A MÉDICA, O IDOSO E O JOVEM DO PÔR DO SOL

O prefeito Bruno Covas mandou fechar a Praça Pôr do Sol. Os jovens paulistanos não desistem de se aglomerar todo fim de tarde para, claro, ver o sol ir embora. A imagem acima é de um drone e foi feita na semana passada na praça lotada de amantes das liberdades.

A notícia do fechamento da área saiu ao lado de uma outra que ficou num canto do site da Folha, durante todo o domingo. É uma advertência curta e impactante sobre o cenário que está à espera dos brasileiros nos hospitais.

Não é o alerta de Mandetta de que maio e junho serão terríveis. Nem a ameaça de ascensão de Osmar Terra como líder da saúde pública (porque essa é uma notícia velha).

A notícia que a Folha quase escondeu é a da cardiologista e intensivista Ludhmila Abrahão Hajjar, diretora de ciência e tecnologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

A Folha destacou as observações de Ludhmila para desmistificar o que Bolsonaro e os filhos dizem da cloroquina, que pode, se usada em massa, mais matar do que salvar.

Mas a médica adverte que, ao lado das dúvidas sobre o respirador e a droga milagrosa de Bolsonaro, os brasileiros deveriam atentar para o seguinte:

“Não é só ter respirador. Quando eu intubo um doente, ele fica 15 dias na UTI. Vai precisar de fisioterapeuta 24 horas, antibiótico. Muitas vezes, morre de infecção, maus tratos, não tem gente para cuidar, não tem profissional, não tem material”.

Ludhmila está dizendo o que os médicos relatam inclusive em Nova York. O paciente poderá até entrar na UTI. Poderá disputar e ganhar um respirador. Mas, antes mesmo do pico da pandemia, não terá como disputar remédios que não existirão e a atenção de gente que não tem como atender a todos que estão ali.

Quando fala de maus tratos, a médica não está se referindo a desleixo ou omissões deliberadas. Ela fala de maus tratos no sentido de que o paciente será tratado precariamente por profissionais estressados e sem equipamentos de proteção.

Penso nos asmáticos que andam pelos parques. O Parcão, reduto dos tiozinhos bolsonaristas de Porto Alegre, estava lotado ontem, com a gauchada da direita compartilhando o mate e as soluções para a pandemia e a economia.

Eles acham que as UTIs terão todos os remédios que eles tomam diariamente para que se mantenham vivos?

Os passeadores acreditam que, se conseguirem um respirador, terão atenção suficiente para que sobrevivam, mesmo em hospitais particulares superlotados ou em áreas de atendimento a quem tem plano de saúde?

Não haverá gente para cuidar, não haverá material, não haverá remédio. Os passeadores, que imitam Bolsonaro, disputarão os recursos com muitos que se cuidaram ou foram obrigados a continuar trabalhando e mesmo assim irão parar nas UTIs da pandemia.

Os jovens do pôr do sol irão disputar respiradores com médicos e enfermeiros infectados enquanto cuidavam dos jovens que fazem tudo para ver o sol se pondo, para curtir a liberdade, os pássaros, o ar puro, o verde e o egoísmo extremo.

As pandemias são amorais. E os passeadores são jovens amorais curtindo a imortalidade. Na hora em que disputam equipamentos, remédios e atenção nas UTIs, sabe-se que eles têm a preferência, porque raramente sofrem de doenças agravantes e têm maior chance de sobrevivência.

Os passeadores contam até com isso. Intensivistas fazem escolhas urgentes. E, entre um idoso que se cuidou e um jovem imitador de Bolsonaro, podem (sem saber nada de um e de outro) escolher o passeador.

O idoso irá para os cuidados paliativos. E o jovem sem escrúpulos será salvo para continuar passeando. É assim nas guerras e nas pandemias e mais ainda em tempos bolsonaristas.

One thought on “A MÉDICA, O IDOSO E O JOVEM DO PÔR DO SOL

  1. Ampliem as fotos e divulguem nos hospitais.
    Na hora do “sorteio” do respirador JÁ é um critério parA saber quem é o vencedor!

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