A TURMA DO SERGIO MORO

Circula desde cedo a notícia da Folha com a informação de que os três juízes que reafirmaram a condenação de Lula, no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, recebem auxílio-moradia. São da mesma turma de Sergio Moro.
Sem surpresas. Dois deles (Leandro Paulsen, revisor da sentença contra Lula, e Victor Laus) são donos de imóveis.
Já o relator do processo, João Pedro Gebran Neto, que não tem imóvel próprio, deve receber o auxílio por não ter onde morar.
Os três se apropriam de uma ajuda imoral (é boba essa discussão sobre a legalidade da mumunha), enquanto a direita golpista que os aplaude pede e ganha austeridade, reforma da Previdência, arrocho de salários para os sem-auxílio, fim das leis trabalhistas e o fim do SUS.
E os três condenaram Lula com o discurso moralista dos adoradores de Sergio Moro.

A sinceridade e as calcinhas

O juiz Sergio Moro admitiu numa boa, sem fazer volteios, que pega o auxílio-moradia porque não recebe aumento há dois anos, mesmo ganhando mais de R$ 30 mil por mês.

É uma desculpa ofensiva à maioria do povo, porque acaba admitindo que o auxílio não é para moradia nenhuma, pois ele tem onde morar.

A filha de Roberto Jefferson, a quase ministra do Trabalho, Cristiane Brasil, fez uma reunião com servidores públicos, quando era secretária do Envelhecimento Saudável no Rio, e deu uma aula de como buscar votos.

Recomendou que eles deveriam, na briga por um voto, dizer para as suas mulheres: vamos nos virar para que a minha chefa se eleja, eu tenha emprego, ganhe dinheiro e possa pagar as tuas calcinhas. Cristiane lançou um modelo de chantagem, ou a teoria das calcinhas. Deve funcionar.

Qual é a semelhança entre os dois, o juiz e a moça? A sinceridade. Moro admite que pega o dinheiro com uma desculpa que nenhum operário poderia usar, ou seria enquadrado por apropriação indébita. Mas o juiz pode.

E qual seria a diferença entre o juiz e a filha de Jefferson? Não, não são as calcinhas.

A diferença fundamental é que a moça depende dos votos. Sem votos, ela não é nada, muito menos candidata a ministra. Será apenas a filha do Jefferson.

Cristiane poderá ser pulverizada politicamente na próxima eleição. Talvez nem seja, talvez tenha recorde de votos. Mas a democracia permite que o eleitor se livre de gente como Cristiane Brasil.

E o juiz? O juiz, não. O juiz tem função vitalícia, independe de votos. O juiz estará mandando prender preventivamente, ouvindo delações que quer ouvir, determinando conduções coercitivas, grampeando quem quiser grampear (inclusive presidente da República) até se aposentar. Ninguém pode mexer com o juiz.

O único que passou um pito no juiz (sem qualquer consequência) foi o ministro Teori Zavascki. E Teori está morto. Nenhum vivo mexe com o juiz.

Ah, mas tem a corregedoria da Justiça. Ah, bom. Quem quiser que acredite na corregedoria. Eu prefiro acreditar na teoria das calcinhas.

MORO É DA TURMA

Um amigo de Curitiba me acorda às 5h da madrugada com a manchete. O juiz ídolo da classe média desorientada, e que recebe R$ 34 mil por mês, faz parte da turma que tem apartamento (de 163 metros quadrados), mas mama no auxílio-moradia, com a mesma desculpa dos colegas de que é “legal”. Por isso eles têm obsessão com apartamentos.

É a manchete da Folha de S. Paulo online.

