O OSSO DESCARNADO DO CAPITALISMO

Aquele osso erguido por um dos ocupantes da Bolsa de Valores de São Paulo é a imagem do Brasil para muito além do que se vê ali representado.

É a fome ocupando o espaço que deveria ser, mas não é, dos ganhos compartilhados pelo capitalismo com os que não são donos do jogo mas tentam jogar, porque têm algum dinheiro, ou acham que têm.

A Bolsa não compartilha quase nada desde a crise de 2008, nem com os remediados que ainda têm algumas sobras para fazer apostas.

Só alguns ganham, os de sempre, mas foi-se embora a ilusão de que um dia o capitalismo iria dividir seus lucros com quem apostasse no mercado aberto das suas virtudes. Essa era a ladainha da véspera de 2008.

Não há capitalismo compartilhado em lugar algum, muito menos na Bolsa. O osso erguido pelo MTST e pelo Povo sem medo em meio aos telões com números gasosos é o símbolo também das sobras do capitalismo.

Até agosto, o Ibovespa ficou acumulado em 0,20%. As empresas não repartem ganhos diretos, via ações, nem via a aplicação financeira que financia negócios. Há muito tempo. Não para a maioria.

No Brasil, pelas crueldades ampliadas pelo bolsonarismo, não existe a possibilidade de proteção do dinheiro com apostas em empresas, ou emprestando a “empreendedores’ via bancos, ou fazendo poupança, a caderneta tradicional, aquela da Caixa.

Um simplório vai dizer que ninguém mais ganha dinheiro com mais nada (só os muito ricos) entregando o que tem a gestores, em bolsas ou em bancos. Mas não se trata de defender o antigo rentismo de pobre em tempos de inflação alta.

Esse simplório acaba admitindo que o capitalismo foi sempre um jogo de perdas para quem está do lado de fora das suas engrenagens. Mas não admite que agora o capitalismo já não consegue mais nem mentir que funciona.

Uma das faixas levadas à Bolsa pelos militantes do MTST dizia: “Sua ação financia nossa miséria”. É uma mensagem forte, mas um pouco forçada, talvez enviesada.

As faixas mais próximas da realidade são estas: “Tá tudo caro e a culpa é do Bolsonaro” e “Brasil tem 42 novos bilionários enquanto 19 milhões passam fome”.

Não é a ação lançada em bolsa que financia a miséria, é a incapacidade histórica, deliberada, e agora ampliada de fazer com que o capitalismo reparta alguma coisa do que acumula.

É assim também em toda tentativa do investidor médio de ter acesso a algum ganho marginal de quem lucra com alguma coisa.

É em todas as áreas do dinheiro. A poupança tradicional, que financia obras, ofereceu até agora, como rendimento acumulado, apenas 1,36% em 2021. A inflação no ano, em qualquer índice, está em torno de 6%. Em 12 meses, em 10%.

A poupança é emprestada a quem vai ter lucros, mas não oferece nenhum lucro a quem financia o “empreendedor” de obras públicas ou privadas. O capitalismo brasileiro acabou com a poupança como refúgio dos pobres e da classe média que ainda tinha reservas guardadas por atavismo e pelo instinto de sobrevivência.

A explicação usual, de economistas de direita e de esquerda, é a de que aquele juro de mais de 10% não existe mais.

O que não existe mais é o juro para quem empresta aos bancos, ao governo e ao empreiteiro. O contrário continua existindo. O capitalismo vive descaradamente da sua disfuncionalidade.

A última informação, ao final da ocupação de hoje na Bolsa, foi essa, publicada pelo Estadão:

“A B3 reconheceu a ocupação como pacífica e afirmou não ter influenciado as operações do dia. Apesar disso, as ações da empresa foram abaladas, às 16h, a B3SA3 caía 3,30%, sendo cotada a R$ 13,77. No fechamento de quarta (22), os papéis fecharam com alta de 5,17%, custando R$ 14,25”.

Um osso do MTST e do Povo sem Medo não mexe com os negócios e os sentimentos do mercado, porque o mercado, já disse George Soros, é amoral. Um osso na Bolsa é apenas um osso.

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