Verdade Tropical

Publico aqui um trecho do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso, porque o texto que publiquei no FaceBook rendeu muitos comentários e manifestações de curiosidade. O trecho aborda, no livro publicado em 1997, temas que finalmente eram tratados sem frescuras, como a sexualidade, o debate sobre gênero, os gays, a bissexualidade.

O mundo involuiu (e mais ainda no Brasil), e as questões tratadas por Caetano são as mesmas que acionam hoje o ódio e o fascismo pós-golpe.

O texto é longo, mas é impossível não querer mais ao final da leitura, porque é confessional e revelador da valentia de Caetano. Republico porque a Companhia das Letras vai reeditar o livro (que é uma mistura de memórias com ensaios), e eu acho que assim contribuo para que mais leitores comprem essa obra atrevida, quase ignorada há 20 anos.

E também porque esse texto está disponível na internet, ou seja, não cometo nenhuma pirataria. Sei que o livro não tem essa missão, mas espero que cumpra também a tarefa de responder com arte aos cretinos incomodados com as diferenças e em especial os que têm agredido Caetano.

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Trecho

“A causa da superação da hipocrisia sexual não podia deixar de ocupar posição privilegiada para mim entre os temas da onda libertária dos anos 60. E a instância da homossexualidade não pode deixar de desempenhar aí um papel central.

Oferecendo o modelo ideal do conflito entre autenticidade e dissimulação, sem poder ser enquadrada entre as perversões que implicam crime ou negação da liberdade alheia, desenhando com clareza a interrogação fundamental sobre a sexualidade humana, a homossexualidade provou ser o ponto crucial da questão referente à liberdade do indivíduo. Não por acaso ela está na mira de fogo dos Estados totalitários, mesmo dos esboços de futuros Estados totalitários – e das nostalgias de um passado de controle social absoluto. Mas não é por eu ter chegado à consciência disso que o tema da homossexualidade esteve, está e estará sempre comigo. Eu diria antes que é por ele ter estado sempre comigo que me foi tão luminosa a captação dessa consciência.

A dubiedade que já intrigava os garotos no ginásio e que eu próprio tematizei em minha figura pública a partir dos anos 60 expressa conteúdos profundos relativos tanto à natureza dos meus desejos quanto à escolha de papéis. Em Praticamente Normal, Andrew Sullivan narra como, aos dez anos, ao ouvir de uma menina a pergunta “Você tem certeza de que não é uma garota?”, ele se deu conta do significado de sua diferença. Assim como ele, muitos amigos que fiz desde a infância sentiam-se arrebatados pela presença de pessoas do seu sexo. De modo tão definido que, neles, a polaridade macho/fêmea mais se reafirma do que se esvanece. Não assim comigo.

Por um lado, apesar de ter tido desde a pré-adolescência paixões intensamente sexualizadas por meninas (e a princípio exclusivamente por meninas), sei que nem a mulher nem o homem são, em princípio, antieróticos para mim; por outro, estou seguro de que não me teria negado a entregar-me de corpo e alma a uma história de amor com um rapaz por quem também me apaixonei aos dezenove anos, caso ele estivesse igualmente aberto afetivamente para mim – e não tenho sombra de dúvida de que tal decisão, se tomada com limpidez, teria recebido apoio carinhoso de meus pais, velhos interioranos católicos de vida conjugai sem mácula que impuseram fundo senso de integridade mas nenhum papel obrigatório (de qualquer ordem: profissional, social, sexual) a seus filhos.

Sei que o impulso amoroso pode revelar-se orientado tanto para homens quanto para mulheres, mas não indiferentemente. Porque essas inclinações são, a rigor, excludentes. E não há como pôr na balança esses dois pesos.

