PEDE PRA FICAR, PADILHA

José Padilha, o cineasta que ajudou a propagar o ódio contra o PT e contra Lula e a exaltar Sergio Moro como herói nacional, saltou fora. Escreveu na Folha para dizer que Moro é uma farsa.
Por que Padilha e outros escrevem só agora para dizer que fizeram essas descobertas, quando todo mundo sabe que eles já sabiam que Moro apenas fazia (e continua fazendo agora como bolsonarista) o jogo do antipetismo?
Que história é essa de descobrir agora que Moro vai proteger as milícias e que as milícias estão dentro do governo?
Por que Padilha, que sabe tudo de milícias, só pediu pra sair agora, quando a direita gostaria que ele pedisse pra ficar abraçado a Bolsonaro?
Por que abrir a boca quando todo mundo já sabe que os amigos dos milicianos detêm o poder compartilhado com Sergio Moro?
O que não deu certo nos planos de Zé Padilha?

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Este é o artigo:

O ministro antiFalcone

Pacote de Moro contra o crime vai fortalecer milícias

José Padilha

Sergio Moro sabe que:
1 – As milícias são organizações criminosas controladas por policiais civis e militares corruptos e violentos;
2 – Esses policiais utilizam o aparato do Estado, como armas, helicópteros e caveirões, para expulsar o tráfico e dominar as favelas;
3 – As milícias cobram por proteção e dominam atividades econômicas importantes nas áreas que controlam: distribuição de sinais de TV e de gás de cozinha e transporte alternativo;
4 – As milícias decidem quem faz propaganda eleitoral nas suas áreas e financiam campanhas políticas;
5 – Milicianos e políticos ligados a milicianos foram eleitos no Brasil para cargos legislativos e executivos em níveis municipal, estadual e federal.
Mesmo sabendo de tudo isso, o ministro Sergio Moro declarou que as milícias representam a mesma coisa que as facções criminosas dentro das prisões, sugerindo que esses grupos operam como o varejo do tráfico de drogas.
Ora, o leitor sabe que sempre apoiei a operação Lava Jato e que chamei Sergio Moro de “samurai ronin”, numa alusão à independência política que, acreditava eu, balizava a sua conduta. Pois bem, quero reconhecer o erro que cometi.
O ministro da Justiça, Sergio Moro, durante participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça) Fabrice Coffrini – 22.jan.2019/AFP
Digo isso porque não há outra explicação: Sergio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro não foi o senador mais votado em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras por acaso…
O pacote anticrime que Sergio Moro enviou ao Congresso —embora razoável no que tange ao combate à corrupção corporativa e política— é absurdo no que se refere à luta contra as milícias. De fato, é um pacote pró-milícia, posto que facilita a violência policial.
Se Sergio Moro tivesse estudado os autos de resistência no Brasil teria descoberto que:
1 – Apenas no Rio de Janeiro, a cada seis horas, policiais em serviço matam alguém;
2 – A versão apresentada por esses policiais costuma ser a única fonte de informações nos inquéritos instaurados em delegacias para apurar os homicídios;
3 – Como policial tem fé pública, a sua versão embasa a excludente de ilicitude, evitando a prisão em flagrante;
4 – A Polícia Civil, além de raramente escutar testemunhas ou realizar perícias no local dos assassinatos, tem mania de desfazer as cenas do crime para prestar socorro às vítimas, apesar de a maioria delas morrer instantaneamente em decorrência de disparos no tórax;
5 – Desde 1969, quando o regime militar editou a ordem de serviço 803, que impede a prisão de policiais em caso de “auto de resistência”, apenas 2% dos casos são denunciados à Justiça e poucos chegam ao Tribunal do Júri.
Aprovado o pacote anticrime de Sergio Moro, esse número vai tender a zero. Isso porque o pacote prevê que, para justificar legitima defesa, bastará que o policial diga que estava sob “medo, surpresa ou violenta emoção” —ou, ainda, que realizava “ação para prevenir injusta e iminente agressão”.
O hábito que os policiais milicianos têm de plantar armas e drogas nos corpos de suas vítimas para justificar execuções é tão usual que deu origem a um jargão: todo bom miliciano carrega consigo um “kit bandido”. Aprovado o pacote de Moro, nem de “kit bandido” os milicianos precisarão mais.
Sergio Moro nunca sofreu atentados e nunca lidou com a máfia. Mas o juiz Giovanni Falcone, em quem o ministro diz se inspirar, foi morto aos 53 anos de idade na explosão de uma bomba colocada pela máfia em uma estrada. Sua mulher e três seguranças morreram com ele.
O crime foi uma reação da máfia à operação “Maxiprocesso”, que prendeu mais de 320 mafiosos na década de 1980. Ela deu origem à operação “Mãos Limpas”, que mostrou que a máfia elegia e controlava políticos importantes na Itália.
Ora, no contexto brasileiro, é obvio que o pacote anticrime de Moro vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política. Sergio Moro foi de “samurai ronin” a “antiFalcone”. Seu pacote anticorrupção é, também, um pacote pró-máfia.

