AS MISÉRIAS DOS OUTROS

Há jornalistas impressionados com a pobreza na Venezuela. Talvez porque nunca tenham entrado, como eu entrei, nos anos de miséria extrema criada pelo segundo governo Fernando Henrique, na Pedreira da Cruzeiro, na Mário Quintana, no Ruben Berta, nos becos da Vila Jardim, na Ilha das Flores, na vila Nova Guaíba.
Entrava, sentava, conversava com mães, professores, velhos, moços, crianças. Fazia o que mais gostava: ouvir gente comum.
Que eles pelo menos tentem entrar agora (mas não na pressa e ao lado de uma viatura da polícia), para ver como vivem as maiores vítimas do golpe de agosto de 2016.
Saiam da bolha, não para descobrir as carências da Venezuela, mas para conhecer as misérias das nossas vizinhanças. Não precisamos exportar piedade para as misérias dos outros.

O destino de Maduro

É apenas uma obviedade sobre o que acontecerá na Venezuela. Maduro, o cão acuado desde a morte de Chávez, em algum momento será golpeado, preso, condenado por um tribunal especial (democrático, claro) e ficará anos na cadeia, como ficam os presos preventivos da masmorra da Justiça de Curitiba (adorada, claro, pelos nossos liberais).
E aí? E aí a vida segue na América Latina, até que se encerre mais um ciclo de golpismos. Ainda bem que no Brasil as instituições estão funcionando sob a inspiração do jaburu-da-mala, de Sergio Moro, de Gilmar Mendes, de Bolsonaro, do deputado tatuado Wladimir Costa, de Aécio, do pato da Fiesp, do ganso gaúcho, do Supremo…

O abandono de Maduro

Maduro é o mais acuado dos governantes eleitos em todo o mundo. O massacre da oposição perdedora, com ressentimentos crônicos por não conseguir vencer uma eleição, apenas transferiu de Chávez para Maduro o cerco incessante das hienas nacionais e estrangeiras.
Ele era um genérico do chavismo e logo seria derrubado. Não foi. Não levar em conta esse histórico, com a intensificação da fúria sem tréguas de uma oposição sem qualquer respeito pela democracia, é tentar fazer análise política com as ferramentas de pensadores liberais europeus.
A esquerda brasileira poderia fazer uma concessão e ver Maduro como um sujeito sem muitas escolhas no enfrentamento de golpistas que não desistem nunca. A oposição venezuelana tenta fazer há décadas o que a direita fez com Dilma no Brasil.
Cercar, desestabilizar, quebrar confianças, esculhambar com uma economia já fragilizada por uma crise, até ninguém aguentar mais. Maduro não deveria ter convocado a eleição para a Constituinte? É ele o culpado pela morte de manifestantes que explodem policiais nas ruas?
Maduro é um cão encurralado, mas um cão eleito e sem muitas escolhas. Mas parte da esquerda mundial acha que ele deveria conduzir uma política dos bons modos e, quem sabe, ser um Gandhi latino-americano.
Não tenho simpatia por Maduro, que comete todo tipo de barbeiragens. Não tenho inspiração nem instrumentos para analisar sua figura. Mas tento entender suas circunstâncias e suas reações autoritárias no contexto de uma guerra feroz, interna e externa, que nunca será bem compreendida por pensadores da esquerda escandinava.

Nossos legalistas

Há gritaria geral dos ‘liberais’ brasileiros porque o governo da Venezuela aliou-se ao Supremo deles para calar o Congresso.

No Brasil, o presidente do Supremo aliou-se ao Congresso para golpear o governo eleito.

Podem dizer (e os golpistas dizem) que o presidente do Supremo presidiu a sessão do golpe no Senado porque assim manda a lei. Na Venezuela, podem dizer o mesmo.

Nossos liberais golpistas são legalistas apenas quando as leis favorecem suas manobras.

Pobre Venezuela

Deve ser ruim viver sob uma democracia como esta da Venezuela. O presidente Nicolas Maduro destituiu seu vice de 70 anos e o trocou por um vice mais jovem, de 42 anos.

Assim, sem mais nem menos, derrubam o vice no meio do governo, porque as leis permitem. Mas que leis são estas?

Imagino que deva ser fácil também derrubar o presidente com um golpe do Congresso, quem sabe até com respaldo formal do presidente do Supremo deles. A Corte Suprema da Venezuela é muito estranha.

Imagino até que um golpe na Venezuela teria apoio declarado da imprensa.

Pobres democracias dos nossos vizinhos latinos. Pobres países que não têm um Supremo e uma imprensa independentes.

Entendidos

Li agora que setores da direita brasileira (inclusive no sempre presente ‘jornalismo independente’) andam dizendo que há um golpe chavista na Venezuela.

Eu não sei o suficiente para entender o que se passa na Venezuela em relação a códigos legais e ações políticas. Nem no Brasil eu entendo como interpretam leis e normas quando há questões políticas envolvidas.

Mas se a direita brasileira diz que há golpe, é porque deve haver. A direita brasileira entende cada vez mais de todo tipo de golpe.