A FERRAMENTA DO FASCISMO

Hoje, o Facebook tirou do ar mais 68 páginas irregulares que distribuíam conteúdos bolsonaristas. Com a ação do Facebook e do WhatsApp, que identificam e combatem fraudes antes das autoridades, fica claro que a disseminação de informações falsas dispõe de um dado da realidade para prosperar: a ignorância.

A campanha da extrema direita é baseada na possibilidade de fraude, com mentira, difamação, calúnia. Se isso vai adiante é porque receptores dessas ‘notícias’ acreditam no que leem, ouvem e veem.

A fraude da quadrilha de empresários do WhatsApp só existe porque as pessoas são crédulas e estão vulneráveis. Ninguém está chamando ninguém de ignorante, mas é preciso admitir que há pessoas, e muitas, sob estado de ignorância.

Se essa realidade não existisse, a fraude não existiria, as queixas do PT não existiriam, nada teria sentido. Se o PT diz que a fraude é nociva, é porque alguém sofre seus danos.

As ignorâncias, que assimilam as crueldades da classe média encarregada de mentir e manipular, explicam porque Bolsonaro passou do teto dos 18% (em que se manteve por meses) e reduziu a sua rejeição.

Por isso Bolsonaro é também o fenômeno de um Brasil que as esquerdas muitas vezes se negam a admitir que existe. As mentiras da quadrilha do WhatsApp só existem porque alguém acredita no que elas fazem. É muita gente. São milhões.

Nunca foi tão fácil espalhar mentiras. Porque no WhatsApp as frases são curtas, com palavras de ordem, baixarias, sensacionalismo, difamação. Tudo é simplificado.

As esquerdas não souberam lidar com isso porque não há como competir em igualdade de condições. As frases das esquerdas são longas e complexas.

As esquerdas ficam nas suas bolhas no WhatsApp, a direita não (sim, há exceções, mas não vamos falar aqui de exceções).

A extrema direita se expande via WhatsApp em direção ao centro e à direita, ao indeciso, ao sem lado, tanto que de 18% de preferência Bolsonaro cresceu para mais de 50% nas pesquisas.

A extrema direita captou não só os ódios, os ressentimentos, as perdas, mas também as ignorâncias.

Já são muitas as análises que creditam às mensagens da extrema direita no Brasil o grande fenômeno virtual desde a primeira eleição de Obama.

São mensagens, áudios e vídeos disparados pela gangue de empresários, mas também por engenheiros, estudantes, médicos, professores, nossos amigos, nossos parentes, nossos vizinhos, pais, irmãos.

O WhatsApp é no Brasil o meio certo para quem não quer pensar muito, em qualquer área. É a mais fantástica ferramenta a serviço do fascismo.

O que o juiz Moro tem que esta juíza não tem?

juiza

Os frequentes bloqueios do WhatsApp pela Justiça provocam uma interrogação inquietante. Pode um juiz de primeira instância parar um serviço importante de comunicação e interferir na vida de todo mundo para pegar bandidos?

O ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo, acha que não pode. Tanto que derrubou a decisão da juíza Daniela Barbosa de Souza (foto), que havia determinado o bloqueio do WhatsApp.

É a alta Corte impondo-se em relação a um juiz de primeira instância. E Daniela é uma brava juíza da Justiça carioca.

Mas por que o Supremo, o guaridão da Constituição, demorou tanto para impor o mesmo poder hierárquico e institucional em relação ao juiz Sergio Moro em várias circunstâncias da Lava-Jato?

Ah, dirão, o caso do WhatsApp exigia urgência, porque não há vida sem WhatsApp. Mas não é só isso.

Moro divulgou grampos e tentou impor suas vontades em relação a outros procedimentos dos processos que preside em Curitiba, interpretando leis do seu jeito, até levar um para-te-quieto do STF. Mas demorou.

Por quê? Porque Moro foi legitimado, como caçador de corruptos, a fazer o que a lei manda ou o que ele acha que manda, por mais controvérsia que provoque. E quase ninguém o incomoda.

Nem o Supremo, num primeiro momento, enfrentou Moro, como Lewandowsky enfrentou agora, com naturalidade, a juíza que havia pedido informações ao WhatsApp.

Moro mantém corruptos e corruptores na cadeia por meses, em prisão preventiva, à espera de delações. O empreiteiro Marcelo Odebrecht completou ontem 12 meses de prisão. Um ano de cadeia preventiva, porque titubeia para chegar ao acordo de delação.

Poucos, entre juízes, juristas, professores de Direito, contestam essa tática. A maioria se cala, porque uma prisão preventiva poderia, em tese, durar anos, quase como uma condenação, como entende Moro, até que o réu decida dedurar os parceiros.

E tudo porque Moro talvez nem seja um juiz brilhante (dizem que não é), mas porque é no momento o nosso Batman.

E desde o mensalão o Brasil adora um Batman. Principalmente se corresponder às melhores expectativas da direita.