Às vezes os homossexuais são acusados de não admitir a veracidade do desejo heterossexual. Mas no fundo todos sabem que há uma diferença abissal entre alguém sentir o que todos esperam que sinta e alguém não poder deixar de sentir o que lhe é em princípio vedado. Freud, único esboço de filósofo do sexo, usou a expressão de Stendhal para cunhar a frase-chave sobre o assunto: “A perversão é, aos olhos dos outros, uma promessa de felicidade”.

Nessa ótica, todos os homens que se gabam de desejar as mulheres que passam são suspeitos, enquanto aqueles que têm de sucumbir à força de um desejo que eles mesmos não aprovariam só podem causar fascinação e inveja. Antônio Cícero chamou minha atenção para o fato de que, quando, no filme Victor/Victoria, Julie Andrews e Robert Palmer (ela fazendo um falso travesti e ele, um homossexual autêntico) cantam os versos “We’re the kind of people other people would like to be”, eles, por meio da canção singela de Henry Mancini, tocam esse ponto com graça.

Uma mulher que para mim é uma deusa do amor disse, surpreendendo-me mais uma vez com seu estilo ligação-direta: “Sexo oposto é o que está na minha frente”, não querendo dizer com isso que ela traçava o que aparecesse diante de si, mas que quem quer que chegasse a estar com ela num frente-a-frente sexual genuíno quem quer que tivesse chegado a ser objeto do seu desejo e motor do seu prazer – era um exemplar do sexo oposto ao seu. Não se pode imaginar um modo mais vivido de se confirmar a frase de choque lacaniana que reza que “relação homossexual não existe”.

A ideia de bissexualidade é muito frequentemente usada para mascarar tanto homossexuais pouco corajosos quanto homófobos envergonhados. Tendo a rejeitar o conceito. Muitos conservadores censuram a ideia de “opção” sexual, como se os que têm de discutir o assunto (os “normais” não precisam) julgassem tratar-se de um problema simples de liberdade de escolha. Não conheço nenhum homossexual que diga que “escolheu” ser assim. Até aqui, todos tiveram que passar por uma profunda rejeição de sua própria inclinação. Quer se a explique pelo Édipo ou pelo hipotálamo, pela genética ou pela reencarnação, a homossexualidade se apresenta como um dado. Os chamados bissexuais, no entanto, parecem estar diante de uma situação que permite escolha livre.

Na verdade, não o estão mais do que ninguém. O que eles estão na posição de poder ver é que a heterossexualidade precisaria justificar-se tanto quanto o homoerotismo. Quando eu tinha 23 anos me aplicaram o teste Rorschach, e o resultado, quanto a isso, foi “homossexualismo latente; identificação feminina; idealização da figura da mulher”. O teste foi feito amadoristicamente por uma amiga estudante de psicologia. Ela própria era homossexual (não sem conflito), mas me disse que meu teste havia sido interpretado por uma sua professora que desconhecia a identidade do testando. Acreditei.

De todo modo, achei que o diagnóstico fazia sentido. Angustiou-me um pouco – e por pouco tempo – pensar que talvez isso significasse que minha vida amorosa se sustentava numa espécie de auto-engano. Esse pensamento não resistiu à força espontânea do meu laço sexual com Dedé. Mas o que realmente me surpreendeu no resultado desse teste foi a ênfase dada ao talento para a música.

Se eu não desconfiava da isenção de minha amiga psicóloga por causa do diagnóstico quanto à sexualidade, considerava francamente suspeito que o teste privilegiasse meu pendor musical. Desde pequeno tive certeza de que meus talentos plástico e verbal eram superiores à minha musicalidade: desanimei-me da pintura, mas sempre cri que daria um grande cineasta. Sem estar tão seguro quanto à minha inclinação sexual, penso igualmente que eu daria um grande veado. Convivo com pessoas que são fenômenos de musicalidade e que, no entanto, não conseguem extrair da música um quinto do que eu consigo; por outro lado, inúmeros heterossexuais indubitáveis têm muito menor rendimento com as mulheres do que eu. O teste Rorschach coincidiu com o destino no caso da música, embora os dois desmentissem minha intuição; no caso da sexualidade, o teste disse o oposto do destino – e minha intuição nunca chegou a decidir com qual concorda. Nos dois casos, considero-me mais bem-sucedido do que mereço.

