O maluquinho

A polêmica sobre a redação do Enem (“Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”) acionou a lembrança de uma situação engraçada que presenciei em 2001 e que hoje talvez não tenha espaço para se repetir sem controvérsias.
Foi na Jornada de Literatura de Passo Fundo. Eu estava lá como repórter da Zero Hora. Um dia, cheguei cedo ao circo de lona, o local dos debates, e me acomodei numa cadeira da primeira fileira.
Ziraldo apareceu e se sentou por perto. Eu estava ali, faceiro, na primeira fila, ao lado de Ziraldo, quando surgiu uma moça da organização do evento.
A moça olhou para Ziraldo (poderia ter olhado pra mim ou outro anônimo) e disse:
– O senhor não pode ficar aqui. Esta fileira é para surdos e mudos.
Ziraldo se fez de desentendido:
– Ahnnnn?
A moça repetiu a frase em voz alta. Ziraldo respondeu de novo com um ahn, espichando o pescoço em direção à moça. A moça fez o pedido pela terceira vez e Ziraldo disse um AHNNNN??? ainda mais alto.
No quarto ahn do Ziraldo, todos caíram na risada. Não tinha como não rir. O grande Ziraldo fingia-se de surdo e todos achavam engraçado.
E se fosse uma pessoa qualquer? Qual teria sido a reação? Hoje, Ziraldo não faria a brincadeira, ou ele, como um dos magos do humor brasileiro, está liberado? Não sei ao certo. Mas acho que faria.
O que importa é que a redação que maltratou os estudantes (o que um estudante pode saber sobre desafios para a formação educacional dos surdos?) está provocando debates sobre a situação das pessoas com deficiência.
Conto essa história como curiosidade, até porque Ziraldo é um dos grandes artistas humanistas deste país. Viva Ziraldo.

Ziraldo

Falei da Jornada de Literatura de Passo Fundo ontem e hoje conto duas historinhas sobre Ziraldo.

Ziraldo e outros convidados estavam sentados na primeira fileira do circo, onde aconteciam debates e palestras, e uma moça da organização os alertou:

– Esta primeira fila é para surdos-mudos.

Ziraldo fingia não ouvia e não entendia. A moça repetia e ele colocava a mão no ouvido, gesticulava e emitia sons incompreensíveis.

Todos riram, inclusive a moça e o pessoal que estava logo atrás à espera das cadeiras que eram deles. Isso foi em 2001. Mesmo com o Ziraldo, não sei se aconteceria do mesmo jeito hoje.

………………………..

A outra historinha. Ziraldo participava de um debate e logo depois estaria na sessão de autógrafos.

Era noite e Ziraldo alertou pelo microfone, em tom sério:

– As crianças não estão mais aqui. Então peço que adultos, professoras etc não me apareçam com agendas e pedaço de papel de pão para eu autografar. Só autografo livro.

Foi para a sessão, ao lado da mesa de Martha Medeiros. A fila de Martha dava voltas no circo. Na fila de Ziraldo, pingavam de vez em quando algumas pessoas.

O gênio ria do próprio fracasso e se divertia.