TINHA QUE SER UM JOÃO

Ficamos esperando que pegassem Aécio, Serra, Azeredo ou algum tucano do cartel do metrô paulista ou do roubo da merenda, da mesma turma, mas aí pegam o perigoso deputado João Rodrigues.

João era prefeito de Pinhalzinho e comprou uma retroescavadeira de R$ 60 mil, sem licitação, há quase 20 anos. João está preso em Porto Alegre, aos cuidados do mesmo Tribunal Regional Federal que condenou Lula.

É mais uma grande lição do Judiciário e do Supremo este ano. O Supremo que livrou Jucá, que livrou Serra e que livrou Aécio decidiu pegar o João do PSD de Pinhalzinho, conduzido por forte escolta armada até Porto Alegre.

O político preso, para que possam dizer que Lula também pode ser encarcerado a qualquer momento, não é nenhum corrupto tucano graúdo. Tinha mesmo que se chamar João.

Para o Judiciário, todos nós somos Joãos, desde muito antes do golpe de agosto.

Liberou geral

Vai para sorteio no Supremo o caso em que Eliseu Padilha e Moreira Franco são citados como agentes do Quadrilhão do jaburu. O ministro Edson Fachin pensou, pensou, pensou bastante e decidiu que o inquérito não deve mesmo ficar com ele, porque não tem relação com a Lava-Jato.

Passou a bronca para Cármen Lúcia, que vai mandar o caso para sorteio. Entenderam? Sorteio, de novo.

Outra vantagem para os dois denunciados. Se o processo for parar na primeira instância (se os dois perderem o foro privilegiado depois da eleição), Sergio Moro fica de fora.

Se não é processo da Lava-Jato, nem vai para Curitiba. Evita-se o constrangimento de o juiz ter de lidar com um caso tão cabeludo e sem petistas envolvidos.

E aí, meu amigo, um processo com esses dois numa vara qualquer de primeira instância… Todo mundo sabe o que vai acontecer. Serra, Aécio, o jaburu, Padilha, Moreira Franco, todos vão escapar da Justiça. A única chance de pegá-los é pela ação política.

Da quadrilha do golpe, só um ficará na cadeia: Cunha, porque alguém tem que manter isso aí. Geddel não conta, porque esse era apenas o guarda-malas.

Cunha está quieto porque recebe comidinha especial todas as semanas e só teria algum valor como delator se dedurasse alguém do PT.

Cunha é um pelego velho. Mas deve ficar preso. Se sair da cadeia, pode querer comer brioches de novo com o jaburu.

O Supremo e o fumo

A indústria do fumo quer produzir cigarros aromatizados. Pra quê? Para contemplar paladares diversos e, claro, induzir os adolescentes a fumarem. É uma armadilha criminosa.

Podem dizer que as pessoas têm direito de escolha e fazem o que querem das suas vidas. A Anvisa acha que não, porque tal liberdade põe em risco a vida dos jovens. E proibiu o cigarro com sabor. A indústria recorreu ao Supremo e por pouco não venceu.

Cinco votaram pela manutenção da proibição, a relatora Rosa Weber,e os ministros Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Cármen Lúcia.

E outros cinco (CINCO!!!!) votaram pela liberação, os que votam sempre à direita, ou quase sempre, Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Marco Aurélio. Que turma. Luis Barroso se declarou impedido. O empate favoreceu a Anvisa.

O argumento de Alexandre de Moraes é sensacional. Ele lembrou que a Anvisa proíbe a produção de cigarros com aroma porque isso induziria os jovens (em especial os menores) ao consumo e ao vício, com danos que todos conhecem.

E fez então a defesa da indústria com essa pérola. A Anvisa, ao tentar proteger os jovens, suprimiu o direito dos adultos. Uau.

Até eu sei que os direitos de crianças e adolescentes estarão sempre acima dos direitos dos adultos. Principalmente quando se trata do direito à vida diante da ameaça de um vício que mata.

Alexandre de Moraes é a cara do Supremo.

 

SUAVE COM AÉCIO, IMPLACÁVEL COM LULA

Cármen Lúcia, a ministra do voto de minerva que livrou Aécio do julgamento do Judiciário que ela diz defender, é uma das figuras mais patéticas da República.
A presidente do Supremo, que não ergueu a voz para desempatar o caso de Aécio em favor da Justiça, agora é valente para falar alto e atacar Lula e o PT.
Seu voto em favor de Aécio foi tão confuso (empurrando o caso para o Senado) que precisou de constrangedora tradução do colega Celso de Mello, durante a sessão, ao vivo, ou não seria entendido por ninguém.
Para atacar Lula, que tenta reagir à caçada da Justiça, Cármen Lúcia não precisa de tradutor.

