Abrão Slavutzky e o amor-próprio

O AMOR-PRÓPRIO
Abrão Slavutzky
Psicanalista

O livro As brasas do escritor húngaro Sándor Márai relata a história de um ressentimento. É a história da amizade de Henrik, filho de um oficial da Guarda do Imperador, com Konrad, filho de uma família pobre. Uma fraternidade importante que vai da infância até a formação militar. Um dia essa amizade é cortada, pois Henrik descobre que seu irmão de vida o traiu com sua esposa Krisztina. O casamento foi desfeito e Henrik nunca mais dirigiu a palavra à esposa. Ele esperou dela uma explicação que não recebeu e ela morreu alguns anos depois. Já o amigo volta a procurá-lo após 41 anos de separação e marcam um jantar.
A conversa foi quase um monólogo, e Henrik lá pelas tantas disse: “Há coisa pior que a morte e qualquer sofrimento, é a perda de amor-próprio. Quando uma ou mais pessoas nos ferem no nosso amor-próprio, que é a nossa dignidade de homem, a ferida é profunda. É uma questão de vaidade… sim, mas o amor-próprio é o que há de mais profundo na vida”.
Henrik após a conversa com o velho amigo pode repor o retrato da sua esposa morta na parede da casa. Ele era um homem cujo código de honra foi corroído, penou dia e noite pelas humilhações sofridas. Os ressentimentos crônicos empobrecem, são melancólicos.
Um dia escutei uma pergunta surpreendente sobre como se aumenta o amor-próprio. A questão em si é melhor que as propostas dos livros de autoajuda, pois não há receita que solucione questões ligadas à particularidade de cada pessoa. Fiquei quieto e depois de um tempo disse algo assim: “Tua pergunta é muito boa, e vejo nela o desejo de melhorar o amor por ti mesmo”. Os pacientes perguntam, querem saber, e às vezes o analista pensa saber, mas com o tempo se aprende que as perguntas, em geral, são melhores que as respostas. Aliás, a própria pergunta, muitas vezes, faz parte já da resposta. Exemplos: passei a adolescência discutindo sobre a identidade do que era ser judeu e um dia li que essa pergunta integra a resposta de inquietação sobre a identidade. O mesmo vale para a pergunta do que é ser psicanalista. Quem para de se perguntar, para de aprender, e adormece a curiosidade.
O amor é indispensável para um bebê crescer, uma criança se fortalecer, um adolescente se encontrar, um adulto se afirmar no seu desejo. O amor-próprio é a honra, o sentimento de ser valorizado por alguém, pelos amigos, familiares. Esse amor é a matriz do narcisismo, o indispensável amor a si, pois para amar alguém é preciso também se amar. Quem é carente de elogios, é inseguro sobre quem é. Em geral, não teve apoio suficiente nos primeiros anos de vida, torna-se dependente e desamparado. Enfrentar o desamparo, atravessar os fantasmas, é a chave do amadurecimento. Só assim se abrem as possibilidades de novos laços afetivos. O amor próprio na maturidade envolve a capacidade de viver mais livre da família de origem. Desafios difíceis, mas excitantes, pois tem a ver com a capacidade da metamorfose. A Psicanálise, segundo diferentes escolas, pode desenvolver a capacidade de amar, sonhar, a capacidade negativa- suportar as dificuldades- e a capacidade de buscar seus desejos.
Os problemas com o amor-próprio, como no caso de Henrik, bem como, outras depressões, são os nós amorosos. Nós gerados na infância, que junto as questões genéticas, como nos transtornos do humor, tornam a vida mais sofrida. São longos percursos labirínticos que podem ser aliviados na formação de boas parcerias. Recordo sempre o proverbio zulu: Umuntu ngumuntu ngabuntu- Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas.

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