A juventude da direita X os idosos das esquerdas

Por que não há nas esquerdas uma figura jovem com a mesma audiência de um Nikolas Ferreira? Não, não estamos falando de alguém com as mesmas crueldades e capacidade de mentir, mas com volume na voz e poder de síntese para alcançar o público que precisa ser alcançado, na hora certa e em todos os meios possíveis.

As esquerdas já tiveram essas figuras, antes e depois da ditadura. Que falavam para milhões, do movimento estudantil ao movimento sindical. Eram tempos de mobilizações analógicas.

Onde esses personagens se extraviaram na História recente? Por que é tabu falar do déficit de juventude no ativismo de esquerda, não só em relação a quem fala em voz alta?

Talvez porque se busque sempre o consolo preguiçoso de citar as mesmas exceções conhecidas. É o despiste da autocomiseração: ah, mas tem a Erika Hilton. Tem. E quem mais, com expressão nacional?

Nikolas tem 28 anos. Já se apresentou na extrema direita, na primeira eleição para deputado, como nome para muito além das fronteiras de Minas. Usa a linguagem universal do fascismo, que Musk, Zuckerberg, Trump, Jeff Bezos e seus parceiros desejam que prospere sem controles.

Chega com força aos jovens, que nunca foram, ao contrário do que acontece com Javier Milei na Argentina, a base do bolsonarismo. E fala para os tios e as tias do zap.

Vamos relembrar. Quando foi preso no Congresso da UNE em Ibiúna, em 12 de outubro de 1968, José Dirceu tinha 22 anos. Vladimir Palmeira e Raul Pont tinham 24.

Quando foi presa em 16 de janeiro de 1970, em São Paulo, Dilma Rousseff tinha 23 anos. Na presidência da UNE, Lindbergh Farias liderou os caras-pintadas que derrubaram Collor. Foi em 1992, há 35 anos. Lindbergh tinha 25 anos.

Todos, só para citar alguns exemplos, construíram trajetórias políticas relevantes e se tornaram figuras públicas que falavam alto a partir do que fizeram na juventude. Construíram ativismo e representação com a bravura e o vigor mental e físico dos jovens.

Na maioria, eram crias do movimento estudantil, porque o ativismo político que sai do meio sindical tem como protagonistas homens bem mais maduros.

Mas o movimento estudantil perdeu a capacidade de gerar e fomentar militâncias, mesmo que ocasionais e intermitentes, e de gerar lideranças. É uma inércia quase só do Brasil, se olharmos a vizinhança.

Quem se renova aqui pela vitalidade dos jovens é a direita. As bases religiosas da extrema direita produzem para o bolsonarismo o que o movimento estudantil produziu, dos anos 60 aos 80, para as esquerdas.

Nikolas, criado nesse ambiente, é quem fala para o povo para alertá-lo sobre a vigilância da Receita Federal. Seu timbre tem a forte pegada dos pastores que atraem engajamento para Deus e para o que continua sendo o bolsonarismo.

Conter Nikolas parece ser tarefa do sistema de Justiça, quando em outros tempos seria antes uma atribuição da política. As esquerdas deveriam ter seus equivalentes, com a mesma força, para que não dependessem de Ministério Público e do Judiciário para segurar tipos com esse perfil.

Desejar contê-los à margem da política é apenas distração. Até porque ninguém imagina que, num Congresso dominado pela turma de Nikolas, o deputado vá ser punido por seus pares.

E Sidônio Palmeira pode acionar todas as bruxarias, mas não conseguirá duelar com essa gente. Esse não é um duelo de Sidônio, o marqueteiro de Lula e agora seu chefe da Comunicação, contra Duda Lima, o marqueteiro de Bolsonaro e agora orientador das falas e dos vídeos de Nikolas.

É uma guerra política, na arena pública da política, a ser conduzida por políticos, com ou sem função pública e mandatos, pela militância, pelo que resta dos movimentos organizados, pelo que sobra de relevância nas OABs regionais e pelo jornalismo que chamam de alternativo ou independente. Todos contra a velha direita e o novo fascismo acumpliciados com a grande imprensa sempre golpista.

A esquerdas cansadas, sem o mesmo poder dos professores, sem estudantes, sem padres, sem a força dos líderes sindicais e comunitários e sem uma ideia que as coloque no jogo de novo, percebem que perderam a vitalidade da renovação.

Entre os anos 60 e 80, os jovens afrontaram os velhos que sustentavam a ditadura e toda forma de reacionarismo. Hoje, os jovens são deles, da direita. E os velhos na defensiva, agora chamados de idosos, são os antigos jovens das esquerdas.

E essa não é uma conversa de velhos. As eleições do ano passado mostraram que as esquerdas envelheceram e que a direita rejuvenesceu suas bases e suas lideranças para chegar ao poder municipal em cidades de todos os portes.

É o cenário que está diante de nós. Negá-lo e condenar abordagens que possam ser consideradas saudosistas são duas reações típicas desse envelhecimento.

2 thoughts on “A juventude da direita X os idosos das esquerdas”

  1. O conflito da rua Maria Antônia, em 1968, já mostrava q estudantes não nutriam um alinhamento político-ideológico unânime com viés modernamente chamado progressista. Creio q a diferença esteja no fato de existir um engajamento massivo das igrejas neopentecs com suas concessões de rádios e TVS q fazem enorme diferença na propagaçãode ideologias conservadoras. Como exemplo, alguém conhece alguma emissora de alcance, no mínimo, regional pertencente ao MST ou ao MTST?

  2. Pena que nossa Linda Juventude (como canta o 14 Bis) tenha sido, em grande parte, cooptada pela Direita e pelo acéfalo e repugnante Nicolas Ferreira…
    Cadê aquela Juventude que saia às ruas, tão engajada que pedia o impeachment do Collor, que era tão progressista???
    Maldita internet., onde seres da pior espécie da Direita Bolsonarista e Fascistas espalham tantas Fake news, e têm imbecis que acreditam…

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