Moro tem imóvel em Curitiba, mas recebe auxílio-moradia

Ana Luiza Albuquerque

Três quilômetros separam a sede da Justiça Federal de 1º Grau do Paraná da residência do juiz Sergio Moro, responsável pelo julgamento dos processos da Lava Jato.
É este o trajeto percorrido pelo magistrado desde 2003, quando assumiu a primeira vara especializada em crimes contra o sistema financeiro, em Curitiba. No ano anterior, comprou um imóvel de 256 m² no bairro do Bacacheri, de classe média.
Em junho de 2002, Márcio Antonio Rocha, juiz federal do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), vendeu o apartamento para Moro por R$ 173.900 (R$ 460 mil em valores atualizados).
Como dono de imóvel próprio na capital paranaense, Moro fez uso de decisão liminar de setembro de 2014, do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux, para passar a receber auxílio-moradia no valor de R$ 4.378.
BENEFÍCIO
Fux estendeu o benefício a todos os juízes do país. O ministro argumentou que diversos tribunais já ofereciam o auxílio, o que estaria criando uma diferenciação entre os magistrados.
Ele também citou o artigo 65 da Lei Orgânica da Magistratura, que prevê que podem ser oferecidas aos juízes algumas vantagens, como “ajuda de custo, para moradia, nas localidades em que não houver residência oficial à disposição do magistrado”.
Na resolução 199, de outubro de 2014, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) regulamentou que cada juiz ficaria responsável por requerer o próprio auxílio-moradia.
“A referida ajuda de custo vem sendo paga por diversos tribunais em patamares díspares, acarretando injustificável tratamento diferenciado entre magistrados”, diz o texto do CNJ.
Somente no fim do ano passado, Fux liberou a liminar para ser julgada pelos 11 ministros do STF.
A presidente da corte, Cármen Lúcia, afirmou que pretende pautar o assunto em março.
VENCIMENTOS
O recebimento de auxílio-moradia por um juiz que possui imóvel na cidade onde trabalha não é ilegal, mas levanta questionamentos.
Nesses casos, na prática o valor do benefício é incorporado ao salário do magistrado, mas não conta para o teto constitucional dos vencimentos do setor público, de R$ 33.763.
A prática é comum no Poder Judiciário. Como mostrou a Folha nesta quinta (1º), 26 ministros de tribunais superiores, em Brasília, recebem auxílio-moradia mesmo tendo imóvel próprio na cidade.
Moro começou a receber o auxílio-moradia em outubro de 2014. Acrescentado o auxílio-alimentação de R$ 884, as indenizações totalizam R$ 5.262 por mês.
Com salário-base de R$ 28.948, sua remuneração bruta chega a R$ 34.210, se somados os benefícios —acima do teto, portanto.
Em determinados meses, o valor pode ser ainda maior. Em dezembro de 2017, Moro ganhou gratificações no total de R$ 6.838, elevando o salário para R$ 41.047. Os benefícios corresponderam a 30% de toda a remuneração.
Dos 494 magistrados da 4ª Região, que compreende Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, só 74, ou 15%, não recebem auxílio-moradia. O gasto mensal com o benefício chega a R$ 1,84 milhão. Em 2017, o gasto anual foi de R$ 21,4 milhões.
Desde a liminar de 2014, o auxílio-moradia aos magistrados da 4ª Região já custou R$ 71,3 milhões.
Segundo a ONG Contas Abertas, desde 2014 já foram empenhados R$ 5,4 bilhões com o benefício para membros do Judiciário e do Ministério Público em todo o país.
Outro responsável pela Lava Jato, Marcelo Bretas, do Rio, e sua mulher, também juíza, recebem o benefício em dose dupla —situação vetada pelo CNJ. A AGU pediu que a Justiça do Rio remeta à análise da segunda instância a decisão que autorizou o auxílio.

DELATORES LEITORES

Os mafiosos da direita presos pela Lava-Jato só não leem mais rápido do que o relator do processo de Lula no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre.
Sabe-se agora que o doleiro Lúcio Funaro, um dos leitores mais lentos, leu apenas 13 livros na cadeia e fez sete cursos.
Funaro leu as biografias de Tancredo, Mandela e Lincoln, entre outros. E depois fez resenhas do que leu, para provar que não estava mentindo.
Ele também teve de ler muito para fazer os cursos de atendimento ao público, vendedor, eletricista, inglês, direito do consumidor, biossegurança hospitalar e direito administrativo.
Funaro sai da cadeia como um profissional múltiplo do século 21 do mundo do trabalho intermitente.
Estava preso desde janeiro do ano passado e agora está solto e desfruta da natureza em um sítio com câmeras (que ele colocou), porque reduziu a pena lendo obsessivamente.
As câmeras substituem a tornozeleira. Falta tornozeleira para os bandidos da direita no Brasil.
A Lava-Jato vem formando leitores sofisticados, enquanto Sergio Moro cita provérbios, ditados de mesa de bar e frases do Batman sobre a imposição da ordem.
João Vaccari Neto, tesoureiro do PT preso na masmorra de Curitiba desde março de 2015, não deve estar lendo nada.

