ELES E OS ÍNDIOS

O que Trump não disse e que o filho de Bolsonaro gostaria que ele tivesse dito?
Por que o filho e o chanceler terraplanista não sabiam o que dizer ao final do encontro na Casa Branca?
Existiu o encontro? Por que os dois não fizeram o gesto mais previsível do bolsonarismo, divulgando uma foto espalhafatosa logo depois da reunião?
Trump não incentivou o exibicionismo para não mandar recados ao pai pelo filho que talvez não consiga chegar aonde quer?
O bolsonarismo transformou tudo em roteiro de republiqueta, com o pai, os filhos, os espíritos do fascismo incendiário, a relação promíscua com os americanos e a certeza de que a política abriga da intimidade com as milícias aos grandes interesses internacionais predadores da Amazônia. Tudo com naturalidade e conluios diversos.
É possível que Bolsonaro tenha uma declaração bombástica a fazer hoje com o recado de Trump, ou que talvez não tenha nada.
Talvez só o que tenha a dizer foi o que disse ontem, que é preciso acabar com as terras dos índios. Só com as terras, não com os índios, que se esclareça. Os índios que se virem no empreendedorismo e na meritocracia amazônica.
Nós todos somos os índios, inclusive metade dos bolsonaristas. Os outros são donos ou se acham donos ou revendedores dos espelhinhos.

ENTREGARAM TUDO

Um dos filhos de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, disse nos Estados Unidos que o brasileiro quer mesmo é entrar sem visto na terra do Trump para ficar por lá como clandestino. Esse pessoal envergonha o Brasil, segundo o rapaz.

Bolsonaro pai disse logo depois que a maior parte dos imigrantes que tentam entrar nos Estados Unidos, incluindo brasileiros, não tem boas intenções.

O pai já havia contrariado os interesses de exportadores brasileiros para os mercados árabes e da China, embarcando numa manobra americana que favorece o mercado americano.

Nos Estados Unidos, o pai disse também que a Amazônia não é mais nossa. E anunciou o decreto que permite que americanos entrem sem visto no Brasil. E ainda fechou um acordo que permite o uso da Base de Alcântara pelos americanos.

Vivemos uma situação inédita no mundo. Um presidente vai à maior potência mundial para defender unicamente os interesses do país visitado. E não ganha nada. Nada.

Não se esperava que ele defendesse o povo, porque o povo nem consegue viajar mais (como fazia nos tempos de Lula e Dilma).

Mas ele não defende nem os interesses dos produtores, nem da classe média que o apoiou. E aí surge de novo aquela pergunta. Como Bolsonaro teve apoio suficiente para se eleger e continua com apoio de boa parte da população?

É simples. Porque os eleitores de Bolsonaro da classe média se acham defensores dos ideais americanos. E os pobres que votaram nele acham que têm os mesmos interesses dessa classe média.

O brasileiro médio tem em Bolsonaro um espelho do que pensa que é. Bolsonaro pensa que, bajulando Trump, banca o esperto. A classe média também. E o pobre de direita faz o mesmo.

Em casos como esses, não são os espertos que vencem, são os imbecis que perdem.

OS MIGRANTES E A FARSA DAS LIBERDADES

Prestem atenção nessa história escabrosa. O governo criou uma lista negra de jornalistas que acompanham caravanas de migrantes. Tudo sob controle de um grupo de arapongas da chamada Unidade de Cooperação Internacional.
O objetivo é cuidar os passos não só dos migrantes miseráveis, mas dos jornalistas que cobrem suas lutas e suas caminhadas.
Descobriu-se que 10 jornalistas têm dossiês elaborados pelos arapongas com detalhes de tudo o que fazem.
Os dossiês têm fotos, datas de nascimento, descrições do trabalho realizado pelos monitorados e informações sobre detenções e interrogações anteriores.
São migrantes e jornalistas monitorados e fichados. Está contado em reportagem da Folha, com dados obtidos pela rede de TV NBC.
Onde acontece isso? Na Venezuela de Maduro, patrulhada pelas ‘liberdades’ dos Estados Unidos de Trump?
Não. Nos Estados Unidos do fascismo de Trump, que controla a vida de migrantes da América Central e de jornalistas que tentam entrar no México e nos Estados Unidos.
Controlam a vida de quem toma a estrada para tentar fugir da miséria e de quem acompanha esses miseráveis como jornalista para contar suas jornadas de sofrimento e frustração.
Essa é a democracia que pretende continuar patrulhando o mundo e declarar guerra à Venezuela com a ajuda de Bolsonaro.

RACISTAS

Donald Trump faz nos Estados Unidos com os imigrantes o que muitos descendentes de imigrantes do Rio Grande do Sul gostariam de fazer com aqueles que percorrem caminhos semelhantes aos dos seus ancestrais.
Ambos, Trump e muitos descendentes gaúchos de imigrantes europeus, são racistas. São mais do que xenófobos. São racistas mesmo.
O site do UOL reproduz hoje uma reportagem da BBC sobre Friedrich Trump, o avô de Trump. E o avô de Trump foi um imigrante alemão miserável que chegou aos 16 anos a Nova York, em 1885.
O velho Trump viajou na terceira classe de um navio. Sem nada. Sem saber falar uma palavra de inglês. Sem dinheiro. Apenas com o sonho de sair da miséria e prosperar.
Pois prosperou. Mas hoje seu neto rico odeia imigrantes. E muitos dos racistas gaúchos sofrem do mesmo mal. Muitos descendentes de colonos europeus que chegaram aqui sem nada são racistas.
Vale para os descendentes das mais variadas etnias. A maioria dos seus ancestrais chegou aqui como escória da Europa. Muitos eram criminosos que saíram da cadeia e foram despachados para a nova terra.
A Europa se livrou dos que não tinham propriedades e não conseguiam competir no ambiente da revolução industrial. Se ficassem lá, morreriam de fome.
Mas seus descendentes da quarta ou da quinta geração são racistas. Não a maioria. A maioria sabe suas origens e respeita os migrantes do século 21. Mas uma minoria, se pudesse, mandaria haitianos, senegaleses e outros imigrantes de volta.
Por não gostarem de ‘estranhos’ e miseráveis, por temerem a competição com os pobres que chegam de fora. Por ódio mesmo. É triste, mas é real. Negar a xenofobia e o racismo só nos envergonha ainda mais.
(O link da reportagem está na área de comentários.)