Assim, aproximei-me, como figura pública, do que Andrew Sullivan chamou de clima “ubíquo, vagamente homoerótico” dos “grupos pop masculinos comuns naquele tempo”, e hoje pondero que as sugestões de androginia, polimorfismo, indefinição, que coloriam a atmosfera da música popular pós-Beatles (pós-Elvis?), seguem sendo uma ameaça à estabilidade das convenções que sustentam muitos atos opressivos. A nova compartimentalização que se seguiu a essa orgia dos sinais era inevitável. Todos os que eram “vagamente homoeróticos” e não se declararam homossexuais foram sendo assimilados como heterossexuais de uma nova era. Inclino-me a rejeitar tal simplificação.

Tendo tido uma frequência muitíssimo mais alta de práticas heterossexuais do que homossexuais (inclusive dois casamentos vividos com sincera tendência monogâmica), poderia dizer, a esta altura da vida, que me defini como heterossexual. Mas que nada. De todo modo, não há por que obstinar-se na busca de uma nitidez na orientação sexual se ela não se apresenta como evidência espontânea. O que importa é ter os caminhos para o sexo rico e intenso abertos dentro de si.

No final dos anos 60, era considerado mais progressista dificultar a definição do que dizer-se homossexual: Mick Jagger sobre o palco negava a pertinência daquilo que hoje se chama outing, pois sugeria a liberação do potencial homoerótico latente em todos e em cada um. Natural que, à medida que esse tipo de comportamento foi passando a ser interpretado socialmente como tranquilizador sinal de heterossexualidade, os que queriam dizer-se abertamente homossexuais adotassem sinais exteriores cada vez mais distantes dessa receita, não raro apelando para os modelos tradicionais de masculinidade.

É claro que muitos conteúdos essenciais a certos grupos e indivíduos (sadomasoquismo, culto narcísico do Macho – pelo lado dos homo; assimilação da afirmação social das mulheres, distensão dos limites do modelo viril, nostalgia do macho bárbaro europeu – por parte dos hetero) entraram em jogo como fatores relevantes. De todo modo, tornou-se possível – e apesar de David Bowie, com sua estilização calculada da androginia (e sua confissão de “bissexualismo”, logo negada), ter se tornado uma figura dominante por bom período – ouvir-se com naturalidade que alguém como Axl Rose, com esse nome, aqueles cabelos e aquela saia escocesa, tenha dito não sei que palavras agressivas contra os homossexuais (o que é simétrico à hostilidade aos negros exibida por garotos brancos que, no fim das contas, refazem indefinidamente o rhy thm&blues).

 

 

Tempo de medos

Verdade Tropical, que Caetano publicou há 20 anos, sempre foi subestimado, como livro de memórias e como ensaio. Não há nada igual da geração dele sobre o que se passou com aquela turma da Tropicália, no contexto da revolução dos costumes, da ditadura, da música, da literatura.
Pois o livro está sendo reeditado pela Companhia das Letras. Me lembro que Caetano aborda com valentia a controvérsia da época sobre sua orientação sexual. É quando conta que, diante das interrogações sobre o que ele seria (resumindo tudo aqui), preferia responder que essa era uma definição que não lhe interessava mais.
Em entrevista à Folha hoje, ele conta que eliminou do livro, lá na primeira edição, textos de um capítulo sobre sexos, no plural. A explicação dele: “Há razões pessoais para que eu evite mexer com coisas que podem cair mal sobre certas pessoas que, mesmo quando não nomeadas, se reconheceriam de um modo que me levaria a sentir-me mal”.
E o tal texto fica de fora da reedição. É uma pena. Será que Caetano está assustado mais do que se pensa com o novo macartismo? Ele tem seus motivos.