José Padilha

Cineasta, diretor dos filmes “Tropa de Elite” (2007) e “Tropa de Elite 2” (2010).

O INCIDENTE DE MORO

O ex-juiz Sergio Moro disse que o assassinato de um trabalhador negro no Rio, executado com 80 tiros disparados por soldados do Exército, foi um incidente.
“Foi um incidente bastante trágico. Lamentavelmente, esses fatos podem acontecer”, disse Moro em entrevista a Pedro Bial. Não vi a entrevista, mas depois fui ver o vídeo. A frase está lá.
Incidente e lamentável são palavras que se prestam para qualquer situação. Um gol perdido pelo Grêmio é lamentável. Um acidente é um incidente. A perda de alguém é lamentável.
Um golpe, a eleição de um fascista. Tudo pode ficar na condição de incidente lamentável. Mas um golpe e o poder exercido por um fascista são bem mais do que isso.
Um crime como o que aconteceu no Rio também. Um crime não pode ser visto apenas como algo lamentável. Muito menos como incidente.
Um crime precisa ser definido como crime. Foi um assassinato. Dizer que foi lamentável é quase como não dizer nada.
O que aconteceu no Rio foi um crime, uma barbárie. E por que o ex-juiz não disse que foi um crime? Porque o ex-juiz não tem provas.
O ex-juiz deve querer provas de que o trabalhador foi executado pelos soldados que dispararam 80 tiros por engano. Porque o ex-juiz só trabalha com provas robustas.

Fumando

Sergio Moro criou um grupo de estudos (vejam só, um grupo) para avaliar a “conveniência e oportunidade” de redução da tributação dos cigarros.
Moro preocupado com o crime organizado e o PCC e, ao mesmo tempo, com o imposto de um vício, com o argumento do combate ao contrabando?
Muito estranho. E se levantarem a suspeita de que o ex-juiz virou lobista das fumageiras? Fica chato.

As brigas

Mantenha-se atento para poder acompanhar todas as brigas internas nos três poderes e de um poder contra o outro. Este é o balanço do momento.

Sergio Moro x Rodrigo Maia
Raquel Dodge x Deltan Dallagnol
Dallagnol x Dias Toffoli
Eduardo Bolsonaro x Supremo
Gilmar Mendes x Deltan Dallagnol
Sergio Moro x Gilmar Mendes
Carlucho Bolsonaro x Rodrigo Maia
Bebianno x Carlucho
Jair Bolsonaro x Rodrigo Maia
Onyx Lorenzoni x Maia
Chanceler Araujo x general Heleno
Olavo de Carvalho x Hamilton Mourão
Kim Kataguiri x Joice Hasselmann
General Santos Cruz x Olavo
Vélez-Rodrigues x evangélicos
Damares X diabo atrás da goiabeira

MORO PRESENTEIA BOLSONARO

O jornal argentino Página 12 diz o que a maioria dos brasileiros está pensando. Que a prisão do jaburu é um presente de aniversário de Sergio Moro para Bolsonaro.
O jornal observa que Bolsonaro e Moro enfrentam momentos difíceis. A prisão desvia a atenção para a Lava-Jato e tenta dar a entender que ninguém escapará.
O Página 12 assegura que, sem a colaboração de Sergio Moro durante a campanha eleitoral, Bolsonaro não teria sido eleito.
A prisão também põe o Supremo contra a parede. Com o STF cada vez mais atritado com o ex-juiz e os procuradores da Lava-Jato, quem terá coragem de autorizar a libertação do jaburu?
O que o jornal não diz é que a prisão terá um alto custo político, com o aumento da desagregação da base parlamentar de apoio ao governo, num momento em que se diz que a reforma da previdência não seria aprovada hoje pelo Congresso.
O jaburu pode, sem querer, puxar Bolsonaro para o penhasco.

A DIREITA PLAGIADORA

Alexandre de Moraes chegou ao Supremo sob a acusação de ser um jurista plagiador. Seu livro ‘Direitos Humanos Fundametais’ tem longos trechos de ‘Derechos Fundamentales y Principios Constitucionales’, do jurista espanhol Rubio Llorente.
Agora, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, acusa Sergio Moro de ter plagiado um projeto anticrime de Moraes, ao elaborar seu pacote contra o crime organizado. Moraes que plagiava foi plagiado.
Antes, a juíza federal Gabriela Hardt, que substituiu Moro na Vara Especial da Lava-Jato, foi acusada de plágio de uma sentença do chefe da Lava-Jato, ao condenar Lula no caso do sítio de Atibaia. Gabriela copiou a sentença de Moro no caso do tríplex. E ainda copiou errado.
A direita tem o plágio como uma tentação. A jornalista Joice Hasselmann plagiou mais de 60 reportagens. Copiava e assinava textos inteiros como se fossem dela. Todo o Brasil ficou sabendo, mas Joice foi eleita deputada federal pelo PSL em São Paulo.
Plagiador se dá bem no Brasil. Alexandre de Moraes virou ministro do Supremo, Sergio Moro é herói da direita e virou ministro da Justiça. Gabriela Hardt consagrou-se por ser uma juíza mais dura do que Moro plagiando o próprio Moro para condenar Lula. E Joice Hasselmann virou líder do governo no Congresso.
O plágio é uma doença que faz bem ao reacionarismo.

