A força política identitária que incomoda direita e esquerda

Desde que assumiu, Javier Milei já enfrentou pelo menos cinco grandes manifestações de rua. Lideradas no começo por sindicatos, piqueteiros e movimentos sociais, com um distanciamento estratégico do kirchnerismo.

Só depois, na sequência de caminhadas, houve a adesão de partidos e políticos. Em abril do ano passado, Buenos Aires viu a que teria sido a maior mobilização, pela educação pública, puxada por estudantes e professores das universidades, com pelo menos 800 mil participantes.

Pois a Argentina teve no sábado uma marcha histórica, com estimativa de 1 milhão de pessoas, certamente a de maior impacto político. E não foi puxada pelo sindicalismo, pelos piquetes ou por ativistas da educação e tampouco pelos políticos.

Foi liderada pelos movimentos LGBTQIA+. É um marco, que instiga e causa desconfortos até nas esquerdas. Gays, lésbicas, trans e todos os que se sentem atacados pelo fascismo branco e hétero levaram às ruas um grito que ultrapassa as questões identitárias.

Tanto que a caminhada se chamou Marcha Federal antifascista e antirracista. Foi uma resposta aos ataques de Milei às pessoas LGBTQIA+ em Davos. Quando tentou vincular gays a pedofilia. Quando alegou que não existe feminicídio na Argentina.

Quando defendeu os machos agressores de mulheres e avisou que seu governo não dará tratamento diferenciado às vítimas dos homens cruéis incitados pela extrema direita no poder.

Os movimentos decidiram ir para a rua e os partidos foram atrás. Os grandes jornais argentinos, desde os de direita, Clarín e Nación, aos de esquerda, como Página 12 e El Destape, todos convergiram para a mesma conclusão: ativistas LGBTQIA+ estão assumindo protagonismo no combate ao fascismo.

Não só com pautas ditas temáticas, mas com a defesa das liberdades, do setor público, da proteção social a pobres, idosos e crianças, da universidade pública e das grandes questões postas diante da democracia pelo amigo supremacista e homófobo de Trump.

Mas onde está o desconforto? Na constatação, por frações das esquerdas argentinas e também brasileiras, de que a ação política LGBTQIA+ pode estar ao lado de forças históricas resistência ao avanço da extrema direita, com o mesmo peso dessas forças. Tem gente que acha estranho.

Sindicatos e partidos terão de compartilhar espaços com entidades que reúnem gays, lésbicas, trans, bis, agêneros, queers. Por isso uma reação previsível, inclusive nas redes sociais brasileiras, denunciou que parte das esquerdas tradicionais passou a se interrogar: mas o que é isso, companheirada?

Os movimentos identitários assumem tarefas que eram até agora da esquerda dedicada à explicitação dos conflitos de classe. Uma esquerda raiz que se queixa, e muito, da dispersão de energias pelo ativismo dos identitários e pelo que genericamente chamam de cultura woke.

A jornalista Fabiana Solano, de El Destape, escreveu: “A frente antifascista em formação pode ser o teste de uma nova configuração política em nível nacional para reintegrar os fragmentos quebrados da sociedade argentina”.

Milei finalmente admitiu que a mobilização o incomodou e tentou remendar o que disse. O movimento LGBTQIA+ pode conseguir o que a velha esquerda, abalada pela crise do peronismo kirchnerista, não vinha conseguindo.

Pode ser o agregador de forças dispersas, que vinham tendo boa performance de rua, mas eram incapazes de conter a fúria e o ódio de Milei contra mulheres, gays e negros e de fragilizar as bases políticas que o sustentam.

E o Brasil, que proveito pode tirar dessa politização de movimentos que expandem seus alcances para fora dos limites das questões de gênero e de grupos? Ninguém está dizendo que devem tentar copiar, mas desfrutar dessa inspiração.

A deputada Erika Hilton, que é muito mais do que uma voz trans, pode ajudar a perseguir respostas, com os mandatos e os movimentos LGBTQIA+. A esquerda tradicional pode se abalar, mas fazer o quê?

One thought on “A força política identitária que incomoda direita e esquerda

  1. È uma reflexão interessante a ser fazer. No passado, cabia ao movimento estudantil puxar as manifestações de rua. Depois veio a classe trabalhadora organizada, mobilizada pelos sindicatos. Com a precarização do trabalho (que esvaziou os sindicatos), a falta de políticas públicas para a juventude, e a incapacidade da esquerda em rever seus dogmas, as manifestações de rua minguaram. Mas a insatisfação da juventude não. Os protestos de 2013 demonstraram isso. Com a perda de sua base social, parte da esquerda apostou em candidaturas ditas “identitárias”, com algum sucesso.
    Wilhelm Reich escreveu um livro sobre o combate sexual da juventude, demonstrou o quanto a repressão sexual alimentava o fascismo (tão aí os incels, red pills e outras bostas misóginas pra provar). Aliás, Milei teve uma grande votação na juventude. Os LGBTQIAPN+ dão relevo ao direito ao próprio corpo e ao prazer. O capitalismo quer domesticar os corpos, torná-los dóceis para a exploração. Enfim, temos um tema pra debate, como articular essas demandas com a luta de classes.

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