A suprema desmoralização

O que ficou provado na sessão de ontem do Senado? Que a Justiça só alcança a esquerda, de preferência o PT. E que a direita é favorecida pelas vacilações e pela seletividade da Justiça, desde a primeira instância até a mais alta Corte do país.

Quando é para pegar um capo da direita, o Supremo inventa uma gambiarra, como inventou para Aécio Neves na mais constrangedora sessão do STF em todos os tempos. Ah, mas pegaram Cunha e Geddel. Pegam galinhas mortas, porque não há como não pegar.

Ontem, os senadores se esbaldaram desqualificando o Supremo. E a farra aconteceu porque a direita se adonou da política e da Justiça. As gangues das malas são donas do Brasil.

Pelo menos 19 investigados ou processados por corrupção atacaram o Supremo ontem, cada um a seu modo. O Supremo recebeu o troco que merece. Por ter permitido que Eduardo Cunha levasse até o fim a trama contra Dilma, por ter comandado a sessão do Senado do golpe de 31 de agosto do ano passado e por ter protagonizado a manobra que acabou por salvar Aécio.

O Supremo é a instituição mais desmoralizada de todas as instituições envolvidas ou omissas diante do golpe e seus desdobramentos. O Supremo avaliza a impunidade da direita e a articulação do novo golpe que vem aí.

Que espetáculo

A imagem mais comentada da sessão de ontem do Supremo é a da ministra Carmén Lúcia tropeçando nas próprias frases. Caindo, levantando-se, juntando cacos de argumentos, caindo de novo.

É só no que se fala hoje. Na ministra que deu o voto de minerva em favor do ponto de vista do Senado, apesar de ‘concordar’ com o voto do relator Edson Fachin. Concordava no essencial e discordava apenas em um detalhe. O detalhe era o essencial.

Carmén Lúcia seria a imagem acabada da confusão que o Supremo transmite aos mortais. Mas a melhor imagem do Judiciário atrapalhado pode ser a do ministro Alexandre de Moraes, o escolhido pelo jaburu. Moraes é alguém engasgado por tantas ideias ofegantes. Respira mal e está sempre um tom acima do que seria normal.

Se Moraes fosse um carro, seria um carro antigo com dupla carburação, em que um carburador nunca se entendia com o outro. Parece que a qualquer momento ele pode interromper sua argumentação e dizer: esperem, vou ver qual carburador está desregulado e começar de novo.

Se alguém de fora perguntar se as instituições funcionam no Brasil, mostre um vídeo de Alexandre de Moraes desregulado. Aquele emaranhado de pensamentos, com frases em que o sujeito vagueia atrás de verbos e predicados, aquilo é o Brasil hoje.

Que espetáculo o Supremo ofereceu ontem pela TV. Como diria Romero Jucá, assim se cumpriu o anunciado, com eles todos, com Moraes, com Carmén Lúcia, com Gilmar Mendes, com tudo.

Aécio vai dormir cedo

Aécio foi suspenso de novo do mandato de senador por decisão dos ministros da 1ª Turma do Supremo. A decisão foi por três a dois.
Os três que votaram pela suspensão: Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux. Os ministros Marco Aurélio Mello, relator do processo, e Alexandre de Moraes votaram para que o tucano permanecesse no Senado. Alguma surpresa?
Mas o Supremo negou pela terceira vez o pedido de prisão feito pelo Ministério Público. A única restrição é que Aécio se recolha cedo da noite à sua residência. Tive um aceso de riso de longa duração quando li esta parte.
Isso significa que Aécio só pode andar de helicóptero durante o dia? À noite é perigoso? Por que um sujeito acusado de corrupção e suspeito de querer mandar matar um primo-mula não pode sair à noite? Para não ser visto em bares, boates e restaurantes? Para o bem da moral e dos costumes? Para não ser flagrado no bafômetro?
O Supremo tirou o mandato e transformou Aécio em um zumbi político, mas um zumbi ao contrário, que circula durante o dia e se recolhe ao lar à noite.

O teatro de Gilmar Mendes

Gilmar Mendes quebrou 124 flechas de Rodrigo Janot durante a defesa do seu voto contra a apresentação da nova denúncia do Ministério Público em que o jaburu-da-mala é apontado como chefe de quadrilha.
Mendes quebrou o arco, quebrou as flechas, pulou em cima e só não sentou nas flechas porque é perigoso. Atacou Janot, os procuradores de Janot, atacou Joesley Batista, fez mais do que o advogado de defesa do jaburu tentou fazer.
Mas perdeu por sete votos a um. Seu voto foi, até agora, o único contra o prosseguimento da denúncia, que deve agora ser encaminhada à decisão da Câmara, para ser recusada pelos mesmos que refugaram a primeira acusação contra o jaburu.
Gilmar Mendes não tem mais nenhuma preocupação em atuar como advogado do jaburu no Supremo. E ninguém poderá impedi-lo de continuar atuando. O Supremo é um teatro desqualificado por frases em latim, argumentos rococós, poesia ruim e pela performance patética de Gilmar Mendes.

