POBRE RIO

O Rio deveria ser para sempre a cidade mais bela e alegre do Brasil, porque o Rio era o que toda cidade gostaria de ter sido. Era.

O Rio se transformou no centro irradiador de desgraças políticas e de tantas outras desgraças, em todas as áreas.

O Rio tem um prefeito que vê o diabo se movimentando entre o povo que o elegeu, porque o prefeito odeia Carnaval.

O Rio elegeu um prefeito fundamentalista que abomina as liberdades e a alegria da cidade. E agora elegeu um governador também fundamentalista que estimula a polícia a matar quem se mexer e estiver sob suspeita.

E os que estão sempre sob suspeita são os jovens pobres e negros, que são mortos mesmo quando não se mexem. Os pobres elegeram esse governador.

O Rio inventou as milícias. E as milícias chegam agora ao poder como amigas dos Bolsonaros, porque o Rio também nos deu os Bolsonaros. Os Bolsonaros são uma genuína invenção carioca.

Esse Rio tão lindo propaga desgraças políticas e convive com todo tipo de tragédia, das ditas ‘naturais’, que também pune os pobres, às tragédias anunciadas, como essa do incêndio no Flamengo, num lugar que deveria estar interditado.

O clube mais popular do Brasil faz o Brasil chorar com a morte de adolescentes vindos de toda parte do país para levar adiante o maior de todos os sonhos de um menino brasileiro. Eles queriam ser craques. O Rio mata Marielles e mata craques.

Mario Quintana disse do Rio que seus túneis tinham a função de fazer seus olhos descansarem de tanta beleza.

Nelson Rodrigues escreveu assim sobre o Rio: “Em São Paulo, de vez em quando eu tenho vontade de sentar no meio fio, na Avenida São João, e chorar de saudade, de nostalgia profunda”.

Nelson falou dessa saudade do Rio em 1967. Que falta sentimos todos nós desse Rio literário do tempo de Nelson Rodrigues, quando ainda era possível romantizar toda forma de miséria humana.

A tragédia e os jornalistas

Ninguém é mais alegre e feliz no jornalismo do que um repórter de futebol. Dos 20 jornalistas mortos no avião da Chape, a metade era uma gurizada. Estava vendo agora seus retratos no site do Globo.
O futebol é o campo de entrada de muita gente na profissão e uma área ainda povoada de veteranos, apesar do desprezo de certas organizações com quem tem mais de 50 anos.
A tragédia acaba com projetos pessoais e familiares e com talentos que ajudariam a configurar mais adiante a nova imprensa do século 21. Os que morreram davam forma ao jornalismo que vem tentando ser diferente do que se faz até hoje.

O caráter da Chapecoense

Leio pouco sobre futebol, além dos comentaristas que admiro. Mas li bastante sobre o fenômeno Chapecoense nos últimos meses.
Sabemos que a tragédia se abate sobre vidas e sobre uma ideia, sobre um novo modelo de clube que vinha sendo construído no futebol brasileiro, na contramão dos cartolas corruptos e aproveitadores.
Agora há pouco li uma frase do presidente do conselho deliberativo, Plínio David De Nês Filho, em que ele diz que “dinheiro demais pode atrapalhar”, e rejeita que um clube tenha de sobreviver de ajuda oficial.
“O nosso modelo evita depender de cofres públicos. Acreditamos que a prefeitura não precisa investir no futebol, mas na educação e na saúde da população”.
Que esse caráter da Chapecoense sobreviva e inspire o surgimento da nova geração de gestores de um futebol onde ainda há dinheiro demais e gestão e honestidade de menos.