Extrema direita ainda sob controle

Esse sujeito é Carlos Techera, militar uruguaio reformado. Produziu um vídeo em que sugere que o presidente Tabaré Vázquez e líderes da Frente Ampla sejam eliminados, incluindo Pepe Mujica.
Um juiz mandou prendê-lo. No Uruguai, a Justiça ainda consegue enquadrar a extrema direita. Ainda.

A EXTREMA DIREITA COME A DIREITA

A direita uruguaia tem o modelo brasileiro à disposição para montar seu projeto de governo. Mas o blanco Lacalle Pou, se confirmado como vencedor (o que parece irreversível), terá de compartilhar o poder com o partido de extrema direita Cabildo Abierto, liderado pelo general Guido Manini Ríos (à esquerda na foto).
Pois vejam quais são os dois ministérios que ele terá de ceder ao pessoal do general, segundo o jornal El País: Saúde Pública e Ordenamento Territorial e Meio Ambiente.
A extrema direita uruguaia cuidará do SUS deles e das complexas questões referentes à ocupação do solo, ambiente, rios, florestas. É tudo o que eles querem. Precarizar e privatizar a saúde e entregar os espaços urbanos e rurais à especulação urbana e rural descontrolada, como acontece aqui.
A questão é saber como os militares liderados pelo general reaça irão se comportar no poder, depois de 15 anos de Frente Ampla. O fraco Lacalle Pou depende dos votos deles no Congresso para governar. É provável que a extrema direita assuma, sem sutilezas, o controle do Uruguai.
O fascismo avança por toda parte. Também na Bolívia a extrema direita se prepara para comer a direita. Luis Fernando Camacho, El Macho (à direita), líder do golpe, chefe do tal movimento cívico, anunciou hoje que será candidato a presidente.
O ex-presidente Carlos Mesa, da direita moderada, derrotado por Evo Morales nas eleições, terá de dividir espaço com o extremista.
Com dois candidatos fortes, a direita pode ir dividida para a eleição que deve acontecer logo, se El Macho não cumprir o que vem ameaçando: tirar Mesa do caminho e se transformar, como candidato único do reacionarismo, no Bolsonaro boliviano.

O URUGUAI EM SUSPENSE

Ninguém respira no Uruguai, porque ninguém sabe quem venceu. Mas é preciso admitir que hoje a realidade é essa, pelo que mostram os números: depois de 15 anos, a Frente Ampla de Tabaré e Mujica pode deixar o poder e ser oposição.
Se Daniel Martínez for derrotado por Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, a velha direita dos blancos, muda tudo, ou quase tudo.
É do jogo. Mas os uruguaios fazem perguntas básicas: é possível que a direita respeite os avanços democráticos e a base das conquistas sociais dessa década e meia?
A outra pergunta: que poder terão os militares num governo de direita e considerando que um general reformado, o ultradireitista Guido Manini Ríos, teve 11% dos votos no primeiro turno e apoiou Lacalle Pou?
(Sempre lembrando que Guido Manini Ríos, eleito senador, foi chefe do Exército do governo da Frente Ampla de 2015 até o início desde ano. Em setembro, o militar andou visitando gente da extrema direita no Brasil e conversou até com o vice Hamilton Mourão. Foi ele quem liderou, às vésperas do segundo turno, uma série de ataques às Frente Ampla, com o uso de mensagens pelo WhatsApp.)

À espera do milagre no Uruguai

Primeira pesquisa para o segundo turno no Uruguai, que acontece dia 24 de novembro.
Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, tem 47% das intenções de voto, e Daniel Martínez, da Frente Ampla, está com 42%.
Há apenas 6% de indecisos e 5% votariam em branco ou anulariam o voto.
Martínez está melhor em Montevidéu (48% a 41% de Lacalle) e o candidato blanco vence no interior (52% a 37%).
A direita conseguiu o que era previsto: saiu na frente para o segundo turno, porque obteve apoios da centro-esquerda de Ernesto Talvi, do Partido Colorado (inimigo histórico dos blancos), e da extrema direita do general reformado Guido Maníni Rios (Cabildo Aberto).
Agora, é torcer à distância pela virada.

MILAGRE URUGUAIO

É complicada a situação da Frente Ampla no Uruguai. Daniel Martinez conseguiu 39,17% dos votos. Mas a Frente Ampla encolheu e, se vencer no segundo turno, não terá maioria no Congresso.

Luis Laccalle Pou, do Partido Nacional (o velho partido Blanco, da direita), obteve 28,59%. Já tem o apoio declarado para o segundo turno de Ernesto Talvi, do Partido Colorado, de centro, mas que vinha pendendo para a direita (12,32% do eleitorado), e do ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos, do Cabildo Abierto, o Bolsonaro deles (com 10,88%).