VIZINHOS, ARMAS E PIPOCAS

Vamos imaginar Sergio Moro tentando explicar aos agentes do FBI em Washington (dizem que ele terá encontro com os homens) como o maior traficante de armas do Brasil era vizinho do presidente da República. Não vizinhos de rua, mas do mesmo condomínio de luxo.

O traficante e matador de aluguel era vizinho de Bolsonaro e investigava na internet a vida de um professor desafeto do filho de Bolsonaro. Mas tudo por acaso.

Mas acasos são acasos. Contam que certa vez, nos anos 80, acharam um pipoqueiro vizinho de Lula em São Bernardo do Campo. Soube-se que o pipoqueiro havia juntado um dinheirinho e comprara o apartamento simples ao lado do apartamento de onde Lula e Marisa Letícia moravam.

O pipoqueiro disse ter ficado sabendo do imóvel à venda e pensou que poderia, quem sabe, ser vizinho do líder metalúrgico e depois deputado Constituinte. Era admirador de Lula e, depois que foi morar ali, Lula disse que o reconhecia como vizinho. Um sabia quem o outro era.

Agora, imaginem se forem fazer a mesma pergunta a Ronnie Lessa, o ex-sargento miliciano traficante de armas acusado de ter matado Marielle.

O que ele dirá sobre o fato de que foi morar, como inquilino, há três anos no condomínio da Barra numa casa a poucos metros da casa de Bolsonaro?

Ele pode dizer que não sabia que Bolsonaro morava ali naquelas casas da Barra da Tijuca. Que nem sabia quem era Bolsonaro. Que Bolsonaro não sabia que ele iria morar ali porque nem sabia quem ele era. Que a Barra tem menos de cem condomínios de luxo e que coincidências acontecem.

A vida é assim. Seu vizinho pode ser um pipoqueiro, que sabe quem você é e você sabe que ele existe, ou pode ser um matador de aluguel e traficante de armas, que não sabe que você existe, assim como você não sabe nada dele.

Armas e pipocas. Por coincidência, as duas estouram, mas só uma corrompe e mata.

Um juiz tensionado

Por que, depois da prisão do miliciano no condomínio da Barra, Sergio Moro tem piscado tanto? Um dia antes, numa entrevista, ele não abria os olhos.

Ontem, em palestra mostrada pela GloboNews, nesses apenas 13 segundos em que aparece ele pisca 36 vezes. Eu contei, com margem de erro de duas picadas para mais ou para menos.

O OLHAR DE SERGIO MORO

Sergio Moro não erguia a cabeça e não abria os olhos diante das câmeras de TV, enquanto falava para os repórteres sobre a prisão do homem acusado de ter assassinado Marielle.
Por que Moro não conseguia olhar para quem o questionava sobre a prisão do miliciano no condomínio dos Bolsonaros na Barra da Tijuca?
O ex-juiz está diante de um dilema que pode consumi-lo. É insustentável para um caçador de criminosos a convivência com amigos e parceiros de milicianos.
Homens públicos convivem com todo tipo de corrupto. Mas pela primeira vez passam a circular ao lado de cúmplices de milicias que abrigam assassinos de aluguel.
Por mais que Moro diga que não há nada provado contra o presidente, são muitas as conexões da família com milicianos. As homenagens de Flavio Bolsonaro, o dinheiro da caixinha gerida pelo Queiroz, as assessoras parentes de milicianos, o matador que por coincidência é vizinho do presidente.
Moro sabe que foi parar no lugar errado na hora errada, se é mesmo alguém disposto a perseguir o crime organizado. Nada é mais organizado hoje, nem mesmo o tráfico, do que a estrutura e o funcionamento das milícias no Rio.
Moro tem várias opções. A primeira é continuar, para não desistir da vaga ao Supremo, que é seu grande sonho.
A segunda é abandonar Bolsonaro e aliar-se aos militares, no autogolpe previsto já nas eleições por Hamilton Mourão.
E a terceira é ir embora, abrir uma banca para bacanas e ficar rico em poucos anos lidando com os casos de gente do crime empresarial organizado (ou alguém imagina que Moro irá defender os pobres?).
Sergio Moro caiu numa armadilha, porque desejava estar ao lado dos tucanos. O golpe o empurrou para os braços do bolsonarismo. Convivendo com quem convive, Moro pode, a qualquer momento, ser testemunha de algo grave.
Nas entrevistas, o ex-juiz não olhava para baixo, porque nem abria os olhos. Moro olhava para o fosso que pode tragá-lo junto com os Bolsonaros.