O AMIGO DO JUIZ E O MAFIOSO

É respeitável um argumento que tem circulado nos últimos dias sobre a denúncia reiterada de Tacla Duran de que um amigo do juiz Sergio Moro, o advogado Carlos Zucolotto, tentou negociar com ele um acordo de delação.

O argumento é este: parem de falar do juiz, porque ele não tem nada com isso.

Vamos por partes. Foi a partir da denúncia de Tacla Duran que se chegou à informação de que a mulher do juiz havia sido sócia de Zucolotto. E de que Zucolotto prestava, formalmente, serviços a Tacla Duran antes de os dois se desentenderem.

Quando a denúncia da tentativa de venda de delação foi publicada pela primeira vez, em 27 de setembro, pela jornalista Monica Bergamo, da Folha de São Paulo, o juiz saiu em defesa do amigo em nota à imprensa. Tacla Duran nunca acusou o juiz. Acusou o amigo do juiz. Mas o juiz defendeu o amigo e atacou e desqualificou o mafioso da Odebrecht.

É óbvio que a insistência com que as redes sociais tratam do caso, a partir da primeira informação publicada pela Folha, só tem uma explicação. A denúncia envolve o amigo e padrinho de casamento do juiz, que era sócio da mulher do juiz.

Não há como não ignorar essa relação. Um mafioso que está sendo processado e é foragido da Justiça na Espanha diz que seu ex-parceiro em bancas de advocacia é vendedor de acordos de delação. O ex-parceiro era sócio da mulher do juiz e foi padrinho de casamento do juiz. E tais relações deveriam ser ignoradas? Claro que não.

Ninguém está dizendo que o juiz tem envolvimento com Zucolotto. Ninguém diz que a mulher do juiz também está sob suspeita. Mas existem as relações entre o mafioso da Odebrecht e o advogado amigo do juiz e deste com a mulher do juiz. Pronto, é isso. E não é pouco.

Mas o juiz, na pressa, porque é um magistrado ágil, saiu em defesa de Zucolotto. Eu acho que quem deveria se defender é o próprio acusado de pertencer à panela de venda de delações em Curitiba.

Mas o juiz sabe quem deve acusar e defender. Aliás, corrigindo, juiz não acusa nem defende, juiz julga. Foi o que aprendi no Alegrete. Mais tarde também aprendi que o melhor julgamento é com o Supremo e com tudo.

Os heróis da direita

Se a direita corrupta e impune e seus admiradores são apaixonados por Sergio Moro e pela Lava-Jato, algo deu errado, ou algo deu certo.
Eu prefiro achar que deu muito certo. Nunca algo parecido com a Lava-Jato deu tão certo para a direita.
Com a Lava-Jato, o Brasil virou o país dos justiceiros medianos. Brilham medianos em toda parte. Deltan Dallagnol é a estrela mais brilhante dos medianos e inspirador de outros medianos Brasil afora.
Sergio Moro é outro mediano. O modo como se expressa e como reflete sobre o que faz é de uma figura apenas mediana, às vezes simplória. Um, o procurador, cita obviedades da Bíblia, e o outro, o juiz, cita ditados sobre a sabedoria de não atirar pedras em todos os cachorros.
O juiz que escolhe cachorros que devem levar pedradas é o herói do Brasil. Somos hoje o país dos provérbios.
O golpe mediocrizou o país. Pobre Brasil em que medianos enganam a muitos (que desejam ser enganados) como se fossem talentos de exceção.
A Lava-Jato induziu o Brasil governado pelo Quadrilhão também a este erro. A Lava-Jato seletiva transformou justiceiros em heróis, quando deveriam ser no máximo um amigo do Robin.

