A PESTE, OS PEDREIROS E O HELICÓPTERO

Um helicóptero sobrevoou hoje à tarde a zona sul de Porto Alegre com alguém gritando lá dentro ou numa gravação para que as pessoas fiquem em casa. Passaram sobre uma área em que o único som alto que se ouve é de ferro, martelo e madeira numa obra perto de onde moro.

É um trabalho que tem duas semanas. Estão começando as fundações de uma casa. Eram uns cinco ou seis homens. Na sexta-feira da semana passada, só apareceram dois.

Foi no dia em que o Internacional anunciou que o presidente Marcelo Medeiros estava com o coronavírus. Tive uma ideia. Gritei da minha janela, no segundo andar, para um dos homens lá embaixo:

– Bom dia, amigo. Qual é o teu time?

– Sou colorado.

Ele me olhou sorridente. Era a resposta que eu queria. Eu disse então que o presidente do time dele havia sido infectado. Ele respondeu logo:

– Tô sabendo.

E eu fui adiante, num impulso arriscado:

– Pois então, meu amigo. Me desculpa, mas tu não tá correndo risco nessa obra?

O homem de uns 40 anos me olhou com um ar de constrangimento, virou-se sem dizer nada, acocorou-se e começou a martelar uma pedra. E disse então:

– Eu preciso trabalhar.

Eu pedi desculpas de novo e disse que entendia.

No sábado, ele voltou com outro colega e os dois trabalharam pela manhã. No domingo, não apareceu. Na segunda e na terça, só ele e outro, que não sei se era o mesmo.

Na quarta-feira, na manhã seguinte à fala criminosa de Bolsonaro na TV, ouvi mais vozes, espiei pela janela, tentando não ser desrespeitoso, e percebi que todos os que haviam sumido estavam de volta.

Hoje eles estavam lá quando o helicóptero passou. Não vou dizer mais nada como tentativa de advertência, porque o moço me comoveu naquela conversa da sexta-feira e porque agora eu temo uma reação dos outros.

É certo que a fala de Bolsonaro tirou os outros de casa, ou teria sido muita casualidade.

Eles já abriram buracos no chão, e hoje uma retroescavadeira tirou pedras que estavam no meio do terreno. O ritmo parece forte. Conversam bem alto, ouvem rádio.

Em alguns momentos me flagro desejando que todos continuem trabalhando, como se isso fosse a prova de que estão bem. Depois, desejo que não reapareçam nos próximos dias.

Sei que eles querem continuar trabalhando, para que não percam a ocupação e o salário. Mas certamente não é só isso.

Tento pensar em algo que a classe média confinada há décadas não consegue entender. Eu não tenho como saber, por mais que me esforce, o que faz um operário sair de casa todas as manhãs, mesmo sob a ameaça da pandemia.

Dito de outra forma, inverta o raciocínio e pense assim: cada um também pode ter seus motivos para não ficar em casa.

A única coisa que sei é que um deles é colorado, aparentemente o chefe da obra. Não sei mais nada. Nem onde moram e muito menos o nome do que falou comigo.

Eu não me apresentei, ele não se apresentou e assim segue a nossa vidinha, eles lá e nós aqui. E os helicópteros sobrevoando nossas cabeças com auto-falantes, como se a Aberta dos Morros tivesse virado o Vietnã.

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