A VELHA HISTÓRIA DO ‘EU AVISEI’

Daqui a alguns anos, quando os jovens de hoje olharem de novo para trás (que é o que mais fazemos), poderão dizer: muitos nos apoiaram para que saíssemos às ruas e eles estavam certos, porque derrotamos o fascismo.

Mas é provável também que, numa situação inversa, eles tenham de dizer: alguns nos alertaram para que não fôssemos às ruas, porque o fascismo iria se fortalecer, e infelizmente esses foram os que acertaram.

Os democratas esperam que os primeiros estejam certos no que dizem hoje nessa controvérsia do vai-não-vai-pra-rua. Com os cuidados a tomar, que os jovens façam o que acham que deve ser feito, como fazem os americanos hoje.

E que se preste atenção no jeito um pouco pedante dos que dizem o contrário. Essa história do eu ‘avisei’ pode ser boa para brincadeiras com a frase feita nas redes sociais, mas não funciona para coisas mais sérias.

Pois é nessa linha da empáfia do ‘eu avisei’ o artigo do cientista político Luiz Eduardo Soares sobre as manifestações de domingo, que muita gente compartilhou.

Soares adverte que Bolsonaro deseja que saiam às ruas contra a ameaça de golpe, porque assim pode usar infiltrados, dizer que radicalizaram, fechar tudo e aplicar o golpe.

O cientista, homem sensato, respeitado por sua trajetória também como figura pública e especialista em questões de segurança, dá involuntariamente até a receita do que o governo pode fazer, o que parece uma imprudência numa hora dessas.

Soares descreve o que virá aí depois do golpe, se as pessoas saírem às ruas e entrarem em choque com a repressão. Ele acha que as ruas hoje são uma arapuca.

Um pensador de esquerda pode mandar um recado à extrema direita dizendo que estamos preparados para o golpe e que ninguém deve sair às ruas por medo dos infiltrados de Bolsonaro?

Esse é o trecho do artigo em que ele imagina o cenário que virá depois das manifestações contra o fascismo:

“Se vocês forem às ruas, e eu adoraria que fossem e eu estaria junto com vocês, em condições normais, não só vão ajudar a propagar o vírus em nossos grupos, como vão oferecer a oportunidade que os fascistas aguardam, ansiosamente, e que têm sistematicamente estimulado.

Se isso ocorrer no próximo domingo, à noite, em rede de TV e rádio, Bolsonaro dirá que, em defesa da lei e da ordem, e “da democracia”, enviará na manhã seguinte solicitação ao congresso para a decretação do estado de sítio. Se não houver apoio, o “poder moderador” das

Forças Armadas se imporá, porque, afinal de contas, “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”. Interventores, com apoio das polícias estaduais, tomarão o poder nos Estados. Em lugar do Supremo, uma corte de exceção será nomeada.

Nessa noite tão tenebrosa quanto previsível, as lideranças sociais e políticas não alinhadas ao fascismo serão alvo de diferentes tipos de ação. Prefiro não descrevê-las. E só então quem, à esquerda, costuma desdenhar da “democracia formal” e de uma “Constituição que nunca chegou às classes subalternas ou aos territórios vulneráveis” vai entender que faz diferença, sim, o regime político, a tal democracia, por mais limitada e precária que seja, no Brasil”.

Esses alertas de Soares não parecem demasiados? Bolsonaro teria mesmo o poder de mobilizar os militares e assumir a liderança de um golpe?

É tarefa de um cientista do porte de Luiz Eduardo Soares descrever em detalhes o que Bolsonaro estaria pensando para a execução do golpe?

Um pensador da política com a trajetória de Soares pode descrever o golpe como se tivesse entrado nas cabeças de Bolsonaro e dos militares?

Com suspensão de direitos? Com estado de sítio, fechamento do Supremo? Com intervenção nos Estados?

Quase no final do artigo, Soares pergunta: “Vocês acham que eu exagero? Estou paranoico? A quarentena me fez mal?”

Parece apenas que o texto é um prepotente ‘eu avisei’.

4 thoughts on “A VELHA HISTÓRIA DO ‘EU AVISEI’

  1. Ele é uma figura respeitável. Eu o admiro. Mas o recado soa pretensioso. Ou só ele sabe o que ninguém mais sabe, ou ele pensa que sabe o que ninguem mais sabe. Além do Que, imputa responsabilidades a quem for pra rua. Acredito que sem rua não há processo jurídico que tire o cara de lá. Torço para que ele esteja errado.

  2. Estou de acordo com tua crítica. Há uma certa prepotência quando se tenta dar estatuto político ou teórico aquilo que é meramente uma opção individual.

  3. Na verdade, tudo depende da disposição de quem for para a rua. Se a de protestar, agora, for a mesma para se “interpor aos tanques” (ou o quer que venha às ruas, como força repressiva), como fizeram os turcos, há alguns anos, quem sabe o que irá acontecer? Nesse caso, não haverá golpismo que se imponha. Mas, para isso, teremos que ver a mesma fúria que vemos, por exemplo, em torcedores em certos jogos de futebol – uma fúria que, talvez, depois de desatada, não possa ser contida sem muito estrago (nos alvos que decidir atacar).

  4. Caríssimo jornalista Moisés Mendes, reconheço ser válida sua preocupação, entretanto a hora é do debate e esta hipótese não pode ser descartada liminarmente. Não admitir a possibilidade que o cenário descrito por Luiz eduardo soares se efetive seria temerário, portanto,
    devemos considera-la como factível embora improvável. Esta é a minha posição.

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