 

Um caso sem cura

Pronto. Aconteceu o que qualquer um poderia prever. O placar no Supremo estava assim: sete a zero a favor do encaminhamento à Câmara da nova denúncia do Ministério Público contra o jaburu-da-mala.
E foi aí então que surgiu o voto contra a denúncia e a favor do jaburu acusado de ser o chefe do Quadrilhão.
O voto foi dado agora. É uma rara peça de sabedoria e imparcialidade de um ministro, apenas um, o primeiro e único sábio do Supremo.
Quem votou a favor do jaburu? Quem?
Este é um caso sem tratamento, sem qualquer possibilidade de cura.

O tucano de Haia

Fiquei sabendo que professores de Direito de universidades diversas suspendem as aulas na hora do Jornal Nacional para que seus alunos assistam (alguns, em êxtase) às explanações diárias do ministro Alexandre de Moraes.
É a ressurreição do brilho e da exuberância retórica de um magistrado, como há muito não se via, que o JN nos oferece quase todos os dias quando Moraes apresenta os argumentos para seus votos.
Seria, como diria um crítico literário do século 20, um estilo gongórico-parnasiano-enrolativo do século 19. Moraes nos dá a sensação de um carro que se esforça para correr em segunda.

Que prestígio

Cena de Poderoso Chefão na prestigiada posse de Alexandre de Moraes no Supremo. Dez delatados e denunciados em algum momento pela Lava-Jato estavam lá para beijar a mão do homem indicado para o cargo pelo chefe de um governo lotado de corruptos.
Além do padrinho, apareceram, na maior cara de pau, Eliseu Padilha, Eunicio Oliveira, Rodrigo Maia, José Serra, Aécio Neves, Aloysio Nunes, Geraldo Alckmin, Beto Richa e outros menos votados.
E o Jornal Nacional e o povo preocupados com a cabeça de porco na salsicha da Friboi.

Os coquinhos do Bolsonaro

É assustadora a entrevista de Bolsonaro para a Folha. O homem desafia até o Supremo, onde está sendo processado pelas agressões covardes à deputada Maria do Rosário:
“Não é a imprensa nem o Supremo que vão falar o que é limite pra mim. Vão catar coquinho, não vou arredar em nada, não me arrependo de nada que falei”.
Bolsonaro sabe que o então presidente do Supremo comandou, em agosto, a sessão do Senado que cassou Dilma Rousseff por causa das pedaladas.
Esse Supremo que legitimou o golpe contra Dilma não teria como mandar Bolsonaro catar coquinho, agora que é presidido por uma mulher? Eu acho que teria, exatamente por isso.

A sabatina e a tese

Vale a pena dar uma espiada nas perguntas que foram encaminhadas ao Senado por cidadãos comuns, com sugestões para a sabatina do tucano Alexandre de Moraes na terça-feira.

Este é o link:

https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoaudiencia?id=10297

São mais de 400 perguntas, a grande maioria com interrogações e comentários que desqualificam o candidato. Nunca antes um candidato ao Supremo foi tão desrespeitado por suas atitudes contraditórias ou suspeitas.

Uma pergunta recorrente é sobre a famosa tese de doutorado em que Moraes defende que um governo não pode indicar alguém em cargo de confiança para ministro do Supremo.

É a grande questão: como confiar em alguém que passa anos estudando para formar uma convicção acadêmica (e na área da Justiça), convence uma banca de sábios de que está certo, vê sua tese aprovada e logo depois a despreza em nome de interesses pessoais?

Moraes estudou na USP, uma universidade pública. O contribuinte pagou por uma tese que não vale nada para quem a defendeu. A eleitora Débora Paiva sugere que o título do tucano seja cassado.

A sabatina poderá derrubá-lo, ou isso é otimismo demais?

 

 

A chalana

A noitada de Alexandre de Moraes com um grupo de senadores investigados por corrupção, na chalana Champagne, em Brasília, é desmoralizante demais para o Supremo.
O governo e o Congresso deixam claro que pretendem transformar o STF num puxado do Palácio do Jaburu.
O Brasil todo está nesta chalana, mas sem direito à champanhe. Somos todos serviçais resignados das festas do Jaburu.