COM AÉCIO E COM TUDO

A ministra Cármen Lucia afirma que rediscutir a prisão de condenado em segunda instância, por causa do processo de Lula, seria “apequenar o Supremo”.
O Supremo se engrandeceu mesmo foi com o julgamento do caso de Aécio-da-mala, que a mais alta Corte do país devolveu ao Senado, para que o tucano fosse poupado.
Tudo com o voto de minerva de Cármen Lúcia, que teve de ser traduzido, de tão confuso e constrangedor, pelo ministro Celso de Mello.
Cármen Lúcia preside o Supremo.

O Judiciário desmoralizado

Não interessa se os juízes que irão determinar o futuro de Lula são os mais corretos e dedicados magistrados da Justiça Federal. Interessa que eles não podem ser apartados do contexto. E o contexto é de degradação do Judiciário, desde o começo da caçada a Lula e Dilma, em meio à assustadora expansão do fascismo e da censura, muitas vezes com o aval da própria Justiça.

É do que trata meu texto quinzena no jornal Extra Classe, no link abaixo:

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/11/os-juizes-diante-de-lula/

A suprema desmoralização

O que ficou provado na sessão de ontem do Senado? Que a Justiça só alcança a esquerda, de preferência o PT. E que a direita é favorecida pelas vacilações e pela seletividade da Justiça, desde a primeira instância até a mais alta Corte do país.

Quando é para pegar um capo da direita, o Supremo inventa uma gambiarra, como inventou para Aécio Neves na mais constrangedora sessão do STF em todos os tempos. Ah, mas pegaram Cunha e Geddel. Pegam galinhas mortas, porque não há como não pegar.

Ontem, os senadores se esbaldaram desqualificando o Supremo. E a farra aconteceu porque a direita se adonou da política e da Justiça. As gangues das malas são donas do Brasil.

Pelo menos 19 investigados ou processados por corrupção atacaram o Supremo ontem, cada um a seu modo. O Supremo recebeu o troco que merece. Por ter permitido que Eduardo Cunha levasse até o fim a trama contra Dilma, por ter comandado a sessão do Senado do golpe de 31 de agosto do ano passado e por ter protagonizado a manobra que acabou por salvar Aécio.

O Supremo é a instituição mais desmoralizada de todas as instituições envolvidas ou omissas diante do golpe e seus desdobramentos. O Supremo avaliza a impunidade da direita e a articulação do novo golpe que vem aí.

Que espetáculo

A imagem mais comentada da sessão de ontem do Supremo é a da ministra Carmén Lúcia tropeçando nas próprias frases. Caindo, levantando-se, juntando cacos de argumentos, caindo de novo.

É só no que se fala hoje. Na ministra que deu o voto de minerva em favor do ponto de vista do Senado, apesar de ‘concordar’ com o voto do relator Edson Fachin. Concordava no essencial e discordava apenas em um detalhe. O detalhe era o essencial.

Carmén Lúcia seria a imagem acabada da confusão que o Supremo transmite aos mortais. Mas a melhor imagem do Judiciário atrapalhado pode ser a do ministro Alexandre de Moraes, o escolhido pelo jaburu. Moraes é alguém engasgado por tantas ideias ofegantes. Respira mal e está sempre um tom acima do que seria normal.

Se Moraes fosse um carro, seria um carro antigo com dupla carburação, em que um carburador nunca se entendia com o outro. Parece que a qualquer momento ele pode interromper sua argumentação e dizer: esperem, vou ver qual carburador está desregulado e começar de novo.

Se alguém de fora perguntar se as instituições funcionam no Brasil, mostre um vídeo de Alexandre de Moraes desregulado. Aquele emaranhado de pensamentos, com frases em que o sujeito vagueia atrás de verbos e predicados, aquilo é o Brasil hoje.

Que espetáculo o Supremo ofereceu ontem pela TV. Como diria Romero Jucá, assim se cumpriu o anunciado, com eles todos, com Moraes, com Carmén Lúcia, com Gilmar Mendes, com tudo.

Aécio vai dormir cedo

Aécio foi suspenso de novo do mandato de senador por decisão dos ministros da 1ª Turma do Supremo. A decisão foi por três a dois.
Os três que votaram pela suspensão: Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux. Os ministros Marco Aurélio Mello, relator do processo, e Alexandre de Moraes votaram para que o tucano permanecesse no Senado. Alguma surpresa?
Mas o Supremo negou pela terceira vez o pedido de prisão feito pelo Ministério Público. A única restrição é que Aécio se recolha cedo da noite à sua residência. Tive um aceso de riso de longa duração quando li esta parte.
Isso significa que Aécio só pode andar de helicóptero durante o dia? À noite é perigoso? Por que um sujeito acusado de corrupção e suspeito de querer mandar matar um primo-mula não pode sair à noite? Para não ser visto em bares, boates e restaurantes? Para o bem da moral e dos costumes? Para não ser flagrado no bafômetro?
O Supremo tirou o mandato e transformou Aécio em um zumbi político, mas um zumbi ao contrário, que circula durante o dia e se recolhe ao lar à noite.