A conversinha de Tabata

Tabata Amaral no Roda Viva reafirma o que é logo nas primeiras falas. Essa moça é a figura mais egocêntrica da política, talvez mais do que Ciro Gomes.
Ela é quem pratica a nova política. Ela representa a pureza na política. É atacada por ser jovem. Ela é criticada por ser mulher.
Ela é o máximo por ter uma missão aparentemente divina por ser perfeita. É o que ela acha que é.
E Tabata é apenas uma jovem reacionária com a velha conversa da direita.
(E disse na maior cara de pau, no último bloco, que se considera de esquerda.)
Que perigo essa Tabata.

A SANTINHA

Tabata Amaral entrevistada por Mario Sergio Conti na GloboNews. A nova direita tem um modelo irresistível, que já está consagrado (pessoa bacana, arejada, humanista, inclusiva, mas no essencial politicamente reacionária) e vai crescer nas eleições municipais.
Essa nova direita bonitinha vai dominar as cidades, porque é nas cidades que estão os grandes negócios.
Tabata é uma escapista. No 7 de Setembro, não irá às ruas porque precisa ficar em casa estudando seus projetos…
A frase da moça que se nega a se vestir de preto para protestar com os estudantes: “Meu ativismo hoje é na Câmara”.
(E ainda se protege na conversa de que é atacada por ser mulher. Tabata parece uma santinha, uma versão mais doce da conversa religiosa de Deltan Dallagnol.)

ACREDITE

Para quem achava que a deputada trabalhista Tabata Amaral ainda merecia uma chance como representante de uma nova esquerda meio liberal, meio assim, meio direita, meio tucana, mas sempre com a cara do que seria a nova política.
Tabata é a velha política, não só por ser uma neoliberal dentro do PDT. Agora se sabe que ela recebeu R$1,3 milhão de doadores privados (empresários graúdos, é claro) na campanha. É dinheiro gordo doado pela direita ideológica. E ela teve ainda R$ 100 mil do fundo partidário, que é dinheiro público.
E o que Tabata fez com parte do dinheiro? Desembolsou R$ 23 mil para o namorado, o colombiano Daniel Martinez Garcia, por serviços prestados como assessor.
Tabata fez o que os políticos tradicionais, que ela diz combater, sempre fizeram. Deu dinheiro para quem não deveria ter dado. Parece pouco, mas deu.
O movimento que ela lidera, com gente endinheirada de São Paulo, chama-se Acredito. Esse é o nome. Acredite.

O MODELO TABATA

Por que estão falando tanto da deputada Tabata Amaral? Porque ela é uma das novas celebridades de política. Não adianta querer falar dos “outros” deputados presumivelmente de esquerda que votaram pela reforma da previdência. Eu não sei quem são os outros. Ninguém sabe.

Mas todos nós sabemos quem é Tabata, ou quem poderia ter sido. Não há nada contra as mulheres. Não é nada disso, não caiam na armadilha de ver machismo nas críticas à Tabata, não se protejam nesse recurso. Fica chato.

A deputada está na vida pública, tomou uma decisão considerada controversa como parlamentar do PDT e agora se submete ao debate. Assim funciona a política.

Não é linchamento. Não subestimem a capacidade de reação da pedetista, nem tratem Tabata como uma adolescente indefesa.

A questão é que Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo brasileiro. Ela se afirma como um modelo.

O modelo Tabata vai estourar mesmo nas eleições municipais. O empresariado que financiou políticos com esse perfil, já na última eleição, jogará pesado no ano que vem.

As câmaras de vereadores estarão lotadas de Tabatas. Muitas assembleias estaduais já têm gente com essa pegada, todos financiados pelo empresariado. Pois teremos mais.

O que vem aí com força é essa direita dita esclarecida, camuflada num centro que na verdade não existe. Uma direita fofa, avançada em relação a costumes, questões ambientais e outros temas, que aborda bem os impasses da educação, mas que é reacionária diante das grandes questões políticas e econômicas e dos movimentos sociais.

Por isso, na votação da reforma da previdência, o que interessa é apoiar o esforço fiscal. Não interessa se a reforma vai punir os mais pobres. Mas Tabata ama os pobres.

Hoje, a Folha traz uma matéria sobre o fortalecimento dos lastros orgânicos da direita em São Paulo. É gente nova que se acomodou nas assessorias dos partidos e inclusive nas estruturas de gestão da prefeitura e do governo do Estado e que se organiza nas redes sociais de uma forma que só a direita sabe fazer.

Um exemplo seria o Direita SP (DSP), um movimento que pretende se transformar em partido e que se alastra pelo interior paulista.

É gente com muito apoio empresarial. Como diz meu amigo Suimar Bressan, não há democracia que aguente essa dinheirama dos Jorges Paulos Lemanns e suas cervejarias. Não há como enfrentá-los.

E a esquerda? A esquerda cai todos os dias do caminhão de mudança.

PARECIDA COM QUEM?

As primeiras notícias, logo depois da eleição consagradora de Tabata Amaral (PDT-SP) para a Câmara, tentavam aproximá-la do perfil de Manuela D’Ávila. Jovem, bonita, atrevida, bem-falante, carismática… mas de centro.
Parecida com a Manuela, mas de ‘centro’? Então não era parecida. Eu não conhecia Tabata e fiquei meio perdido logo no começo. Aos poucos, descobriu-se que a deputada havia sido uma das apostas dos ricaços paulistas, incluindo Paulo Lemann, dono de quase todas as cervejarias do mundo.
Tabata foi financiada pelo empresariado das altas granas para ser uma das vozes do liberalismo mais cordial, mais gourmet, com essa cara de progressista nos costumes e reaça na economia e na política.
Sorte dela de ter apoio dessa gente que faz marketing com benemerências e altruísmos com patrocínio da Brahma. Eles têm dinheiro, têm a grama mais bonita na frente da casa, têm poder, são amigos do Sergio Moro, taparam o nariz e elegeram Bolsonaro e podem eleger jovens deputadas ditas de centro.
A direita tem a dinheirama que a esquerda não tem. Pois Tabata vai votar ou já votou pela reforma da previdência do Bolsonaro e pode ser expulsa do PDT. Ela vive repetindo que esquerda e direita são definições que perderam o significado, ou seja, reflete como alguém de direita.
A deputada diz que a reforma é boa para o país por isso e aquilo, mais por isso do que por aquilo etc. E diziam que a moça era parecida com a Manuela.