Padilhas

Estão clonando os telefones dos ministros do jaburu. O Jornal Nacional contou que os clonadores enviam mensagens a amigos dos ministros e até a desconhecidos, aleatoriamente, sempre pedindo dinheiro.
Seu Mércio me ligou dizendo que recebeu uma mensagem do Padilha: “Deposite R$ 5 mil hoje nesta conta, é urgente. Gratidão. Padilha”.
Só depois de ver a notícia hoje no Jornal Nacional é que seu Mércio entendeu o que se passava. E me contou a confusão:
“Achei que fosse o Padilha do seriado da Lava-Jato pedindo dinheiro para mais uma série da Netflix. Se eu soubesse que era o outro Padilha, até teria mandado algum”.
E desligou às gargalhadas.

Os jovens

Encontro seu Mércio numa esquina da Avenida Cavalhada. Ele desce da bicicleta e puxa conversa.
Digo que os eleitores de Bolsonaro terão de prestar contas não aos amigos e colegas, mas aos próprios filhos.
Um dia eles terão de dizer aos filhos, hoje adolescentes ou iniciando a faculdade, o que os levou a votar no Bolsonaro.
E aí seu Mércio me interrompe:
– Quanta ingenuidade. A realidade é dura, meu cumpadi. Tem muito filho dizendo aos pais que devem votar no Bolsonaro.
E monta na bicicleta se vai.

Extrato

Seu Mércio me telefona e conta que recebeu hoje à tarde uma daquelas ligações em que aparece no celular um número com prefixo de São Paulo.
Dizem que essas ligações são pilantragens. Quadrilhas tentam furtar os dados armazenados no telefone.
Pois seu Mércio conta que atendeu, depois de se prevenir e colocar nos seus arquivos de imagens, como isca, uma série de números com esta informação: extratos bancários do jaburu, que serão encaminhados ao ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo.
Ele disse que atendeu, mas quem estava do outro lado não se manifestou e desligou. Dois minutos depois, recebeu um torpedo: esses extratos não servem pra nada.

TRIPORCOS

Estava tomando meu mate com carqueja quando seu Mércio me ligou. Me contou que viu três porcos que pretendia comprar para engordar.
Foi até a casa do criador, na área rural da zona sul, viu os bichos, gostou e mandou um pedido para a Justiça. Os três porcos eram dele.
Ele me contou:
– Eu olhei os três porcos, visitei os porcos no chiqueiro, tenho fotos provando, queria os porcos pra mim.
Seu Mércio me informou que o juiz exigiu o original do recibo. Ele disse que não tinha, mas que se baseava na nova teoria do Judiciário brasileiro.
– A teoria do ‘seja dono do que você viu’.
O juiz disse que a teoria só era válida para triplex no Guarujá. Que ainda não valia para triporcos na zona sul de Porto Alegre.
Seu Mércio me contou que, antes de recorrer ao TRF4, vai chamar quatro delatores que viram tudo.

Preparem-se

Vou descendo a Eduardo Prado a pé e encontro seu Mércio de bicicleta. Paramos, comentamos o tempo e a eleição na Áustria e seu Mércio me veio com essa:
– Como é que eles não mexeram ainda com a Lei do Ventre Livre?
Eu fiz cara de quem achava uma hipótese meio sem sentido, mesmo sabendo que não se deve achar nada absurdo hoje, e seu Mércio interrompeu meu espanto.
– Te prepara porque tem mais.
Eu quis saber mais o quê, e seu Mércio montou na bicicleta e se foi, sempre repetindo:
– Te prepara… te prepara.

A falha

Encontro seu Mércio na ferragem da Juca Batista. Ele não aparece para comprar nada, mas só para provocar quem estiver por perto. E provoca:
– Se enfiaram o Ronaldo Nazário e o Luciano Huck num encontro com o Obama, como não conseguiram enfiar o Sergio Moro?
Dois balconistas fizeram um ‘é mesmo’ com os olhos, e seu Mércio completou:
– Algo falhou.
E depois largou mais esta:
– Obama não conseguiu fechar Guantánamo. Ele poderia saber de Sergio Moro como se humaniza uma masmorra liberal como a de Curitiba, onde uma prisão preventiva pode passar de ano.
Os que estavam na volta ficaram quietos e ele concluiu:
– Obama também poderia aprender métodos suaves de obtenção de delação (nos intercâmbios com o Ministério Público) em aulas com Sergio Moro.
Seu Mércio se despediu (ele sempre tira o boné e faz um aceno, quase uma reverência), desejou um bom fim de semana a todos e foi embora dando risada.

Limpinhos e respeitáveis

Seu Mércio chegou quieto hoje na ferragem. De repente, começou a falar sem parar. Comentou os últimos acontecimentos em Brasília e falou da desqualificação de Joesley Batista e outros delatores.
Seu Mércio disse:
– Esse pessoal que delatava para o Janot não valia nada. Vão destruir tudo o que eles disseram.
E continuou?
– Ainda bem que temos os delatores que delataram para o Sergio Moro. O juiz só lidou com delatores respeitáveis, bem cheirosos e limpinhos. Curitiba é outra categoria.
E saiu da ferragem às gargalhadas.

O delírio

Seu Mércio me liga com voz aflita. Informa que a manchete de todos os jornais neste momento, mas de todos mesmo, é esta: PIB cresceu 0,2% no trimestre e a economia dá sinais de recuperação.

São extensas as análises sobre o portentoso impacto de 0,2% na nossa vida. Os economistas da FGV estão em festa.

Seu Mércio me pergunta se não perdemos a noção de tudo, se não somos todos os tais sujeitos submissos da história. Quando iremos comemorar a recuperação de 0,2% da nossa capacidade de compreensão disso tudo?

Como alguém pode comemorar a destruição da economia? Como um jornal (um não, todos) pode comemorar um ‘crescimento’ de 0,2%, um ano depois do golpe, apenas num trimestre, e por causa do FGTS liberado, e sugerir que isso significa alguma coisa?

Seu Mércio defende que a flecha de prata de Janot espere o jaburu-da-mala no aeroporto. A flecha é a nossa salvação.

Mas seu Mércio admite: estou que nem os jornais, comecei a delirar.

O país, me disse seu Mércio, foi submetido ao delírio do golpe, aos delírios do jaburu, do Congresso e do Judiciário, enquanto é saqueado e espera a flecha de prata de Janot. A flecha, me disse seu Mércio, e repetiu: a flecha, a flecha… E desligou.

Mais uma do seu Mércio

Seu Mércio para a bicicleta na beira da calçada na Juca Batista e me dá a manchete:
“Sabia desta? Centenas de manifestantes marcharam nesta segunda-feira até a residência do presidente, no maior protesto desde que ele assumiu o cargo”.
Eu fiz uma cara de espantado, e seu Mércio completou:
“O homem se enfurnou em casa e as pessoas gritavam da calçada: fascista, vá embora… fascista, vá embora”.
Eu me espantei mais ainda e seu Mércio deu uma gargalhada e se foi pedalando e gritando:
“Em Nova York, em Nova York, em Nova York…”