A cachorrada cercou o juiz

Sergio Moro referiu-se a seus críticos, em palestra em São Paulo, como cachorros que latem. Vamos relembrar o que disse Sergio Moro com sua voz potente:
“Quanto a essas ofensas, tem um ditado: não se deve atirar uma pedra em todo cachorro que ladra. Eu não vou ficar me incomodando com mentiras”.
Nunca antes na história desse país tivemos um juiz que cita ditados. É mais uma contribuição iluminista da Lava-Jato. E nunca antes um juiz teve tantos cães latindo a sua volta.
Desde ontem, depois do depoimento de Tacla Duran, que acusa de novo um amigo do juiz de tentar vender acordos de delações, a cachorrada se assanhou. Ou Sergio Moro joga pedras ou os cães continuarão dependurados na sua toga.
Há no Google, com busca fácil, listas e listas de ditados para a sofisticada e complexa reflexão dos homens da Lava-Jato (inclusive para aquele outro que cita versículos da Bíblia).
Esse é um ditado fácil de decorar: pimenta nos olhos dos outros é refresco.

O ATAQUE SUJO

É possível tentar identificar um dos “ataques sujos” que o juiz Sergio Moro diz ter sofrido de críticos da Lava-Jato. Todo mundo sabe que o maior atacante se chama Tacla Duran e está foragido na Espanha.

O advogado é processado como integrante da quadrilha de propinas da Odebrecht. Ele acusou outro advogado amigo íntimo de Moro de tentar negociar acordos paralelos de delação em troca de dinheiro. O advogado acusado se chama Carlos Zucolotto Júnior.

Zucolotto foi representante, como advogado, de interesses de Tacla Duran em Curitiba. E Zucolotto, além de amigo, foi padrinho de casamento de Sergio Moro.

Tacla Duran, como parceiro de banca de Zucolotto, fazia pagamentos ao amigo do juiz. E a mulher do juiz, Rosângela, foi sócia do escritório de advocacia de Zucolotto.

A revista Veja descobriu que Tacla Duran fez pagamentos ao escritório quando Rosângela era sócia de Zucolotto. Mas isso não é novidade.

A novidade agora é que Sergio Moro finalmente referiu-se a “ataques sujos”. Mas Tacla Duran fez as denúncias, depois renovadas, no dia 27 de setembro. Foram publicadas pela Folha de S. Paulo. Hoje, a reportagem completa dois meses.

Até agora, pelo que se sabe, nenhuma autoridade policial ou do Ministério Público se interessou pelas denúncias. Nem o advogado amigo de Moro se pronuncia sobre a acusação.

Para concordar com o juiz, o ataque é de fato bem sujo. Limpo certamente não é.

O juiz que trata críticos como cães

É impressionante a criatividade de Luciano Huck e de Sergio Moro. Huck despediu-se da sonhada candidatura a presidente citando o Ulisses da Odisseia. E Moro, o juiz que se inspira no povo, cita o seu João do bar da esquina. Um é erudito e refinado, o outro é um magistrado popular.
Vejam o que o juiz disse hoje em palestra em São Paulo sobre os ataques que sofre de críticos da Lava-Jato:
“Quanto a essas ofensas, tem um ditado: não se deve atirar uma pedra em todo cachorro que ladra”.
É um jeito bem delicado de ser. Muito bonito e educativo. Moro atirou pedras pra todo lado. Eu sou um crítico do juiz, mas espero não ser tratado por ele como cachorro. Nem espero que ele me trate como tucano.

Jocosos

Quando não tenho nada para pensar, como numa segunda-feira ensolarada, penso na frase de Sergio Moro sobre Aécio, ao explicar em recente entrevista à TV a famosa foto com o mineirinho. Esta é a frase:
“O senador é uma pessoa espirituosa e tem seus momentos jocosos”.
O que Aécio teria dito de jocoso para Sergio Moro? Sergio Moro tem tanto tempo de convivência com Aécio (e com que frequência?) para poder defini-lo com tanto carinho e tanta graça?
E às vezes, quando não tenho nada para pensar, em penso também em Tacla Duran. Este eu acho mais jocoso do que Aécio. Mas não sei se o juiz tem a mesma opinião.