Humor X Autoritarismo

Abrão Slavutzky
Psicanalista

O autoritarismo sempre persegue os humoristas. O humor é, por essência, rebelde, não muda o mundo, mas pode mudar a vida. Mudando a vida, ajuda a melhorar o mundo. Aliás, o humor é uma visão de mundo, e se diz que o mundo só não acabou porque ainda se pode rir. O humor tem uma ética que elimina todas as formas de hierarquia, seja ela econômica, política, religiosa ou militar.
Um exemplo é a história contada pelo enciclopédico Otto Maria Carpeaux. Foi a Praga na década de 1930, para escrever sobre Kafka, e soube desta história: Dois judeus se encontram e dialogam: “Veja como estamos sendo perseguidos”; “Em compensação, somos o Povo Eleito por Deus”; “Mas eu acho que já está na hora de Deus escolher outro povo”.
Essa conversa seria considerada uma heresia por judeus religiosos, mas o humor judaico goza ricos, pobres, a religião, o Povo Eleito e o Todo-Poderoso. Entretanto, aqui em Porto Alegre se sustentou que era uma falta de respeito mostrar um presidente eleito beijando as botas de Trump.
A exposição de charges dos humoristas foi proibida na Câmara de Vereadores. Censurar o humor, os humoristas, é comum em todas as ditaduras e nos regimes autoritários ao longo da História.
O humor desafia todas as formas de opressão, ele é rebelde. Rebelde, segundo os dicionários, é estar contra a ordem, as instituições, o poder. É fácil perceber a carga negativa que há nessas definições. Na verdade, o rebelde não é só quem resiste à autoridade, mas é, principalmente, quem primeiro mudou de ideia ao pensar algo de errado com a sociedade. Portanto, a forma positiva de pensar o rebelde é como um crítico, livre para pensar, desafiante do proibido.
Exemplos de rebeldes na História não faltam: o primeiro judeu se rebelou contra o seu pai que fabricava estátuas de barro para serem adoradas e deu assim início ao Deus invisível. Sócrates, na velha Grécia, começou a fazer perguntas que obrigavam as pessoas a pensar e terminou sendo condenado pelos poderosos de Atenas.
Jesus Cristo criou uma seita judaica que após sua morte se transformou no Cristianismo, e foi crucificado. E ao longo da História, os rebeldes, os que buscavam caminhos novos, tendiam a ser atacados, presos ou mortos. Os rebeldes são artistas, cientistas, a cultura, que ao criar não se adaptam à vida como ela é ou como determina o Poder.
Os humoristas são artistas que conseguem ver o outro lado de tudo e revelam verdades desconhecidas. Por isso escandalizam os poderosos, que se inquietam com sua ousadia e sua irreverência. Não há, assim, humoristas a favor do poder, seja qual poder for. Millôr Fernandes disse que não defendia os poderosos, pois eles já têm muito poder.
Hoje escrevo porque a exposição “O riso é risco – Independência em risco”, teve uma sentença liminar de um juiz, que reabriu a exposição e charges na Câmara de Vereadores. Atacar os humoristas, atacar a verdade do humor é também atacar a beleza. Os sábios do humor são os humoristas, e Porto Alegre tem muitos, felizmente. E eles geraram um fato artístico e político na cidade que ganhou notoriedade nacional. Aos humoristas nossa gratidão, porque eles fazem charges com ética e estética. E foi o Charles Chaplin, um dos sábios do humor que escreveu: “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo”.
Hoje no Brasil queimam a beleza da natureza, cortam a beleza da educação, odeiam a beleza do carnaval. São pobres de espirito dominados pelo ódio e a crueldade, mas o rei está nu com uma metralhadora na boca. O desafio a cada um e a todos é o dever da memória.
O dever da memória com a história que a história não conta. Não esquecer no meio do ódio, da beleza do amor, a beleza do humor, a beleza da liberdade. Não sei se a beleza salvará o mundo, mas a beleza tem sentido do humor, a beleza é o sorriso da graça.

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