O interessante é que a Frente Ampla chegou ao poder há 15 anos ao quebrar, com a eleição de Tabaré Vásquez, a polarização blancos x colorados, que vem desde o século 19.

Agora, os reacionários dos blancos se unem ao centro dos colorados, seus inimigos históricos, e ganham o reforço da extrema direita de Guido Manini Rios para retomar o poder.

Numa simplificação matemática, os blancos venceriam com sobra no segundo turno, se tivessem o apoio integral dos aliados já conquistados. Mas a política não é o simples resultado de somas.

A Frente Ampla terá de buscar votos entre os colorados, porque os demais partidos são eleitoralmente insignificantes. As esquerdas uruguaias dependem de um milagre.

O que eles nos ensinam

Lições da Argentina e do Uruguai, que vão às urnas hoje, e do Chile, onde o povo se levanta contra o que seria o modelo de liberalismo para todos.
Em todos, a direita não conseguiu sequestrar a bandeira e suas cores e tampouco se apropriou da camiseta da seleção de futebol.
Na Argentina, eles tentaram encarcerar Cristina antes da eleição, para imitar o que fizeram com Lula aqui. Também não conseguiram.
O único país em que a direita se adonou de símbolos e fez e faz o que bem entende é o Brasil. Nem o Paraguai chega a tanto.
O Brasil só irá se livrar do fascismo no dia em que resgatar a bandeira. Eles podem ficar com a camiseta da seleção, o Neymar e o véio da Havan.

O GENERAL DELES

Os uruguaios não deixam a memória da ditadura e seus cúmplices em paz. A notícia de hoje no jornal Brecha é a descoberta de novos documentos com o registro de escutas telefônicas de um esquema em que generais perseguiram um general durante a ditadura (1973-1984) e muitos anos depois.

O general é Líber Seregni, que morreu em 2004 aos 88 anos. Sem ele, talvez não existisse a Frente Ampla, que ajudou a fundar, e a viabilização de um líder político como José Mujica.

Seregni já estava na reserva quando se opôs à ditadura, mobilizou as esquerdas pela criação da Frente Ampla e foi encarcerado por 10 anos. Seregni é o primeiro grande líder da Frente Ampla.

Libertado em 1984, continuou sob perseguição, como já mostraram documentos divulgados nos últimos anos, reforçados pelas revelações de agora sobre como os arapongas dos ditadores ouviam as conversas do general e da sua família.

O outro assunto que não sai dos jornais de esquerda é a continuação das escavações em um antigo quartel de Montevidéu, onde essa semana foi encontrado o cadáver de um desaparecido político.

Os uruguaios querem saber onde estão os restos de 194 desaparecidos (apenas quatro ossadas foram localizadas), com um bom argumento, resumido nessa frase do senador da Frente Ampla Rafael Michelini:
“Seguir buscando é a melhor homenagem”.

Michelini é filho de Zelmar Michelini, também senador, assassinado em Buenos Aires numa das ‘trocas’ de prisioneiros da Operação Condor, que estabeleceu intercâmbios macabros entre as ditaduras da América Latina nos anos 70 e 80.

O resumo disso tudo, num momento em que a memória da resistência ganha vitalidade no Uruguai, é que eles tiveram um general que não só se rebelou contra a ditadura como articulou a organização da resistência numa frente impensável à época.

Cada um com seus generais.

Eles não se acovardam

Agora uma marcha muito real. Chovia agora à noite em Montevidéu quando milhares de uruguaios realizaram uma manifestação inimaginável no Brasil. A Marcha do Silêncio, que ataca a omissão e impunidade dos militares em relação aos desaparecidos políticos da ditadura.
A passeata tem esse slogan: “Que nos digam onde estão”. Foi a caminhada de número 24 realizada pelas Mães e Familiares dos Uruguaios Presos e Desaparecidos.
Este ano, o movimento ganhou força pela revelação de um assassino sobre sua participação no acobertamento de mortes durante o regime militar nos anos 70.
Chefes militares e integrantes de uma corte militar foram destituídos pelo governo por conivência com o silêncio e a omissão depois da confissão do criminoso.
O Uruguai de Mujica parece tranquilo, mas vive sob a permanente ameaça do protagonismo militar, como ocorre em outros países que conhecemos bem.
A diferença é que lá os uruguaios até hoje cobram, gritam, organizam-se, vão às ruas. Nós aqui somos acomodados. Alguns podem dizer que somos covardes. É o que eu acho.