Cães e tiros

Vi os vídeos do tiroteio em São Paulo, quando a polícia matou 10 ladrões no Morumbi. É tudo muito assustador e também cada vez mais ‘natural’.
Parece longe, mas cenários como este estão se formando aqui perto de nós. Estamos no mesmo padrão. Estatisticamente, considerando-se os tamanhos de Porto Alegre e São Paulo, estamos na frente. Matam mais aqui. São bandidos matando bandidos. O tráfico não tem mais os grandes e respeitados chefões. Os pequenos se matam entre eles.
E aqui temos mais chacinas com cabeças decepadas do que lá, pela tradição da degola gaúcha, talvez. Lá eles são mais cinematográficos.
Quase todas as noites ouço tiros na Aberta dos Morros. Geralmente perto da meia-noite. Penso em execução. E também imagino ladrões saltando muros, perseguidos por um enxame de balas e um vira-latas.
São tiros secos, em sequência. Para o alto? Para baixo? Para os meus lados? Já ouvi mais de 10 tiros. Vou dormir achando que é assim mesmo. Os cachorros continuam latindo e no outro dia não vejo nada nos jornais.
Às vezes, um helicóptero sobrevoa a região. Um dia desses um deles fez uma curva, veio em direção à minha rua e jogou o facho daquele canhão de luz dentro da minha casa. Devem ter me visto saindo da janela. Pensei se não deveria ter ficado, para não parecer suspeito.
As coisas, os helicópteros, os tiros estão chegando perto demais da gente.
Penso que os cães estão sempre latindo sem parar à espera dos tiros da meia-noite. Até os cães sabem que esses tiros podem estar matando quem não é mais notícia. Só quando tem chacina.

O bom momento dos covardes

Temos dois exemplos de pregação de retaliações com extrema violência no Estado, disseminados por quem deveria fazer exatamente o contrário. A questão é: o que faremos desses casos, para que não se acomodem em indignações barulhentas mas inconsequentes?

No primeiro, um promotor de Júlio de Castilhos disse a uma adolescente (na frente de uma juíza) que ela deveria ser estuprada por menores da Fase, porque teria mentido que havia sido violentada pelo próprio pai.

Mesmo que o caso seja de 2014, a repercussão acontece agora, porque o episódio chegou ao Tribunal de Justiça do Estado e foi divulgado em detalhes assombrosos pela repórter Adriana Irion, de Zero Hora.

O promotor que ofendeu a adolescente em audiência sabia ou deveria saber que a menina estava tentando se proteger de represálias, pois era sistematicamente estuprada.

Mesmo assim, a autoridade “desinformada” pregou a crueldade como vingança para a menina que considerava mentirosa. Uma mentira mereceria mais estupros. E a juíza que tudo ouvia ficou quieta.

O outro caso é este. Um comunicador de rádio de Porto Alegre disse no ar, há duas semanas, que jornalistas defensores de direitos humanos e seus filhos deveriam ser assassinados por delinquentes. Para que parassem de dizer bobagem e de proteger assaltantes.

Os dois, o promotor que agrediu e humilhou uma adolescente, desejando-lhe mais estupros, e o radialista que estimulou a chacina das famílias de colegas, deram a entender que os bandidos ouviriam seus apelos, ou estavam apenas blefando.

Eles são muito semelhantes, mas a diferença básica entre um e outro é esta. O promotor vai ser julgado pela própria categoria e pode até ser condenado e excluído do Ministério Público.

Já a pregação pública do radialista, lida de um texto que ele definiu como “editorialzinho”, foi completa e vergonhosamente ignorada pela própria categoria e também pelo Ministério Público. E dizem que ele pode até ser promovido.

O momento está muito propício aos covardes.

 

Pilantra

Ouvi o áudio do “editorial” que um sujeito leu numa rádio de Porto Alegre sobre a violência e os assassinatos na cidade.
Medalha de ouro de idiotia para o homem cujo cacoete é falar como se fosse uma mistura de adolescente com malandro. O tal radialista deseja o massacre de colegas de profissão e seus familiares.
É a gritaria de sempre de que a criminalidade se multiplica também porque há defensores de bandidos. Estes ‘defensores’, diz o editorial, devem ser os próximos escolhidos pela bandidagem.
E os ignorantes, segundo ele, são os outros.
Trata-se de um grande oportunista de dramas pessoais e do trauma coletivo com a insegurança de toda a cidade.
O sujeito do tudo-pela-audiência ainda simulou, à la Janaína Paschoal, no seu estúdio mundo cão, que iria ter um troço no ar.
Pilantra. Vou repetir: pilantra.

Se fosse a Maria do Rosário…

prisao

Trecho de uma das melhores entrevistas que li nos últimos meses sobre violência, criminalidade, punição e hipocrisia.

“Somos uns hipócritas. Só queremos combater a violência quando ela bate à nossa porta. E somos seletivos neste combate. Avaliamos que uma pessoa, por ter antecedentes criminais ou envolvimento com o crime, possa ser morta, possa ser executada. E que isso não enseja um cuidado maior, uma investigação maior, um esforço da nossa parte. Não, nós entendemos que isso é normal”.

A entrevista deve ser lida também pelos que atacam sistematicamente a deputada Maria do Rosário. As posições do entrevistado e da deputada são semelhantes. Mas quem quiser descobrir de quem se trata que entre no site do jornal Extra Classe. É uma paulada no reacionarismo que discrimina, desinforma e aliena.

www.extraclasse.org.br

A entrevista está aqui:

www.extraclasse.org.br/edicoes/2016/06/enfrentamento-seletivo-da-violencia-nao-funciona/

 

O jornalista e o piadista

Juca Kfouri entrou no melhor debate sobre opinião, liberdade de expressão, jornalismo, entretenimento e calhordices do momento no Brasil. E entrou para ficar ao lado do cara que acionou o debate com valentia, o jornalista e comentarista de futebol José Trajano.

A notícia é velha, mas se renova com manifestações como a de Juca, colega de Trajano na ESPN. Um resumo: Trajano se queixou da participação do humorista Danilo Gentili na bancada de um programa da ESPN, exatamente quando o Brasil debatia o estupro coletivo no Rio.

Gentili, o mais aplaudido engraçadinho de direita do país, havia feito uma piada sobre… estupro.

Pode? O humorista reacionário acha que pode. Trajano e Juca acham que não. Eu também acho que não. Gentili é uma das aberrações do dito entretenimento de direita. É o grande ídolo dos tucanos e dos golpistas.

Ah, dirão, mas o seu Gentili está apenas exercendo o direito de opinião. Que exerça e que assuma as consequências. Essas figuras nunca fazem piadas com poderosos, só com índios, negros, pobres e gays.

Gentili é a expressão do Brasil calhorda que prospera a reboque do golpe. É um covarde (que depois negou a piada) à espera de um Trajano. Não é o único. Há outros na volta.