 

Auditores

Trump debocha de Hollywood pelas gafes do Oscar e assim imagina estar atacando o cinema, a arte e os artistas que o avacalharam na festa.

A gafe fica na conta da turma do próprio Trump. Quem errou não foram os artistas, mas o pessoal de uma das ferramentas mais vulneráveis e muitas vezes farsantes do capitalismo. Foi o pessoal dos controles, dá auditoria, que falhou.

Só os ingênuos imaginaram que o erro poderia ter sido de Warren Beatty (viva Warren Beatty). O erro foi da PriceWaterhouseCoopers, uma das mais poderosas empresas de auditagem do mundo. Eles cuidam desde a contagem dos votos e da arrumação dos envelopes, tratam de detalhes para que ninguém suspeite de fraudes.

São essas as empresas que, vai e volta, aparecem em notícias sobre, exatamente, fraudes. Por descontrole, por omissão, por cumplicidade.

Foram as empresas de auditoria que não identificaram as fraudes bancárias da crise financeira de 2008.

Os homens destas empresas são amigos do Trump, e não dos artistas de Hollywood.

Lá e cá

Jornalistas da grande imprensa americana estão sendo barrados pela Casa Branca. Os considerados inimigos não podem participar de entrevistas coletivas. Trump odeia a grande imprensa.Watch Cyberbully (2015) Full Movie Online Streaming Online and Download

Aqui, a grande imprensa é a primeira a ser chamada pelo Jaburu. O Jaburu ama a grande imprensa. E a grande imprensa adora o Jaburu.

 

Jornalismo e futebol

Comparar  e tentar equiparar a imprensa americana à imprensa brasileira é mais ou menos como comparar o futebol americano (o jogado com os pés) ao futebol brasileiro.
E, mesmo assim, muitos continuam comparando, por causa dos ataques do governo Trump aos jornalistas e porque (imagine a comparação) Lula também critica a imprensa aqui.
A imprensa americana é, por vocação e como negócio, uma imprensa liberal conservadora agora sob o ataque de uma aberração política de direita.
A imprensa brasileira que teme Lula é reacionária e golpista, desde Getúlio, e aperfeiçoou essa vocação antes e depois da trama de agosto que cassou Dilma Rousseff.
Ah, mas tem grandes jornalistas. Claro que tem, mas essa é outra história. O futebol americano, o soccer deles, também tem grandes jogadores.

Comparações

Me contaram que saiu um texto assinado num jornal gaúcho, no fim de semana, comparando os ataques de Trump à imprensa americana às críticas de Lula à imprensa brasileira.

Como meu informante é confiável, eu acreditei. Mas é de duvidar que um jornalista possa fazer comparação tão esdrúxula.

Comparar Lula a Trump e a imprensa liberal americana à imprensa golpista brasileira é subestimar a inteligência média dos leitores.

A imprensa americana, com todos os seus defeitos (e muitos erros históricos graves), combate a direita raivosa representada por Trump. A imprensa brasileira, decadente, alquebrada e tomada por reacionários, agrega todos os ódios da direita e ajudou na articulação do golpe.

Não há como comparar uma e outra sem ser ridículo.

 

Eles são muito chatos

O que impressiona nas aparições públicas de Donald Trump nem é o reacionarismo, é a precariedade do discurso (como se viu de novo ontem).

Os reacionários do mundo perderam a capacidade de produzir e expressar ideias complexas, mesmo que tortas, discriminadoras e amorais.

A retórica dos reacionários é rasteira, e nem sempre foi assim. Trump sustenta sua fala no primeiro estágio do senso comum, a praga do século 21.

O senso comum internacional, este que contagia a todos via internet, é o mesmo de um Temer, um Reinaldo Azevedo, um Sergio Moro, um Bolsonaro ou um Trump.

Todos falam em nome do povo, da moral, dos bons modos, da justiça, da família e do país. Alguns conseguem ser gongóricos e parnasianos. Mas, no que tem de mais básica, a conversa de um e de outros é a mesma. É precária, empobrecedora, emburrecedora e enganosa.

A direita moralista está mais medíocre e talvez por isso mesmo continue avançando. A direita é chata demais.

 

Os escroques

A maior vingança de velhos comunistas é saber que a extrema direita elegeu Trump com a ajuda da Rússia.

A Rússia mafiosa de Putin não tem mais nada do velho comunismo, e Trump é uma caricatura grotesca da direita americana. Mas é divertido observá-los lado a lado, pelo que apenas aparentam representar.

A guerra fria do século 21 passa a ser uma farsa que Trump e Putin transformaram agora num grande negócio. Os americanos não elegeram apenas um republicano ultra-reacionário, elegeram o seu maior pilantra.

Os humores do mundo estão entregues a dois escroques. Os chineses, quem diria, são os sensatos do mundo hoje.