bolsonaro. Tudo gente ponderada e benemerente, que promove campanhas de filantropia por puro altruísmo.
Infiltrem nessas empresas seus melhores agentes, todos disfarçados com máscaras de Sergio Moro e Magno Malta.